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Maus-tratos a gatos em plataformas digitais cresceram 120% em menos de 3 anos

Núcleo Jornalismo April 24, 2026
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Apenas nos primeiros três meses de 2026, 385 casos de maus-tratos a gatos na internet foram contabilizados pelo Núcleo de Observação e Análise Digital (NOAD) da Polícia Civil de São Paulo. Desde que o grupo passou a monitorar esse tipo de crime, em 2024, o salto foi de 120% (175 casos naquele ano). Em 2025, 340 ocorrências foram computadas.

Ao Núcleo , a delegada Lisandrea Salvariego, coordenadora do NOAD, explicou que esse número pode aumentar à medida que investigações avançam e identificam casos novos e antigos. Ela aponta que, apesar de cães também serem vítimas, filhotes de gatos são o alvo preferencial pela baixa resistência do animal.

Segundo ela, o objetivo é que os agressores ganhem notoriedade dentro da comunidade que participam, chamadas de "panelas", em que a crueldade se torna um tipo de desafio para conseguir pertencimento, e a tendência é que a violência escale. Na maioria dos casos, são adolescentes ou jovens do sexo masculino com idades que variam de 16 a 20 anos.

"Os maus tratos à animais são a porta de entrada para os outros crimes. Ou seja, eu dessensibilizo um adolescente a tal ponto que ele consegue depois induzir uma menina à automutilação, induzir uma menina ao suicídio", afirma.

Os sacrifícios e torturas costumam ocorrer por meio de transmissões online, especialmente no Discord que, segundo ela, representa em torno de 90% dos casos monitorados, seguido do Telegram. A falta de moderação associada à existência de grupos fechados facilitam as práticas.

Desde 9.mar.2026, o Discord anunciou que passou a implementar mecanismos de verificação de idade. Um mês antes, durante evento da Semana da Internet Segura, a representante da plataforma disse ao Núcleo que os canais de voz (chamados de palcos) seriam bloqueados por padrão para evitar contato de crianças com adultos, mas não explicou se haveria mudança nas transmissões online em vídeo, recurso que costuma ser utilizado para o cometimento dos crimes.

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A Lei 9.605/1998 prevê o crime de maus-tratos a animais, o que envolve ferir, abusar ou mutilar. Desde 2020, a pena passou a ser maior caso a violência seja praticada contra cão ou gato: reclusão de dois a cinco anos, além de multa e proibição da guarda. É possível denunciar casos ao Ibama e às polícias estaduais.

"Eles querem que esses eventos sejam vistos, então eles soltam iscas", afirma a delegada. "Por exemplo, 'hoje às 23 horas teremos um evento' e aí eles colocam um emoji de sangue, um gatinho. E aí eles soltam essas iscas em algumas redes sociais e dão um link para o um servidor [grupo fechado] do Discord. E hoje nós temos inúmeros servidores em monitoramento contínuo", explica.

A observação desses servidores, cujos usuários estão em diversos estados, permite que as autoridades possam agir antes de os crimes acontecerem. Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, as ações do NOAD em cooperação com outras polícias salvaram 365 vítimas de abuso e mais de mil animais.

O NOAD também apura possibilidade de monetização desse conteúdo e, de acordo com a pasta, "as apurações estão em fase inicial e detalhes adicionais não serão divulgados, a fim de não comprometer o andamento das investigações".

No mês passado, o grupo entregou um relatório ao Ministério Público de São Paulo que "identifica falhas de moderação em plataformas de comunicação digital e aponta brechas que têm permitido a prática de crimes contra crianças e adolescentes nesses ambientes", segundo a assessoria da corporação.

O Núcleo havia solicitado o detalhamento dos dados do NOAD via Lei de Acesso à Informação, mas a Polícia Civil paulista negou o acesso. Já o Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab) do Ministério da Justiça e Segurança Pública informou que foram realizadas desde 2025 duas operações interestaduais com foco em violência virtual contra animais a partir dos monitoramentos online.

Paralelamente, entidades de defesa dos direitos dos animais criaram uma campanha para coibir a impunidade nos casos de violência e cobrar maior responsabilidade das plataformas digitais na disseminação e eventual exploração comercial desses conteúdos.

Ao Núcleo , a assessoria do Discord informou que realiza moderação proativa por uma equipe especializada e também por meio de denúncias feitas pelos usuários, além de colaborar com autoridades policiais.

Leia os esclarecimentos do Discord

  • A abordagem multifacetada e holística para a segurança inclui:
  • * Nossas Diretrizes da Comunidade universais se aplicam a todo o conteúdo e a todas as interações na plataforma. Aplicamos essas Diretrizes da Comunidade por meio de uma combinação de detecção proativa e medidas reativas, apoiadas por uma variedade de soluções humanas e técnicas. O Discord identifica conteúdo e servidores que podem violar suas políticas de diversas maneiras, incluindo (1) por meio de moderação proativa por uma equipe dedicada de funcionários do Discord, (2) por meio de denúncias geradas por usuários, (3) por meio de nossa Rede Segura de Denúncias, composta por quase 50 organizações em todo o mundo - incluindo grupos da sociedade civil e organizações não governamentais - que nos ajudam a alertar sobre indicadores de conteúdo prejudicial e auxiliam em nossos esforços para detectar e tomar medidas contra esse conteúdo no Discord. A moderação proativa é supervisionada por equipes especializadas treinadas para investigar e prevenir certos tipos de conduta prejudicial, incluindo extremismo violento, materiais de exploração e abuso sexual infantil e crimes cibernéticos.
    
  • Trabalhando com autoridades policiais e órgãos de segurança pública no Brasil:
  • * Mantemos um diálogo ativo com as forças policiais brasileiras nos níveis federal, estadual e municipal, fornecendo orientação e treinamento sobre como apresentar solicitações de processos legais adequados para garantir uma resposta rápida e um processo tranquilo, além de cooperar em conformidade com a lei em diversas operações recentes, como por exemplo a Operação Fake Monster.
    
    • Fornecemos recursos e treinamento para as forças policiais, adaptados para atender às prioridades específicas de segurança pública do Brasil.
    • Nossa parceria com a Ciberlab oferece treinamento especializado para policiais e promotores brasileiros: Mais de 1.000 profissionais já foram treinados, sendo que a sessão mais recente, em março deste ano, contou com mais de 70 policiais e promotores.
    • Embora continuemos nossa colaboração ativa com as forças policiais brasileiras, incluindo diversas sessões de treinamento, também nos comprometemos a expandir a colaboração com outras autoridades brasileiras.

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Texto Jeniffer Mendonça

Arte Aleksandra Ramos Edição Alexandre Orrico

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