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"description": "Sem regulação, ofertas de emprego no Facebook, no Instagram e no Threads violam leis trabalhistas e prometem condições semelhantes às que foram usadas para aliciar brasileiros que se tornaram vítimas de tráfico de pessoas ",
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"publishedAt": "2026-03-23T19:33:27.000Z",
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"textContent": "Vaga para auxiliar de limpeza nos Estados Unidos com salário de até US$75 por hora (dez vezes a média do salário dos EUA), sem precisar saber inglês, sem necessidade de experiência, com horário flexível, alojamento fornecido e pagamento em dinheiro. Proposta especialmente direcionada para imigrantes e recém chegados ao país.\n\nAnúncios como esse são impulsionados no Facebook, no Instagram e no Threads para o público brasileiro. Enquanto a Meta aplica filtros rigorosos de transparência para anúncios de emprego em países como Reino Unido, Estados Unidos e Canadá, essas ofertas operam em um vácuo regulatório no Brasil. Sob a fachada de uma oportunidade imperdível, a descrição da vaga carrega padrões de fraude que o Itamaraty já identifica como o primeiro passo para o tráfico de pessoas.\n\nA reportagem identificou 28 ofertas de trabalho com indícios de aliciamento – quase uma por dia – entre 1° e 31 de janeiro de 2026, disponíveis na biblioteca de anúncios da Meta. O mesmo anúncio de auxiliar de limpeza com baixa requisição e alta remuneração foi replicado 16 vezes na plataforma. Outros 12 anúncios, que repetiam a mesma fórmula no texto, estavam direcionados a trabalhadores da área hospitalar.\n\nExemplos de anúncios de trabalho direcionados para imigrantes nas redes da Meta\n\nEm 24 de fevereiro, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) emitiu um alerta consular sobre indícios de aliciamento para tráfico de pessoas em anúncios de trabalho no Sudeste Asiático. O MRE identificou que “ofertas, direcionadas especificamente a brasileiros, incluem salários aparentemente atrativos, comissões por ‘ativos’ vendidos e custeio de passagens aéreas”.\n\nDados do MRE obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) mostram que entre 63 possíveis vítimas de tráfico humano registradas pelos postos consulares no Brasil em 2024, 40 foram classificadas como trabalhadoras em condições análogas à escravidão em plataformas digitais de apostas.\n\nGeograficamente, o problema concentra-se no Sudeste Asiático, com as Filipinas (20 casos), o Laos (11) e o Camboja (7) liderando o ranking de registros. Ainda que a região esteja se consolidando como foco de tráfico humano, sobretudo para jovens com conhecimentos em informática, não é um problema novo e nem de exclusividade da Ásia.\n\nEm 4 de março, a Embaixada do Brasil na Croácia também emitiu um alerta consular no qual informa sobre um aumento no número de brasileiros atraídos por ofertas de emprego, que terminam vítimas de redes de tráfico de pessoas para exploração sexual no país europeu.\n\n### Agulha no palheiro\n\nEncontrar esses anúncios na biblioteca da Meta, no entanto, não é tarefa fácil, já que a plataforma não possui categoria de ofertas de emprego no Brasil. Na prática, isso significa que anúncios de trabalho ficam misturados em meio a ofertas de produtos, serviços e todo o tipo de anúncio, que se tornam inativos depois do período de atividade do post, diferente do que acontece com anúncios políticos, que têm uma categoria própria e devem ser armazenados por até 7 anos para consulta. A ausência da categoria de anúncios de emprego no Brasil dificulta a auditoria por pesquisadores, jornalistas e cidadãos.\n\nSe por um lado encontrar esses anúncios na intenção de auditar é difícil, ser encontrado por um anúncio é exatamente o serviço fornecido pela Meta para os contratantes que podem segmentar as campanhas com base em idade, gênero e localização. Outros fatores são baseados no comportamento dos usuários: o que buscamos, em que momento buscamos, como buscamos.\n\nO que chamamos de algoritmo é justamente essa operação silenciosa que ocorre a partir da captura de informações de usuários, para que um anúncio encontre um possível consumidor no momento mais propício. Tudo isso, claro, ocorre em segredo de mercado, uma vez que os algoritmos são considerados ativos estratégicos de plataformas como a Meta.\n\n“Em relação ao algoritmo, já temos condições de afirmar que existe um tipo de violência baseada em gênero”, aponta Julice Salvagni, socióloga do trabalho e coordenadora do Fairwork Brasil, projeto sediado no Oxford Internet Institute que estuda trabalhos em plataformas digitais. “Para mulheres, são ofertados trabalhos com remuneração menor, o que constata uma perpetuação da desigualdade de gênero nesse âmbito também”, completa.\n\nA empresa não informa a distribuição demográfica dos anúncios, o que impede verificar para que tipo de público o conteúdo é direcionado. O direcionamento de anúncios de emprego no Brasil é proibido, mas como a plataforma não faz distinção entre anúncios de produtos e de trabalho, consegue burlar a lei que veda a segmentação.\n\nRodrigo Castilho, procurador do Ministério Público do Trabalho (MPT), afirma que o artigo 373-A da CLT proíbe a publicação de ofertas de emprego direcionadas por sexo, idade ou cor. “O grande problema é que essas legislações não se aplicam a uma empresa que tem sede fora do Brasil”, explica.\n\nEm meio a esses anúncios, estão as ofertas de trabalho fraudulentas que podem levar ao aliciamento de brasileiros por redes de tráfico de pessoas. “Não é difícil se fazer um anúncio desses nas plataformas mais acessadas do mundo, como as da Meta, que não faz um controle devido. Esses anúncios não enfrentam problema nenhum para chegar aos usuários”, destaca David Nemer, antropólogo da tecnologia e professor da Universidade de Virgínia.\n\n****Nosso jornalismo faz diferença****\nAjude o __Núcleo__ a continuar fazendo reportagens como essa: __assine por apenas R$ 10__ para apoiar o melhor jornalismo de tecnologia do Brasil e ter acesso a benefícios exclusivos.\n\n\n Apoie agora\n \n\n### **Dois pesos, duas medidas**\n\nPara Nemer, existe um respeito maior das plataformas digitais com países do Norte Global em relação a países como o Brasil. De fato, a política de transparência de anúncios não é a mesma no mundo inteiro. Enquanto o Brasil debate a regulamentação das redes, a Meta enfrenta processos judiciais ao redor do mundo que acabam forçando a empresa a implementar políticas de transparência.\n\n#### Processos dos EUA, Canadá e Reino Unido\n\nNos Estados Unidos, um acordo judicial em 2019 entre a Meta e organizações da sociedade civil como Aliança Nacional de Habitação Justa (NFHA), União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) e Sindicato dos Trabalhadores de Comunicação da América (CWA), culminou na criação das categorias de anúncios de emprego, moradia e crédito.\n\nNo Canadá, um processo judicial contra a Meta evidenciou como os anúncios de emprego, moradia e crédito aprofundavam as desigualdades com a microssegmentação, tornando vagas de empregos invisíveis a depender do grupo etário, gênero e raça. O processo responsabilizou a empresa por fornecer as ferramentas que viabilizavam a discriminação algorítmica, o que levou a Comissão Canadense de Direitos Humanos (CHRC) a monitorar salvaguardas rigorosas para essas categorias sensíveis.\n\nNo Reino Unido, a intervenção regulatória da Comissão de Igualdade e Direitos Humanos (EHRC) resultou no Online Safety Act de 2023 que obriga as plataformas a regular e remover anúncios e impedir a veiculação de golpes e fraudes.\n\nEm todos os casos, a Meta foi forçada a avançar na transparência de sua biblioteca de anúncios criando uma categorização para anúncios de interesse social como emprego, moradia e crédito. Na prática, os anúncios de trabalho não podem mais ser tratados como anúncios de venda de produtos e serviços nesses países, o que ainda ocorre no Brasil.\n\nEmbora essa dinâmica de golpes e fraudes não seja propriamente nova, as redes sociais agravam e aceleram esse problema. Em 2025, a pesquisa sobre o uso de Tecnologia de Informação e Comunicação nos Domicílios brasileiros (TIC Domicílios), ligado ao Comitê Gestor da Internet (CGI.br), responsável por coordenar e integrar as diretrizes de governança e as iniciativas de serviços de internet no Brasil, constatou que 86% da população brasileira tem acesso à internet. Desse universo, 81% declararam acessar as redes sociais e **19% informaram usar a internet para procurar empregos**.\n\nAs redes sociais configuram um ambiente propício para a divulgação de vagas de emprego, mas sua arquitetura cria uma camada de proteção para o aliciador que o mundo físico não permitia, avalia Natália Suzuki, Gerente de Educação e Políticas Públicas da Repórter Brasil. Segundo ela, o ambiente digital torna o processo \"mais fluido\", pois o responsável pela exploração pode operar de outras regiões.\n\n\"A pessoa pode nunca aparecer, nunca mostrar a cara. Pegar essa pessoa é muito mais difícil do que identificar um 'gato' [aliciador] ou uma empresa de intermediação ilegal concreta\", explica Suzuki, que afirma que o meio virtual tornou-se mais um obstáculo para a responsabilização e investigação.\n\n### **Um novo anúncio por dia**\n\nComo não é possível realizar uma busca por categoria de anúncios de emprego no Brasil, a reportagem precisou buscar em toda a biblioteca da Meta. Durante todo o mês de janeiro de 2026, o termo ‘call center’ retornou 77.881 anúncios. O termo ‘modelo’ foi outro que gerou 61.180 resultados. Termo similar ‘contrato modelo’ resultou em 29.525 anúncios encontrados. Esses termos somados totalizam 168.586 anúncios.\n\nExemplos de anúncios de trabalho nos EUA voltados para a área da saúde\n\nFazer a mesma busca via API em países onde a Meta cumpre regras rígidas de transparência retorna um volume de resultados substancialmente menor. A reportagem buscou na categoria de “EMPLOYMENT_ADS” os termos 'job asia', 'job thailand', 'job cambodia', ‘'cleaning assistant', 'call center', 'customer service', 'model', 'model asia', 'model cambodia', 'model thailand'. Para o Reino Unido, foram 657 anúncios, para o Canadá, 237.\n\nA busca direcionada por meio da categoria “anúncios de emprego” leva a um número restrito de posts, o que facilita a análise desses anúncios no Canadá e Reino Unido. No Brasil, sem essa categoria, monitorar os possíveis golpes e aliciamentos é como encontrar uma agulha em um palheiro.\n\nAinda que a categoria de anúncios de empregos fosse implementada no Brasil, pode não ser suficiente para garantir transparência já que a Meta se esquiva da responsabilidade e diz que o dever de categorizar o anúncio é do anunciante, explica Bruno Mattos, coordenador de projetos do NetLab (ECO - UFRJ).\n\n“As plataformas colocam muito peso nos anunciantes, mas não podemos perder de vista que as elas estão lucrando com os anúncios e precisam ser responsáveis por essas etapas de verificação do conteúdo, de aprovação de um anunciante e de todo o ciclo de vida da publicidade, do momento que ele é criado até o momento que pára de circular”, aponta Mattos.\n\nCastilho admite que não existe atualmente uma atuação sobre o ecossistema de anúncios fraudulentos por parte do Ministério Público do Trabalho. O órgão ainda atua majoritariamente sob demanda, reagindo a denúncias específicas contra empresas determinadas, devido à escassez de recursos e à complexidade técnica de enfrentar gigantes tecnológicas que operam sem transparência algorítmica.\n\nAté o momento desta publicação o Ministério do Trabalho e Emprego não respondeu ao nosso contato.\n\nA Meta disse que \"atividades que tenham como objetivo enganar, fraudar ou explorar terceiros não são permitidas em nossas plataformas e estamos sempre aprimorando a nossa tecnologia para combater atividades suspeitas. Também recomendamos que as pessoas denunciem quaisquer conteúdos que acreditem ir contra os Padrões da Comunidade do Facebook, das Diretrizes da Comunidade do Instagram e os Padrões de Publicidade da Meta através dos próprios aplicativos.”\n\n#### Perguntas enviadas para a Meta\n\n * Por que as categorias de transparência para anúncios de emprego, já operantes em outros países, ainda não estão disponíveis no Brasil?\n * Como a Meta valida a identidade e a legalidade de empresas que compram anúncios na plataforma?\n * Qual o protocolo da plataforma para identificar e remover anúncios que apresentam indicadores de fraude antes que atinjam o público-alvo?\n\n\n\n### **Metodologia**\n\nA reportagem acessou a **biblioteca de anúncios da Meta via a Graph API** por meio de um script em python para tentar entender o ecossistema de anúncios de trabalho. Iniciamos a coleta com termos generalistas como “call center”, “costumer service”, “cleaner” e “model”, o que retornou um alto volume de resultados. A maior parte deles se tratavam de novelas produzidas por IA e sujavam a base de dados.\n\nA reportagem refinou a busca com termos mais específicos direcionando para “Ásia”, “Camboja”, “Tailândia”, em consonância com o alerta consular e reportagens nos últimos anos que apontam essa região como foco de tráfico de pessoas.\n\nAo restringir a busca, chegamos a 1.967 anúncios. Por meio de análise textual filtramos 944 anúncios como fraudulentos, mas nem todos tinham relação com ofertas de trabalho no exterior e indícios de aliciamento.\n\nO alerta consular foi usado como baliza para categorizar os anúncios com indícios de aliciamento. O resultado são 28 anúncios que divulgam vagas de trabalho no exterior para pessoas com baixa qualificação, sem domínio da língua estrangeira, acomodação inclusa e preferência por imigrantes.\n\n__Esta investigação foi produzida com o apoio da Open Knowledge Brasil (Escola de Dados) e da Embaixada Britânica no Brasil, como parte do projeto Dados por Direitos. As opiniões, dados e conclusões aqui expressos são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem necessariamente a posição oficial do governo britânico ou da Open Knowledge Brasil.__\n\nCoordenação Geral: Haydée Svab\nCoordenação Editorial: Thays Lavor\nMentoria: Aline Gatto Boueri\n\n###### Reportagem **Bruno Borges**\nArte **Rodolfo Almeida**\nEdição **Alexandre Orrico**",
"title": "Redes da Meta permitem falsos anúncios de trabalho no Brasil",
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