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'Se ela disser não': trend no TikTok promove violência contra a mulher

Núcleo Jornalismo March 9, 2026
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Homens estão glamourizando violência contra a mulher em uma trend que tem ganhado mais visibilidade no TikTok, chamada "Caso ela diga não" ou "Se ela disser não". Vídeos mostram usuários que se ajoelham e simulam um pedido de casamento. Caso a companheira invisível disser "não", logo em seguida eles simulam agressões, como chutes e socos ao vento (ou contra sacos para treino de box), ou, ainda, fingem disparos usando armas de brinquedo.

A trend não é nova, mas passou a viralizar com a proximidade do Dia Internacional da Mulher, em 8.mar. O Núcleo localizou postagens com milhares de curtidas ao menos desde 2023, inclusive por usuários estrangeiros com a versão em inglês "If she says no". Outras publicações são recentes e datam dos últimos dois meses.

Um dos posts que voltou a repercutir é o do influenciador digital Yuri Meirelles, que ganhou notoriedade nas redes sociais por ter participado do clipe "Funk Rave", de Anitta, e do reality show "A Fazenda", onde conheceu a atual esposa, a também influenciadora digital Nathalia Valente, com quem tem um filho pequeno. Yuri tem 1,6 milhão de seguidores no Instagram e 1,7 milhão no TikTok.

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A postagem dele é de 8.abr.2025 e, até este domingo, quando o Núcleo fez a captura de tela, somava 196 mil curtidas. O vídeo segue o mesmo roteiro descrito no início da reportagem: ele simula um chute no ar caso a companheira negue o pedido de casamento. Nathalia inclusive respondeu na época nos comentários "ainda bem que eu disse sim".

Com a repercussão, incluindo diversos comentários críticos ao conteúdo, o vídeo foi removido. O Núcleo procurou o influenciador, mas não teve resposta. A uma seguidora que questionou sobre o vídeo em outra postagem, Yuri disse que apagou após considerar ser uma "brincadeira de muito mau gosto" e que o gesto não iria se repetir.

Diretora associada do InternetLab e professora de direito da Universidade de St. Gallen, Mariana Valente avalia que esse tipo de conteúdo promove uma dessensibilização da violência.

"As pessoas que estão fazendo isso têm claramente uma intenção de humor e com base na violência contra a mulher. O questionamento é: 'por que isso faz as pessoas rirem?'", critica. "A violência contra a mulher é extremamente naturalizada na sociedade".

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Desde 2015, 13.703 mulheres foram mortas por sua condição de mulher, segundo dados analisados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Só em 2025, foram 1.568 mulheres vítimas de feminicídio no Brasil, crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior.

Reprodução de postagem do influenciador Yuri Meirelles no Instagram

Os termos de uso do TikTok vedam a utilização da plataforma para disseminar "qualquer material racista ou discriminatório, incluindo a discriminação de pessoas por conta de sua raça, religião, idade, sexo, deficiência física ou mental ou sexualidade". A assessoria informou que removeu os 15 links enviados pela reportagem com conteúdos da trend (leia a nota completa ao final do texto).

Para Mariana Valente, que é autora de um livro sobre misoginia (ódio às mulheres) na internet, é necessário cobrar as plataformas digitais sobre a proliferação desse tipo de conteúdo.

"A trend envolve engajamento. Então é diferente de só as pessoas estarem sendo expostas a um conteúdo violento. A gente está falando de um movimento, mesmo que rápido, fugaz, que se instaura ali numa comunidade de pessoas que estão produzindo aquela trend. Parte das pessoas que estão consumindo pode estar consumindo com horror, horrorizadas, mas [esse conteúdo] envolve elementos como formação de comunidade, de identidade, que é um pouco o debate que está também por trás da discussão das comunidades misóginas, masculinistas", diz Mariana Valente, autora de "Misoginia na Internet".

Ela aponta, ainda, que o Brasil é signatário do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (ICCPR, na sigla em inglês), que visa proteger e limitar a liberdade de expressão, e que há um debate sobre o que pode ser considerado incitação ou apologia ao crime.

A pesquisadora dá como um exemplo importante a atualização da Lei Antirracismo, em 2023, que passou a considerar como aumento de pena os casos de racismo recreativo, ou seja, "quando ocorrerem em contexto ou com intuito de descontração, diversão ou recreação", e também quando o crime ocorre por meio de redes sociais.

Ela aponta que o Supremo Tribunal Federal equiparou a lei aos casos de LGBTfobia, mas ainda não há uma previsão expressa para misoginia. Por isso, vai caber às autoridades avaliar cada caso se é possível enquadrar em apologia ou incitação ao crime.

"A gente tem crimes voltados a mulheres específicas, a gente não tem uma previsão geral pensando na misoginia", explica.

Valente destaca a necessidade de marcos legais para facilitar a remoção de conteúdo, mas alerta que o debate sobre a criminalização da misoginia precisa ser feito com cautela para que o problema não se restrinja a um discurso punitivista sem ações integradas que alcancem a raíz do problema, como a educação.

"A gente tem que olhar isso como um ecossistema".

Leia aqui a nota na íntegra do TikTok

Os referidos conteúdos violam nossas Diretrizes da Comunidade e foram removidos da plataforma assim que identificados. Nosso time de moderação segue atento e trabalhando para identificar possíveis conteúdos violativos sobre o tema. Não permitimos discurso de ódio, comportamento de ódio ou promoção de ideologias de ódio. Nossa prioridade é manter a comunidade segura e protegida, e continuamos a investir em medidas contundentes que reforçam e defendem ativamente a segurança de nossa plataforma.

Texto Jeniffer Mendonça

Arte Rodolfo Almeida Edição Sérgio Spagnuolo

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