Contador de mortes expõe efeito de corte dos EUA em programa global de combate à AIDS
Cinco da manhã de 27.jan.2025. Fazia só uma semana que Donald Trump tinha tomado posse nos EUA, e a pesquisadora Brooke Nichols se arrumava para sua corrida matinal. Ainda estava escuro em Amsterdã, onde Nichols estava a trabalho. Antes de sair, ela deu uma olhada no celular. “Péssima ideia, jamais olhe seu telefone antes de ir correr de manhã”, ela diria meses depois. Mas foi o que ela fez naquele dia e foi ali que Nichols leu uma notícia que dominou seus pensamentos naquela corrida – e nos dias e meses seguintes. “Eu imediatamente comecei a calcular quantas pessoas iam morrer.”
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Essa reportagem é a terceira parte de uma série do Núcleo sobre resistência digital nos EUA.
Nichols é professora da Universidade de Boston, epidemiologista e economista especializada em modelagem matemática de doenças infecciosas. Ela estuda como otimizar recursos no tratamento de HIV, tuberculose e COVID ao redor do mundo. A reportagem que ela leu dizia que o governo Trump tinha cortado a verba de um programa que financia a maior parte do tratamento contra o HIV em países em desenvolvimento.
Isso incluía o Plano de Emergência do Presidente dos EUA para o Alívio da AIDS, conhecido em inglês como PEPFAR. A iniciativa foi lançada pelo também republicano George W. Bush em 2003 e já ofereceu cuidado vital para 26 milhões de pessoas em 55 países.
Nichols explica que, antes do PEPFAR, o número de mortes por AIDS era astronômico.
“Essas drogas não eram acessíveis. E esse programa foi um sucesso em prevenir mortes por AIDS. E se a pessoa toma o remédio todos os dias, ela para de transmitir o vírus, o que é um benefício enorme para toda uma população”.
Mas é um tratamento pro resto da vida. “Se parar de tomar, o vírus volta a se reproduzir e a pessoa pode voltar a transmitir”. Desde que foi lançado, o PEPFAR teve apoio bipartidário nos EUA. “Todo mundo dizia: isso é importante.” Até o segundo mandato de Donald Trump.
Naquela manhã de 27 de janeiro, Nichols passou a corrida toda tentando calcular os efeitos do corte ao PEPFAR. Quando chegou em casa, ela já tinha um modelo matemático na cabeça. “Eu escrevi para uns amigos dizendo: ‘as pessoas vão morrer. Tô pensando nesse cálculo. Faz sentido?’”
Os colegas foram respondendo com feedback ao longo do dia. Um deles sugeriu que ela colocasse a informação num site. Era uma forma de deixar tudo acessível e chamar atenção para as consequências da decisão. Ela pediu ajuda para outro amigo que “sabe como a internet funciona” e, no fim do dia, o site estava pronto. Em menos de 24 horas, Nichols tinha publicado um rastreador que contabilizava o número de mortes diárias pelo corte do PEPFAR.
PEPFAR Impact TrackerTrack the impact of PEPFAR funding halt
Naquela semana, ela parou tudo que estava fazendo para aperfeiçoar o modelo e deixar o site em ordem. “Eu ainda tentei jantar com meus filhos, mas não conseguia prestar atenção no que eles falavam.”
Logo depois de lançado, o rastreador foi respaldado pelo Consórcio de Modelagem do HIV, que reúne matemáticos do mundo todo. Em fevereiro, Nichols diz que recebeu um email da equipe do senador democrata Bernie Sanders dizendo que ele usou as informações do rastreador para pressionar o Congresso para manter a verba do programa.
No começo, parecia que estava funcionando. No dia 16 de julho, o Senado excluiu o PEPFAR dos cortes federais. Foram 400 milhões de dólares que voltariam, em teoria, para o combate à AIDS no mundo. Mas o governo não só reteve parte do dinheiro como, segundo o jornal The New York Times, pretende descontinuar o programa nos próximos dois anos.
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Segundo Nichols, a não liberação de verbas e o possível cancelamento do programa “criaram uma profunda incerteza para os milhões de pessoas que dependem dele”. Para a pesquisadora, a interrupção dos serviços de tratamento e prevenção do HIV em dezenas de países pode causar, no longo prazo, “o desmantelamento do progresso rumo ao controle da epidemia. O que antes era visto como um modelo de compromisso bipartidário com a saúde global agora está em risco.”
Nichols segue trabalhando cerca de 10 horas por semana no rastreador. Ela agora tem ajuda de dois estudantes e 15 professores da Universidade de Boston. Eles também estão trabalhando no desenvolvimento de um painel de políticas internas para analisar o impacto das atuais decisões político-administrativas na saúde dos norte-americanos.
“Eu faço isso porque acho que precisa ser feito. Eu adoraria que fosse um registro, sabe? Tipo, um dia esse tanto de gente morreu porque essas pessoas fizeram isso”. Além disso, ela diz, “precisamos continuar tentando e insistindo, não importa o que aconteça.”
Até a publicação dessa reportagem, o PEPFAR Impact Tracker estimava 173.243 mortes de adultos (uma morte a cada 3,3 minutos) e 18.442 mortes de crianças (uma a cada 31 minutos) como resultado do cancelamento do programa.
Reportagem Giovana Romano Sanchez
Artes Aleksandra Dias Edição Alexandre Orrico
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