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    "Entre Prateleiras"
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  "textContent": "Entre a ideia de que o comportamento coletivo pode ser modelado e o fato de que a velocidade da mudança desorganiza qualquer tentativa de previsão, existe um descompasso que seguimos ignorando. Sistemas podem até ser compreendidos, mas a capacidade de absorvê-los não acompanha na mesma velocidade.O arquétipo do “profissional do futuro” se consolidou como um consenso que poucos questionam e quase ninguém consegue definir. A expressão se impõe como promessa de adaptação contínua, mas não enfrenta o problema que a sustenta.Ao projetar o profissional, preserva-se a ideia de que o trabalho pode ser tratado de forma isolada de quem o executa. Essa separação, que nunca se sustentou, agora deixa de funcionar, e o consenso começa a ser explicitamente questionado. E isso nunca foi assumido com esse grau de clareza.Um executivo da NVIDIA, uma das empresas que hoje sustenta a base tecnológica da Inteligência Artificial, reconheceu recentemente que, em alguns casos, o custo computacional já supera o custo das próprias equipes humanas. Mesmo assim, o movimento continua.Não é a eficiência que está guiando, é o sistema que se reorganiza e ela deixa de ser suficiente. O ponto não está na comparação em si, mas no fato de que ela muda o critério das decisões.A requalificação, tida como uma resposta dominante ao futuro, há muito desconsidera que o mundo está em transformação estrutural, que a tecnologia está alterando profundamente a organização social e que o futuro não é mais a continuidade do presente.Novas habilidades, atualização constante e adaptação ao ambiente tecnológico se repetem como resposta para um mundo que se altera diariamente, em que qualquer previsão já nasce errada.A adaptação pressupõe um ambiente assimilável, em que a velocidade da mudança seja compatível com a compreensão e a internalização, mas isso está sendo corroído. Quando a transformação ultrapassa o limite de absorção, a adaptação deixa de ser solução e passa a ser ajuste contínuo, sem estabilidade.Como consequência, organizações ampliam o uso de modelos, dados e projeções, ao mesmo tempo em que a leitura desses modelos sob pressão não evolui na mesma proporção. A sofisticação analítica cresce, mas a decisão se fragiliza.O sistema pode apresentar padrões, mas a leitura desses padrões se torna instável. Assim, a ideia de “profissional do futuro” perde precisão e continua tratando competências técnicas como variável principal, enquanto o problema já mudou de lugar.O que está em curso envolve limites cognitivos, atenção, construção de sentido e sustentação de identidade em ambientes de alta variação. O trabalho permanece relevante, mas deixa de organizar a discussão.A pergunta muda de natureza. Não mais quais habilidades serão demandadas, mas que tipo de humano consegue operar com consistência em um ambiente que altera continuamente suas próprias regras.A insistência em projetar o profissional mantém o debate no campo da gestão. Discutir o humano desloca o problema para um território menos controlável, mas mais aderente ao que já está acontecendo.A transição não elimina a necessidade de desenvolvimento técnico. Reposiciona sua função. Competência continua relevante, mas não suficiente. Em algum ponto, a discussão deixa de ser o que precisamos aprender e passa a ser até onde conseguimos continuar absorvendo sem perder a capacidade de decidir.\nJAQUES PAESé executivo, mestre em gestão empresarial, palestrante, consultor, pesquisador e professor de MBA na Fundação Getulio Vargas.",
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