Escolas criam regras para troca de figurinhas da Copa como forma de evitar conflito
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May 14, 2026
Figurinhas só no recreio. Em meio à febre do álbum da Copa do Mundo de 2026, escolas de São Paulo passaram a definir regras com os alunos para organizar a brincadeira e evitar conflitos. Em vez de proibir, educadores apostam que o hobby favorece a socialização e disputa espaço com o celular.É o caso do colégio Villare, em São Caetano do Sul, onde as trocas só podem ocorrer às segundas e sextas-feiras, para não atrapalhar a rotina. As normas foram discutidas em sala e depois aprovadas em assembleia, com participação dos estudantes."Nos estamos entendendo que tem temáticas das quais a escola não pode se abster. A gente não pode ser um mundo à parte do que está fora da instituição", diz a orientadora educacional do Villare, Silvia Gallo. Segundo ela, os alunos buscam equilíbrio nas trocas para evitar que alguém se sinta prejudicado.A criação de regras para as brincadeiras com as figurinhas não é inédita. Em 2018, a escola só interveio depois que surgiram conflitos por trocas consideradas injustas. Em 2022, antecipou o problema e definiu normas antes da circulação do álbum.O jogo do "bafo" —bater cartas no chão para virá-las— segue como uma das formas mais populares de ganhar figurinhas e também como uma das maiores fontes de conflito. A diferença de habilidade entre crianças gera disputas, o que levou à criação de regras. Os alunos passaram a usar apenas figurinhas comuns e a combinar antes se a rodada é apenas recreativa ou se envolve aposta.A troca também funciona como exercício de negociação, sobretudo entre os alunos mais velhos, que fecham acordos mais complexos. Entre os mais novos, a tendência é de maior vulnerabilidade, o que exige mediação para evitar que os menores levem desvantagem. "As crianças mais novas têm uma relação mais emocional. Os maiores, em alguns casos, são mais pragmáticos, focados em completar o álbum", diz o diretor do Centro Educacional Pioneiro, Mário Fioranelli.A instituição da Vila Clementino, zona sul de São Paulo, optou por não intervir no valor das trocas. As negociações, porém, ficam restritas aos intervalos e aos períodos antes ou depois do horário regular de aula —dentro da sala, são proibidas.Com os celulares vetados durante o dia, as trocas físicas ganharam ainda mais espaço nos recreios. Para Fioranelli, a interação cresceu junto com a febre das figurinhas. "A ausência dos aparelhos já ampliou a interação entre os alunos. Com as figurinhas, isso ficou ainda mais forte", afirma.Até os pais entraram na disputa e no colecionismo. No colégio Magno, também na zona sul de São Paulo, adultos têm interferido nas trocas dos filhos, muitas vezes de forma desproporcional. A escola recebe bilhetes e reclamações quando consideram que uma troca foi desigual.Na instituição, foram estabelecidos limites para preservar a rotina. As trocas não são permitidas dentro da sala de aula e a venda de figurinhas entre alunos é vetada."O que está acontecendo muito agora é que os adultos interferem na brincadeira das crianças, mandando aviso para a escola dizendo que o filho tinha uma figurinha de muito valor e trocou por poucas", diz a diretora Claudia Tricate. Segundo ela, há também conflitos em grupos de pais, especialmente em torno do "bafo" e das perdas.Mesmo assim, nem toda interferência adulta é negativa. Tricate relata casos em que os pais ajudam a organizar as coleções e saem com os filhos para comprar figurinhas.No colégio Pioneiro, o envolvimento das famílias tomou outro contorno. Os alunos do 9º ano do fundamental e do 3º ano do médio vendem figurinhas em barracas durante os eventos da escola para financiar viagens e festas de formatura. "Aquilo que poderia ter tensão, ao contrário, gerou um movimento de engajamento muito bacana", diz Fioranelli. Um novo evento já está programado.A cada quatro anos, a Copa traz uma dinâmica diferente, em parte porque uma nova geração chega às escolas. Tricate acredita que, desta vez, os adolescentes estão mais apressados para completar o álbum, uma impaciência que ela atribui ao ritmo acelerado imposto pela tecnologia."As crianças e os adolescentes estão mais ansiosos para ver o resultado das coisas. Acho que a convivência hoje é mais apressada e tudo precisa acontecer na hora, os resultados precisam aparecer imediatamente, o que é um pouco diferente", afirma.Mesmo com regras definidas, conflitos ainda acontecem. Mas nem todos os educadores os encaram como problema. O diretor-geral da Escola Bilíngue Pueri Domus, Deivis Pothin, vê nas divergências uma oportunidade de aprendizado. Na instituição, as trocas são permitidas apenas no intervalo das sextas-feiras."Eventualmente podem surgir pequenas discussões, mas enxergamos essas situações como oportunidades para trabalhar resolução de conflitos, negociação e respeito aos combinados", afirma.
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