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'O Brasil vai temer a Noruega': como a vitória na Copa de 98 virou filme, livro e memória afetiva no país de Haaland

O GLOBO | Confira as principais notícias do Brasil e do mundo July 3, 2026
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Quando Brasil e Noruega entrarem em campo às 17h (horário de Brasília) deste domingo, em Nova Jersey, pelas oitavas de final da Copa do Mundo, o duelo terá significados diferentes para cada seleção. Enquanto para os brasileiros será mais um passo na tentativa do sexto título do Mundial, para os noruegueses, será o reencontro com o feito que moldou a identidade futebolística do país: a vitória por 2 a 1 sobre os comandados de Zagallo, em 23 de junho de 1998, em Marselha, na França. 'Não imaginava': Endrick valoriza oportunidade na Copa do Mundo com seleção aos 19 anos Brasil tem 64% de chances de vencer a Noruega de acordo com supercomputador da Opta Ao longo das duas décadas em que a Noruega ficou longe das Copas do Mundo, aquele resultado deixou de ser apenas uma classificação histórica às oitavas de final para se transformar em um patrimônio cultural nacional. A dimensão da partida pode ser medida pelo espaço que ela ocupa na produção cultural do país. O jogo é o ponto alto de Alt for Norge, documentário de quase duas horas sobre o técnico Egil "Drillo" Olsen e a geração responsável pela ascensão norueguesa nos anos 1990. Também ganhou um episódio próprio, de 42 minutos, na série documental Våre beste menn; inspirou o livro Miraklet i Marseille — O Milagre de Marselha —, do jornalista Marius Lien; e teve seu momento decisivo — o pênalti convertido por Kjetil Rekdal nos minutos finais — eleito o maior momento esportivo da história da Noruega, superando conquistas olímpicas de inverno, universo que tradicionalmente representa o maior orgulho esportivo do país. O primeiro lugar veio de um livro lançado em 2014, chamado Norges 100 største sportsøyeblikk ("Os 100 maiores momentos esportivos da Noruega"), que ranqueou os cem maiores momentos do esporte nacional. A lista foi elaborada por uma comissão formada pelo jornalista Arne Scheie — narrador da virada de 1998 —, pelo bicampeão olímpico de esqui alpino Kjetil André Aamodt, pela jornalista Cathrine Sandnes e pelos autores Mortem Stokstad e Svein Tore Bergestuen. Os 100 maiores momentos esportivos da Noruega, escrito por Morten Stokstad e Svein Tore Bergestuen Reprodução Redes Sociais Já a ideia de transformar aquela noite em livro, curiosamente, nasceu do lado oposto do Atlântico. — A inspiração veio do Brasil. Em 2013, estive no país pesquisando um livro sobre futebol brasileiro e encontrei nas livrarias vários títulos sobre o Brasil de 1982 e sobre a derrota para a Itália. Havia um livro do Falcão, coletâneas de histórias e muitos outros. Percebi que os noruegueses falavam do jogo de 1998 exatamente como os brasileiros falam de 1982 ou da final de 1950. Foi aí que decidi escrever um livro para os 20 anos daquela partida — contou Lien. Uma memória que atravessa gerações Segundo o escritor, o peso daquela vitória ficou evidente quase imediatamente. Ainda durante a campanha da Copa do Mundo na França, quando a Noruega não conseguiu repetir a atuação diante da Itália nas oitavas de final e terminou eliminada. — Talvez isso já fosse perceptível no jogo contra a Itália. A vitória sobre o Brasil havia crescido tanto que o time não conseguiu se concentrar no adversário seguinte e fez uma partida muito abaixo — completou. Com o passar dos anos, no entanto, a lembrança ficou ainda maior. Além de boa parte da população guardar com carinho aquela noite, o longo período sem classificação para o torneio alimentou esse processo. Das edições de 2002 até 2022 a Noruega fracassou em todas as tentativas de participar da Copa do Mundo. Time da Noruega comemora vitória sobre o Brasil na Copa de 1998. Flo é o primeiro, da esquerda pra direita AFP PHOTO/OMAR TORRES A cada fracasso nas Eliminatórias, aquele jogo de Marselha ficava ainda maior. Agora, às vésperar de um novo encontro com o Brasil, a expectativa é que a história ganhe um novo capítulo. Em entrevista para o jornal VG da Noruega, Inge Bjørnebye, ex-lateral da equipe de 1998, afirmou que a geração atual precisa criar as próprias lembranças, para que o futebol norueguês deixe de depender tanto de Marselha: " Estou orgulhoso desse grupo. Há algo especial na composição dessa geração. E já está na hora de surgirem histórias novas. Não é bom que todos continuem falando apenas do que aconteceu há tanto tempo" revelou. As memórias da partida também tomaram conta do universo da música do país. A canção "Post VM 98", da banda indie Tuba Tuba é cantada inteiramente em norueguês e adota uma abordagem mais poética, abstrata e nostálgica da noite de revés do Brasil. A letra repete versos sobre o calor do verão de 98, as noites claras da Noruega iluminadas pelas telas das televisões e as pessoas reunidas nas ruas celebrando algo "inacreditável". O refrão e os versos principais giram em torno de frases que remetem ao sentimento de que "aquela noite duraria para sempre" (Forever) e a como um país pequeno e frio no norte da Europa se sentiu gigante ao bater a maior potência do futebol mundial. O técnico estreou no comando da Noruega Solbakken, técnico da Noruega, esteve no Mundial de 1998 AFP e reprodução A partida também guarda na memória norueguesa o envolvimento do atual treinador, Ståle Solbakken, no resultado positivo. Depois que Bebeto abriu o placar para o Brasil, o técnico Egil Olsen preparava uma substituição para colocar um jogador mais veloz em campo. Foi quando, segundo o escritor Lien, o então jogador Solbakken, interferiu. — Ele falou do banco de reservas que não era o que o time previsava. Disse que era preciso colocar o Jostein Flo, irmão de Tore André Flo, um atacante de quase dois metros de altura. Drillo mudou de ideia, colocou o Jostein em campo, e ele foi fundamental nos dois gols do time. Foi, de certa forma, a estreia de Solbakken como treinador da Noruega — contou Lien. Eterna provocação de Dunga Outra cena do jogo que permanceu viva na memória dos noruegueses aconteceu ainda durante o período de derrota. Depois do gol de Bebeto, Dunga correu em direção ao banco da Noruega e comemorou fazendo o gesto de cortar a língua com uma tesoura imaginária. Era uma resposta às declarações dadas antes da partida por Egil Olsen, que afirmara que o Brasil seria ainda melhor se fosse treinado por ele, e não por Zagallo. A provocação virou assunto entre os jogadores noruegueses depois do apito final, sobretudo porque acabou sendo ofuscada pela virada histórica. De acordo com Lien, também é interessante de observar a dimensão do futebol brasileiro para aquela geração de noruegueses. Os jogadores que venceram o Brasil cresceram admirando justamente a Seleção do Brasil. Calor pode fazer cérebro 'frear' jogador e eleva risco de colapso em campo; entenda Lien conta que o elenco era fã do futebol brasileiro depois de assistir às Copas de 1982 e 1986. Alguns jogadores, inclusive, aproveitaram Marselha para pedir autógrafos a Zico após a partida. Marselha nunca acabou Kjetil Rekdal, autor do pênalti da vitória em 1998, em entrevista reproduzida pelo jornal Aftenposten, também avaliou que a classificação mudou rapidamente a expectativa dentro do país e acredita que o confronto histórico terá influência psicológica sobre os brasileiros no domingo: "O Brasil vai temer a Noruega, porque nunca conseguiu nos vencer. A história está se repetindo, e o peso mental terá importância nessa partida" compartilhou. Ainda em recuperação, Raphinha não treina com grupo da seleção a três dias do jogo contra a Noruega Quem também ajuda a compreender o efeito do jogo na atual geração é Øyvind Leonhardsen, ex-meio-campista daquela seleção norueguesa de 1998. Ele confirma o peso daquela vitória e expõe uma nova pressão sobre a geração atual. Um cenário diferente da batalha de Marselha: "Fico emocionao ao ver o quanto isso significa para todos. É aquela partida da qual sempre se fala. Poder escrever agora uma nova história é fantástico. A Noruega pode chegar longe, acredito realmente nisso" revelou Leonhardsen. Quando a bola rolar neste domingo, a Noruega tentará escrever um novo capítulo diante do mesmo adversário que protagonizou sua maior conquista. Independentemente do resultado, porém, será difícil para qualquer outro jogo ocupar o lugar reservado à noite de Marselha. Próximos jogos do Brasil na Copa do Mundo 2026 Oitavas de final: 5 de julho (domingo), às 17h Quartas de final: 11 de julho (sábado), às 18h Semifinal: 15 de julho (quarta), às 16h Final: 19 de julho (domingo), às 16h

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