Guinada de Trump sobre as sanções ao Irã em acordo surpreende ao desmontar décadas de restrições financeiras ao país dos aiatolás
O GLOBO | Confira as principais notícias do Brasil e do mundo
June 28, 2026
O esforço do governo Trump para desmontar décadas de sanções econômicas impostas pelos próprios Estados Unidos como parte de um acordo para encerrar a guerra com o Irã cria uma situação repentinamente nova para governos, bancos e outras empresas, que agora tentam compreender um mosaico mutável de novas permissões e antigas restrições. Move Brasil: qual carro cabe no seu bolso? Calculadora do GLOBO simula parcela de cada modelo para motoristas de app e táxi Impacto bilionário: Brasileiro se aposenta, em média, aos 57 anos, abaixo da idade mínima imposta pela Reforma da Previdência Após a revolução de 1979, o Irã tornou-se um dos países mais sancionados do planeta devido ao seu programa nuclear e ao apoio a milícias regionais. Mas a Casa Branca está agora conduzindo uma reversão surpreendente dessas medidas como parte de um acordo mais amplo para reabrir o Estreito de Ormuz, reduzir os preços globais da energia e encerrar uma guerra impopular. Donald Trump e Masoud Pezeshkian, presidentes de EUA e Irã, mostram termos assinados para trégua em guerra no Oriente Médio AFP O processo, contudo, está longe de ser linear. Na sexta-feira, o presidente Donald Trump acusou o Irã de violar um frágil cessar-fogo, e o Comando Central dos EUA lançou novos ataques contra alvos iranianos. Persistem também divergências que podem inviabilizar o acordo. Ainda assim, a velocidade e a amplitude do esforço para levantar restrições de acesso ao sistema financeiro global surpreenderam observadores veteranos das sanções econômicas sobre o Irã. Os Estados Unidos já autorizaram a venda de petróleo e combustíveis iranianos e prometeram liberar bilhões de dólares em recursos congelados. Geração 'prateada' na ativa: profissionais com mais de 50 anos avançam no mercado de trabalho e somam 20% da renda do Brasil Cronograma para fim de todas as sanções O memorando de entendimento de 14 pontos assinado por Trump e pelo presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, em 17 de junho, prevê a remoção de todas as sanções americanas ao Irã em um "cronograma acordado". O documento também determina que o Departamento do Tesouro conceda suspensões temporárias das sanções vigentes por 60 dias, enquanto as negociações técnicas avançam. Segundo ex-integrantes do Tesouro americano, advogados especializados em sanções e fontes do setor que acompanham o processo, essa mudança abrupta será difícil de implementar de forma a satisfazer instituições financeiras americanas e outras empresas avessas ao risco. Initial plugin text — Todos querem ter 100% de certeza de que está em conformidade — disse Adam Smith, ex-conselheiro sênior do diretor do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), órgão responsável pelas sanções dos EUA. — Transações pontuais que sejam concluídas dentro desses 60 dias podem funcionar, mas pode haver dificuldades para encontrar bancos e outros intermediários dispostos a processá-las. Tentativa de controlar o dinheiro Em meio às incertezas, alguns defensores de uma linha mais dura contra o Irã pressionam o governo americano a substituir pagamentos em dinheiro pelas vendas de petróleo iraniano por um sistema no qual os recursos sejam depositados em contas garantidas (escrow accounts), permitindo que autoridades americanas assegurem que o dinheiro não seja destinado a grupos armados aliados, como Hezbollah (no Líbano) ou Hamas (na Faixa de Gaza), segundo pessoas familiarizadas com o tema. Trump sugeriu publicamente que os recursos iranianos poderiam ser depositados em contas controladas pelos Estados Unidos ou que Teerã só poderia utilizá-los para comprar produtos agrícolas americanos — ideias que não constavam do memorando e que o Irã ridicularizou e rejeitou. Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, participa de evento no Instituto Internacional de Finanças em Washington Matt McClain/Bloomberg A proposta de utilizar recursos congelados para adquirir produtos agrícolas dos EUA foi discutida pela primeira vez há cerca de um mês, durante uma reunião no Salão Oval com Trump, o vice-presidente JD Vance e outros assessores para assuntos iranianos, segundo uma pessoa a par das discussões. A ideia era proteger a Casa Branca das críticas que republicanos fizeram ao governo Obama por entregar ao Irã "paletes de dinheiro", afirmou essa fonte, acrescentando que acreditava que o Irã teria pouca margem para rejeitar esse mecanismo. Integração ao dólar O secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou na quarta-feira que o Irã passará a emitir faturas de suas vendas de petróleo em dólares. A declaração representou uma ruptura com o objetivo histórico de Washington de excluir Teerã do sistema financeiro americano. Para que isso funcione, os EUA precisariam contar com alguns dos maiores bancos americanos ou ligados aos EUA, instituições que tradicionalmente evitam qualquer transação que possa violar sanções econômicas criadas pelos EUA, segundo um ex-funcionário do Tesouro. Em Teerã, marcas da guerra entre Estados Unidos e Irã Arash Khamooshi/The New York Times/ 02/03/2026 O primeiro passo foi dado na segunda-feira, quando o Tesouro emitiu a Licença Geral X, autorizando vendas de petróleo realizadas em "fundos denominados em dólares americanos". Além da licença, as empresas devem solicitar orientações claras do Tesouro — como cartas ou notas explicativas frequentemente emitidas em casos complexos — para tranquilizar seus departamentos de conformidade sobre a legalidade dessas operações, segundo uma fonte com conhecimento das garantias que a indústria do petróleo pretende buscar. Reviravolta semelhante à da Venezuela As empresas procuram um tipo de orientação semelhante ao concedido à Venezuela após a captura, pelos EUA, do então presidente Nicolás Maduro, em janeiro, afirmou essa pessoa. — As instituições financeiras normalmente são mais avessas ao risco do que seus clientes quando vemos programas de sanções serem desfeitos — disse Michael Huneke, advogado especializado em comércio e segurança nacional do escritório Morgan, Lewis & Bockius LLP. — Espero que sejam extremamente cautelosas neste caso também. Violação pode custar caro Avançar rapidamente e correr o risco de uma eventual violação não é uma aposta atraente. O BNP Paribas pagou quase US$ 1 bilhão em 2014 para encerrar acusações de que teria violado sanções contra Irã e Sudão. Outros bancos também desembolsaram multas elevadas. Ao longo dos anos, sucessivos governos americanos, juntamente com o Congresso, impuseram centenas de sanções ao Irã, criando camadas de restrições concebidas justamente para dificultar sua remoção de uma só vez. Uma lei de 2015, de revisão do acordo nuclear com o Irã, determina que o Congresso revise e aprove qualquer entendimento desse tipo firmado com o Irã. A norma foi aprovada após a assinatura do Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), implementado durante o governo do então presidente Barack Obama — acordo que Trump criticou repetidamente antes de abandoná-lo em 2018. Segundo uma fonte familiarizada com o assunto, alguns parlamentares americanos mais alinhados à linha dura acreditam que o governo pode tentar contornar essa lei argumentando que o memorando com o Irã não constitui um acordo nuclear, embora trate diretamente do tema. Caso isso ocorra, esses parlamentares provavelmente aumentarão a pressão sobre bancos e empresas que façam negócios com o Irã, lembrando-os de suas obrigações sob a legislação americana, afirmou a fonte, que pediu anonimato para discutir deliberações internas. A fonte citou ainda uma lei de 2012, que tratava da redução da ameaça iraniana e do respeito a direitos humanos na guerra civil da Síria, que obriga empresas listadas nas bolsas americanas a reportar determinadas atividades relacionadas ao Irã à SEC, órgão regulador do mercado de capitais dos EUA, expondo-se potencialmente a futuras investigações do Congresso caso o acordo fracasse. — A Licença Geral X é inédita no alívio que oferece ao Irã — afirma Chris Kennedy, responsável pela área de política econômica internacional da Bloomberg Economics. No entanto, o fato de depender de dispensas temporárias, e não de uma nova legislação, significa que "no longo prazo, o governo Trump enfrentará uma batalha difícil para cumprir sua promessa de remover permanentemente as sanções contra o Irã", avalia o especialista.
Discussion in the ATmosphere