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  "textContent": "\nO eletricista Orang deixou o Irã há pouco mais de duas décadas em busca de uma vida livre e confortável nos Estados Unidos. Encontrou-a em Los Angeles, onde até hoje mora com a família. Mas a nova realidade não o impediu de continuar a se preocupar com o que acontece em seu país. Por isso, na véspera do jogo que marcará a estreia iraniana na Copa do Mundo, ele e alguns de seus conterrâneos se reuniram em uma praça de Westwood, na parte oeste da cidade, para pôr em prática a nova etapa de um plano que pretende provar que esporte e política se misturam sim. Orang e seus pares distribuíram camisas e bandeiras iranianas a torcedores que estarão nesta segunda-feira no SoFi Stadium para a partida contra a Nova Zelândia. A ideia do grupo é aproveitar os holofotes do torneio para protestar contra o regime teocrático, antes de a bola rolar e enquanto ela estiver em jogo. — Nós queremos a queda do regime, que oprime e mata as pessoas. Vamos usar a Copa para protestar porque esta não é a seleção do Irã, ela nem tem os melhores jogadores do Irã. Vieram apenas os jogadores do regime — reclamou Orang. O grupo deve encontrar resistência para levar o plano adiante. Os itens distribuídos aos torcedores-protestantes exibem a versão antiga da bandeira iraniana, anterior à Revolução Islâmica de 1979, com o leão e o sol ao centro. O símbolo está vetado pela Fifa, que tenta varrer qualquer manifestação política de seu grande evento. Ainda assim, os persas prometem fazer um esforço para levá-lo às arquibancadas de L.A. — Farei o que for possível para estar lá, atrás do gol, balançando a nossa bandeira verdadeira — promete a comerciante Sherry, que desde 1995 mora nos EUA. — Não me importo com futebol, esta seleção não representa o Irã, mas usaremos este espaço para mostrar ao mundo inteiro que temos orgulho da nossa cultura. O lugar escolhido pelo grupo para se reunir não é aleatório. Se o condado de Los Angeles reúne a maior comunidade de iranianos fora do país — ao menos 500 mil pessoas —, Westwood é seu centro simbólico. A presença dos persas — um reflexo da fuga do regime após a revolução de 1979 — se tornou uma marca tão forte da região que ela passou a atender também pelo apelido de Tehrangeles. O neologismo não poderia ser mais apropriado, especialmente neste momento em que a região se divide entre a cultura de casa e a influência do novo mundo. O epicentro deste pequeno Irã é a Westwood Boulevard. Em um primeiro momento, ela parece apenas mais uma das incontáveis largas avenidas de Los Angeles, com tudo o que se espera de um lugar como esse: restaurantes, mercados, farmácias, lojas… Mas bastam alguns segundos para perceber que não se trata de um ponto convencional. Por lá, superfranquias americanas como a rede de conveniência 7-Eleven e a pizzaria Domino’s dividem espaço com letreiros em persa. A língua também é a que se sobressai entre as tantas que a diversidade californiana abriga. A atual versão de Tehrangeles sente o reflexo da homogeneização cultural por que passam as grandes metrópoles do mundo. Não espere mulheres escondidas sob véus. Por lá, elas exibem os cabelos soltos, usam calças jeans justas e têm a boca marcada por batons vermelhos. Nas ruas, as populações iraniana e americana convivem com recortes de múltiplas nacionalidades, um provável reflexo da presença por ali de um campus da University of California (UCLA), que puxa a média de idade dos pedestres de Westwood para baixo. Nenhum aspecto, porém, preserva e evidencia a cultura persa com mais eficiência que os restaurantes. Os cardápios estrelados por diferentes tipos de kebab — ou kabob, como é mais comum – atraem turistas de todos os cantos e moradores de diferentes vizinhanças de Los Angeles. Por lá, ainda que o aspecto político nem sempre sobressaia, a indiferença pela seleção aparece. — Não ligo para o time, acho que a maior parte da nossa comunidade não liga — diz o garçom Amir. Torcedores iranianos apoiam time em frente a hotel no México Guillermo Arias/AFP Dissociar a participação iraniana deste Mundial do contexto geopolítico, porém, é impossível. Quando, no fim de fevereiro, Estados Unidos e Israel iniciaram os ataques aéreos contra Teerã, deram largada também a um imbróglio que ameaçou diretamente a disputa do torneio como concebido originalmente para as 48 seleções classificadas. Em mais de uma oportunidade, a federação iraniana ameaçou abrir mão de sua vaga e cobrou a intervenção direta da Fifa em meio à crise para a obtenção de vistos para entrada no território americano. Mas o presidente da entidade, Gianni Infantino, curvado aos impulsos do homólogo aliado Donald Trump, pouco pôde fazer. Por fim, definiu-se que os iranianos se submeteriam a um esquema extraordinário: deveriam se concentrar em Tijuana, no México, e cruzar a fronteira na véspera das partidas. O avião com a delegação do Irã só pousou em Los Angeles ontem à tarde, no fuso local. Pouco tempo depois, Trump anunciou em suas redes sociais que os EUA haviam chegado a um acordo com o Irã para interromper o conflito no Oriente Médio, o que deve abrir caminho para negociações pelo fim definitivo da guerra. Com a bola já rolando no Mundial, os desafios ainda não foram superados. Ciente de que grupos tentarão usar a partida para protestar contra o regime, o ministro do Esporte iraniano, Ahmad Donyamali, ameaçou retirar o time de campo — literalmente — caso observe símbolos hostis à República Islâmica nas arenas. A festa feita no domingo por torcedores em frente ao hotel onde os jogadores estão concentrados no México, com direito à bandeira iraniana atual, mostra que a seleção terá, sim, apoio convencional hoje nas arquibancadas do SoFi Stadium. Mas, apesar dos esforços da Fifa para manter alguma normalidade, esse não será um jogo comum. — Nosso povo enfrenta muito trauma em casa — lembra o historiador Arvin. — Nós, iranianos que vivemos nos EUA com liberdade de expressão, temos a obrigação de usar a nossa voz para manter a deles viva.",
  "title": "Tehrangeles, região que abriga população iraniana nos EUA, pretende usar Copa do Mundo para protestar contra o regime"
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