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Viramos adultos e não comemoramos mais nossas próprias conquistas

O GLOBO | Confira as principais notícias do Brasil e do mundo May 17, 2026
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A vida adulta tem uma habilidade curiosa de transformar conquistas em escadas rolantes. Você sobe um degrau, mal consegue olhar a paisagem e já escuta uma voz dizendo: “E agora, qual é o próximo passo?”. É quase como se tivéssemos desaprendido a celebrar. Ou pior: como se celebrar fosse sinal de acomodação. Assisti na internet um vídeo da influenciadora Jacira Doce que trouxe exatamente esta reflexão. Você compra o apartamento possível e, antes mesmo de escolher a cor da parede, já aparece alguém, ou o algoritmo, ou a comparação silenciosa das redes, lembrando que ainda não é “o apartamento dos sonhos”. A promoção chega, o novo cargo vem acompanhado de um parabéns breve e, logo depois, da expectativa de produtividade ainda maior. O corpo nem assimilou a vitória e já precisa performar para justificar o próximo salto. Vivemos numa cultura que romantiza a linha de chegada e despreza os marcos do caminho. Como se apenas a grande vitória merecesse ritual, brinde, pausa e fotografia. Como se tudo aquilo que veio antes fosse apenas um aquecimento. E isso nos adoece. Porque existe uma violência silenciosa em tratar toda conquista como insuficiente. Existe um cansaço profundo em viver permanentemente orientado pelo que falta. A sensação de que nunca chegamos de fato a lugar algum. Outro dia pensei sobre como chamamos certas alegrias da vida adulta de “pequenas conquistas”. Pequena por quê? Para quem? Para quem olha de fora? Para quem já nasceu perto da linha de chegada? Para quem nunca precisou contar moedas para entender o peso simbólico de uma geladeira nova, de um aluguel pago em dia, de uma passagem comprada sem parcelamento? Há pessoas para quem dormir sem medo do despejo já é uma revolução. Há quem chore ao conseguir colocar os pais em um plano de saúde. Há quem celebre o primeiro mês em que conseguiu guardar dinheiro. Isso não é pequeno. Isso é vida concreta acontecendo. Mas a lógica da produtividade transforma até sonhos realizados em metas intermediárias. Por isso tanta gente esteja cansada mesmo quando está vencendo. Estamos exaustos porque não nos permitimos sentir o gosto das coisas. Não deixamos a conquista pousar no corpo. Não criamos memória afetiva em torno dos marcos alcançados. Apenas seguimos correndo, com medo de perder velocidade. Tenho pensado cada vez mais na importância dos rituais. Um jantar simples. Um vinho aberto numa terça. Um brinde entre amigos. Acender uma vela. Comprar flores. Escrever num papel conquistas da semana. Rituais organizam a experiência humana. Eles dizem ao coração: “Você chegou até aqui”. Isso importa. Viver sem celebrar é transformar a trajetória numa sucessão de cobranças. E não há alma que prospere apenas sob pressão. Celebrar não significa parar de sonhar. O apartamento dos sonhos pode continuar existindo, o próximo cargo também. O livro a ser escrito, a viagem a ser feita, tudo pode permanecer no horizonte. Mas existe algo profundamente humano em reconhecer que os marcos do caminho também merecem honra. A vida não acontece apenas quando alcançamos o topo imaginado. Ela acontece nas travessias. Nos degraus. Nos “ainda não”, mas também nos “olha só onde já consegui chegar”.

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