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'Kids skincare': conheça trend em que meninas criam uma rotina adulta de cuidados com a pele

O GLOBO | Confira as principais notícias do Brasil e do mundo March 9, 2026
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Na casa dos avós, Gabriela Saraiva, então com 4 anos, sentia-se no paraíso. Vaidosa, vasculhava batons, blushes, sombras e outros itens de beleza para se maquiar. Sua mãe, a fisioterapeuta Daniela Saraiva, de 43, é alérgica aos produtos, por isso, a brincadeira não virou rotina. Aos 10, teve o primeiro contato com as redes sociais, desenvolvendo uma paixão precoce por skincare. “Eu a segurei bastante. Nessa época, ela tinha um protetor solar e alguma maquiagem, mas eram coisas pontuais”, relembra a fisioterapeuta. “Dois anos depois, Gabriela começou a ter acne, e queria melhorar a pele de qualquer jeito”, continua Daniela. Hoje, com 14 anos, a adolescente segue uma rotina de cuidados contida, mas sabe de todos os lançamentos e novidades. “No ano passado, fomos aos Estados Unidos e ela trouxe uma minigeladeira para guardar produtos como ácido hialurônico e um sérum”, diz a mãe, com naturalidade. “Ela usa o sabonete antiacne, protetor solar, máscara para cravos, hidratante. É um ritual de manhã e à noite. Mas conversamos muito e sempre alerto para não ser tão influenciada pelo que vê na internet.” Embora o acesso de crianças e adolescentes às redes sociais não seja recomendado — em países como Austrália e Espanha é proibido para menores de 16 anos —, tem crescido, nos últimos anos, a trend “Sephora kids”, alusão à famosa loja de produtos de beleza. No Instagram e no Tik Tok, meninas entre 7 e 12 anos surgem diante de bancadas lotadas, detalhando e mostrando suas rotinas de skincare. Recentemente, a atriz canadense Shay Mitchell anunciou o lançamento da Rini, sua marca de cosméticos, com produtos direcionados a crianças a partir de 3 anos. No portfólio, máscaras hidratantes, ou de outros tipos, com formatos de unicórnios ou pandas. “Criança não tem que se preocupar com a aparência. Ela precisa ser livre, isso é fundamental para a construção da sua personalidade e autoestima”, afirma o pediatra e escritor Daniel Becker. Para ele, esse universo da beleza traduz em parte o que considera ser uma “adultização” dos pequenos. E isso, diz, não tem a ver apenas com as redes sociais. “É uma cultura que também envolve as redes, mas estamos voltando a um padrão de beleza irreal. Uma criança de 5 anos querer se maquiar para ir à creche tem a ver com a cultura da família. A mãe quer que a criança seja bonita. É uma exigência que massacra demais as mulheres”, continua Becker. A indústria da beleza, ao angariar consumidoras cada vez mais novas, levanta outro debate: qual a idade considerada “ideal” para começar uma rotina de skincare? “É difícil dizer, porque há cuidados específicos. A acne é algo muito comum, então é possível começar uma rotina mais cedo e ela se estender. Mas os produtos, majoritariamente, são testados em pele adulta”, explica a dermatologista Juliana Piquet. Em sua rotina de atendimentos, ela diz já ter presenciado crianças de 10 e 11 anos chorando, ao lado das mães, por vontade de ter os cosméticos. “Geralmente, elas não sabem o que o produto faz na pele. Mas querem tê-lo, ainda que seja para não usá-lo. A macrobiota da criança é diferente, e esses produtos podem causar desequilíbrio, descamação ou dermatite”, acrescenta Juliana. Mais do que atenção à pele das crianças, os pais precisam olhar o que elas veem para além do espelho. Segundo a psicoterapeuta Vera Resende, os pequenos devem ser orientados a desenvolver consciência sobre o próprio corpo. “E também seus limites e cuidados necessários para uma rotina minimamente saudável. Elas precisam se sobrepor à vaidade. A preocupação estética é aprendida conforme os valores da família”, analisa. “Se a criança internalizar a ideia de que não é capaz de alcançar um ideal proposto, pode adoecer”, completa ela. Ou seja: menos “trends” e mais brincadeiras.

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