O Super Bowl de Bad Bunny: 100% americano, totalmente em espanhol e com os olhos do mundo voltados para ele
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February 6, 2026
O Super Bowl nuncaeve uma apresentação de intervalo — ou uma controvérsia — como a de Bad Bunny. O astro latino, que conquistou o mundo com hits de reggaeton temperados com sons nostálgicos de sua terra natal, Porto Rico, está prestes a fazer história neste domingo, com a primeira apresentação totalmente em espanhol nos 60 anos de história do jogo. Será a coroação da carreira de uma figura transformadora do pop latino, que quebrou recordes de bilheteria ao redor do mundo, emplacou 15 hits no Top 10 e levou o prêmio de álbum do ano no Grammy no último fim de semana, em mais um marco para a música latina. Super Bowl: Por que Bad Bunny não vai receber cachê pelo show do intervalo? Entenda 'Me tocou profundamente': Emocionado com momento histórico do conterrâneo, Ricky Martin escreve carta para Bad Bunny No entanto, antes mesmo de cantar uma nota, a participação de Bad Bunny no Super Bowl se tornou um ponto de conflito político em meio à perseguição a imigrantes promovida pelo governo Trump e aos temores gerados nas comunidades latinas nos Estados Unidos, sejam de imigrantes ou não. Quando a NFL o anunciou como atração principal do intervalo, em setembro, analistas perceberam uma jogada astuta de uma liga que busca expandir sua presença global. Mas a Casa Branca e a mídia de direita reagiram com veemência, condenando a decisão. A Secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, afirmou que o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) estaria “de olho” no jogo, que será realizado no Levi’s Stadium, em Santa Clara, Califórnia. A comentarista conservadora Tomi Lahren desdenhou de Bad Bunny, dizendo que ele “não é um artista americano”. (Porto Rico é, obviamente, um território dos EUA.) Em uma entrevista recente, o presidente Donald Trump disse que não compareceria ao jogo, classificando Bad Bunny como “uma escolha terrível” e afirmando que “tudo o que isso faz é semear ódio”. "Baile inolvidable" Durante a turnê do ano passado, Bad Bunny justificou a ausência de shows nos Estados Unidos por receio de que agentes de imigração pudessem abordar seus fãs. Mas, desde que foi anunciado como atração do Super Bowl, sua mensagem tem sido mais sobre alegria e solidariedade do que medo. Num anúncio lançado no mês passado, ele dança ao som de "Baile inolvidable" ao lado de pessoas de diferentes idades, gêneros e etnias, sob as folhas vermelho-fogo de uma flamboyant, símbolo de Porto Rico e do Caribe. "O mundo vai dançar", diz um letreiro. Em seu discurso de agradecimento no Grammy, Bad Bunny também indicou que não recuaria. "Antes de agradecer a Deus, vou dizer 'fora ICE'", disse ele. "Não somos selvagens, não somos animais, não somos alienígenas. Somos humanos e somos americanos." Com o sangue derramado nas ruas de Minneapolis nas últimas semanas durante manifestações contra o plano de imigração do governo Trump, a presença de Bad Bunny no Super Bowl ganhou uma urgência particular, e ele não precisa fazer nenhum protesto explícito para transmitir sua mensagem. “Estamos vivendo um momento de retórica anti-imigração, e os latinos e imigrantes latino-americanos, em particular, têm sofrido o impacto de muito desse ódio”, disse Petra Rivera-Rideau, professora de estudos americanos no Wellesley College e coautora de um livro recente sobre a ascensão global de Bad Bunny. “Até mesmo a presença de Bad Bunny lá”, acrescentou Rivera-Rideau, “devido a esse contexto político, já é uma declaração.” Streaming sem fronteiras O artista, nascido Benito Antonio Martínez Ocasio há 31 anos, adotou seu nome artístico em memória da fantasia de coelho que, contra sua vontade, foi obrigado a usar quando criança em uma festa de Páscoa. Ele iniciou a carreira musical em 2016 e rapidamente se destacou no reggaeton e no hip-hop como artista convidado — com Drake, Cardi B e Daddy Yankee. Assim, quando lançou seu álbum de estreia, “X 100PRE”, em 2018, já era indispensável. Em 2020, fez sua primeira aparição no Super Bowl como convidado das atrações principais, Jennifer Lopez e Shakira. Em um comentário impactante sobre a separação de famílias migrantes durante o primeiro mandato de Trump, o show apresentou crianças em jaulas. Lopez usou uma capa de penas digna de Las Vegas que alternava entre as bandeiras americana e porto-riquenha. A ascensão meteórica de Bad Bunny coincidiu com a popularidade da música "Despacito", de Luis Fonsi e Daddy Yankee, que explodiu — em parte graças a um remix com contribuições em inglês de Justin Bieber — e demonstrou como o pop latino poderia prosperar no domínio sem fronteiras do YouTube e das plataformas de streaming. Porto Rico no centro Durante anos, cantar em inglês foi o preço que estrelas latinas — como Ricky Martin e Shakira — tiveram que pagar pelo sucesso, principalmente para se tornarem palatáveis para as rádios americanas. Usando o streaming como atalho e se mantendo fiel ao espanhol, Bad Bunny se tornou um fenômeno, figurando entre os artistas globais mais populares do Spotify em quatro dos últimos seis anos. Ele aproveitou essa fama para conseguir papéis em filmes de Hollywood como "Trem-bala" e "Ladrões". Ao longo do caminho, vieram outros sinais do auge da celebridade, como namorar Kendall Jenner (e promover produtos da Gucci com ela). Bad Bunny em campanha da Gucci Divulgação Ao mesmo tempo, a música de Bad Bunny se voltou cada vez mais para Porto Rico de maneiras explícitas e sutis, como pontuar suas letras com gírias locais. No Met Gala do ano passado, ele usou uma versão personalizada da pava, o chapéu de palha típico de Porto Rico. Seu álbum mais recente, "Debí Tirar Más Fotos", completa essa trajetória, misturando ritmos e formas musicais tradicionais porto-riquenhas, como a bomba e a plena, com batidas de trap estrondosas. “Ele mudou o centro de gravidade do pop global sem se desconectar de suas origens”, disse Sulinna Ong, diretora global de conteúdo editorial do Spotify. Manter o foco em questões sociais porto-riquenhas, como a gentrificação e as falhas de governança, também fez de Bad Bunny o defensor mais reconhecido da ilha. O videoclipe de sua música de 2022, “El Alpagón”, sobre os frequentes apagões na ilha, incluiu um documentário de 18 minutos sobre esses problemas. O mascote não oficial de sua era “Debí Tirar Más Fotos” é o sapo-concho, o sapo-cristado porto-riquenho, que está ameaçado de extinção devido ao excesso de construções. Na Casita Quando chegou a hora da turnê “Debí tirar más fotos”, Bad Bunny não fez shows nos Estados Unidos, já que o governo Trump intensificou as operações de imigração e deportações. “A imigração poderia estar do lado de fora” de uma das casas de shows, disse ele à revista I-D em setembro. “Era algo sobre o qual estávamos conversando e que nos preocupava muito.” O astro optou por uma residência de 31 shows em Porto Rico — chamada "No me quiero ir de aquí ("Não quero sair daqui", em tradução direta) — que impulsionou a economia local. Como parte do cenário, havia uma casita rosa e amarela: uma casa simples com varanda, símbolo do cotidiano porto-riquenho, que no resto da turnê se transformou em uma área VIP híbrida, onde celebridades como LeBron James e Penélope Cruz se reuniam. Dias depois de Bad Bunny concluir a residência, ele foi anunciado como a atração principal do show do intervalo do Super Bowl. A cerimônia de abertura do jogo também contará com a presença do Green Day, a veterana banda punk que, há anos, vem modificando letras antigas em protesto contra Trump e seus aliados, como Elon Musk. Quando o New York Post perguntou ao presidente, no mês passado, sobre os artistas, ele respondeu: "Sou contra eles". Vitória de Jay Z A participação de Bad Bunny também é uma vitória para Jay-Z, que contrata o artista para todos os shows do intervalo desde 2020 com a Roc Nation, sua empresa de entretenimento. Quando a Roc Nation fechou o acordo com a NFL em 2019, a liga enfrentava uma crise devido ao boicote a Colin Kaepernick, o quarterback que se ajoelhou durante o hino nacional em protesto contra o racismo e a brutalidade policial. Alguns artistas negros recusaram ofertas para se apresentar no show do intervalo, que costuma atrair mais de 100 milhões de espectadores. Jay-Z foi bastante criticado por concordar em trabalhar com a NFL, mas argumentou que poderia ajudar a tornar o evento "inclusivo" e afirmou que a liga estava comprometida com iniciativas de justiça social. "Já superamos a questão de se ajoelhar", disse ele. Os shows do intervalo do Super Bowl promovidos pela Roc Nation têm sido um sucesso estrondoso e antenado com o espírito da época, com apresentações de Rihanna, um show de hip-hop liderado por Dr. Dre e a triunfal aparição de Kendrick Lamar no ano passado. A escolha de Bad Bunny também está alinhada com os objetivos da NFL, que vem se expandindo internacionalmente, inclusive para a América Latina — onde uma apresentação de Bad Bunny seria uma estratégia de marketing ideal. Hans Schafer, executivo da Live Nation que trabalhou extensivamente com Bad Bunny, chamou a apresentação no Super Bowl de uma “passagem cultural” simbólica. “Por décadas, o show do intervalo do Super Bowl foi como o ápice do pop anglo-saxão”, acrescentou Schafer. “Isso sinaliza uma mudança cultural global de fato. Bad Bunny representa o que o mundo realmente está ouvindo.” Esporte ultrapatriótico ou internacional? Para entender completamente o significado disso, Schafer sugeriu uma mudança de perspectiva. “Falamos ‘O que significa para o Bad Bunny estar no Super Bowl?’”, disse ele. “Acho muito mais interessante reformular a pergunta como ‘O que significa para o Super Bowl ter o Bad Bunny?’”. A reação política ao Bad Bunny, no entanto, pode ser um sinal de que uma grande parte do público tradicional do Super Bowl não está interessada em compartilhar o jogo com o resto do mundo. Para muitos americanos, o Super Bowl é um evento ultrapatriótico, quase sagrado em seus rituais, e seu status de abrangência monocultural sobreviveu mesmo em uma era fragmentada. “Acho que as pessoas não deveriam vir ao Super Bowl a menos que sejam americanos cumpridores da lei que amam este país”, disse Noem ao podcaster conservador Benny Johnson, na mesma entrevista em que confirmou a presença de agentes do ICE no estádio, uma declaração da qual ela não se retratou. (Embora agentes federais sejam frequentemente enviados a grandes eventos esportivos, incluindo o Super Bowl, a chefe de segurança da NFL afirmou esta semana estar confiante de que não haverá "operações de fiscalização de imigração" no jogo de domingo.) Em 1968, José Feliciano, nascido em Porto Rico, tocou uma versão peculiar de "The Star-Spangled Banner" — respeitosamente, mas com algumas liberdades — em um jogo da World Series, e houve uma forte reação negativa, com pelo menos um fã citado na época chamando a apresentação de "uma vergonha, um insulto". No Jogo das Estrelas da Major League Baseball de 2013, Marc Anthony, nascido em Nova York, filho de pais porto-riquenhos, cantou um emocionante "God Bless America", e o Twitter explodiu com insultos racistas. Bad Bunny não cantará o hino nacional — esse papel caberá a Charlie Puth —, mas sua apresentação ainda pode ser vista como perigosamente próxima a um símbolo nacional americano. Desiree Perez, CEO da Roc Nation, não respondeu às perguntas sobre a controvérsia política em torno do anúncio de Bad Bunny. Mas o elogiou como a escolha ideal para o momento. "Bad Bunny é um fenômeno global cujo impacto cultural transcende a música", disse Perez. "Será uma celebração, com o público mundial de pé."
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