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  "textContent": "Decidi pagar essa disciplina esse semestre sem saber muito o que esperar, ou pelo menos não muito além da ementa. Porém para minha surpresa, o que eu achava que seria um semestre sobre Theodor Adorno, acabou se tornando um semestre inteiro sobre Herbert Marcuse, e eu achei isso incrível. Ambos membros da famigerada Escola de Frankfurt.\n\nO pensamento de Marcuse é vasto na área da estética filosófica, nós somente pincelamos alguns conceitos que aparecem em obras específicas suas. Mas eu particularmente acredito que consegui entender bem o conteúdo, mas principalmente, acho que fui levado a pensar em questões que podem me ajudar a desenvolver meu pensamento em relação a um futuro digital, principalmente questões relacionadas à _imaginação_ , que parece ser um tema que voltou a ser comum entre os pós-modenos, mas que assim como a razão, também faz parte de toda a história da filosofia.\n\nBasicamente o trabalho final foi responder a essas duas perguntas, e acho que a resposta principalmente da segunda pergunta explica como eu acho que a imaginação se relaciona com o nosso mundo contemporâneo quando pensamos nessa nosso imaginário cibernético.\n\n### 1. Em \"O homem unidimensional\", Marcuse constrói o diagnóstico de uma sociedade \"sem oposição\", aventando a partir disso a prevalência da \"dessublimação repressiva\" na cultura. Reflita sobre a importância desse diagnóstico em relação ao percurso da obra de Marcuse, considerando os textos debatidos ao longo da disciplina.\n\nLembro de logo no começo da disciplina começamos a ler o _Cultura e Sociedade_ do Marcuse, e aprendermos sobre _cultura afirmativa_. Achei muito interessante toda a concepção dele de cultura, de atribuir a ela esses aspectos _afirmativos_ e _negativos_ , e a importância de movimentos contraculturais como negação da cultura vigente. Eu concordo com sua noção de que os movimentos contraculturais tem potencial revolucionário exatamente por conversar com a sua ideia de que vivemos em uma _mais-repressão_ , e que portanto uma fruição do nosso _princípio de prazer_ em detrimento de um _princípio de desempenho_ é necessário. Essas ideias surgem a partir da sua análise de Marx e Freud. Marx em sua crítica a macroestrutura capitalista e a alienação do trabalho. Freud e seu princípio de prazer e realidade, no qual Marcuse faz uma leitura que propõe a aplicação desses princípios no próprio indivíduo social. Essa não é uma leitura muito popular de Freud, como ele mesmo pontua, mas ele acredita que a obra do psicanalista já carregava em potência essa dimensão do social. Ele une conceitos desses autores para desenvolver o conceito de _mais-repressão_ , se a _mais-valia_ em Marx é a extração do \"excedente\" do trabalho do operário, em Marcuse, a mais-repressão é algo que também se apresenta no contexto capitalista, essa repressão se baseia na transformação de um princípio de realidade em princípio de desempenho. Onde até mesmo em nossas vidas privadas estamos sujeitos a agir segundo uma lógica da utilidade, da máxima eficiência.\n\nEntão é isso, Marcuse de cara já foi revolucionário na exposição dessas ideias que citei anteriormente, trazendo Marx e Freud. Porém para além disso, Marcuse também enxerga a janela de possibilidade para a revolução na dimensão estética e nos movimentos contraculturais, pois estes vão nesse sentido de _imaginar_ novas formas de conjunturas sociais, então o próprio exercício da imaginação convertido em princípio político materializado, em organização social, é sempre uma ferramenta revolucionária poderosa ao meu ver; e aqui independente de espectro político, pois o imaginário e estética do fascismo consegue se fazer presente até hoje nas disputas geopolíticas, por exemplo. Então eu acredito que vivemos uma disputa pela imaginação, de fato, não no sentido abstrato, mas no de entender a importância do ato de imaginar e por em prática no mundo, se nos conformamos com o mundo, outros vão imaginá-lo e por em prática no nosso lugar. Uma sociedade conformada não precisa imaginar, posteriormente Marcuse se frustra com os movimentos de sua época e acredita que essa janela de possibilidade revolucionária não é eterna, mas que para o capitalismo continuar existindo ele vai se adaptar a esses movimentos na tentativa de os cooptar. Além de construir estruturas que permitem nossa fruição em um ambiente controlado, dentro de possibilidades limitadas, nos dando uma falsa sensação de liberdade. É exatamente disso que se trata a _dessublimação repressiva_ , é o capitalismo condicionando nosso prazer ao consumo e performance. Performance tanto no sentido de eficiência, autocobrança e sucesso individual, como no sentido de performar uma imagem pública de sucesso nas redes sociais. Além do fato de que hoje em dia são essas mesmas redes sociais que ou permitem ou condicionam ativamente os jovens a certos discursos.\n\nA análise de Marcuse se faz valiosa para podermos identificar tanto essas estruturas repressivas, quanto os meios de superação.\n\n### 2. Marcuse concebe a \"dimensão estética\" como uma forma de recusa aos modos repressivos de vivência propagados pelo capitalismo tardio. A partir do que foi discutido na disciplina, reflita sobre a atualidade dessa ideia, bem como os seus possíveis desafios.\n\n#### Para esta questão, será considerado de que modo a resposta dialoga com as discussões abordadas em sala de aula a partir dos textos e como ela constrói uma perspectiva reflexiva sobre a importância e atualidade da obra de Marcuse.\n\nA imaginação foi o tema que mais me chamou a atenção esse semestre, e essa nossa faculdade está intimamente ligada à dimensão estética que defende Marcuse.\n\nDurante a disciplina pensei bastante sobre essa questão de explorar mais como posso ligar o pensamento de Marcuse ao que hoje chamamos de \"cibercultura\". Pois por mais que a internet e os smartphones tenham suas contradições, eles capacitaram a esmagadora parte da população global a ter uma intercomunicação global praticamente instantânea. Surgem termos próprios, \"memes\" e formas de expressões próprias, e que já mudaram bastante conforme o tempo passou. Quando pensamos em capacidade política, isso significa grupos, partidos, subculturas, e diversos âmbitos da sociedade utilizando isso para impulsionar seus interesses, com uma ferramenta que tem potencial de mobilizar massas ao redor de todo um país. Na política isso vira jogo de poder, conseguimos organizar uma mobilização a nível nacional no mesmo dia, e aqui o principal problema ao meu ver é que os espaços que estão sendo utilizados tem também seus vieses e manipulam intenção. As redes sociais centralizadas, ou seja, redes que tem a estrutura focada em um servidor central, que é o caso das principais redes, então Facebook, TikTok, YouTube, Instagram, X. Essas redes podem não ser totalmente orgânicas, pois há a ação de um algoritmo que ao passo que analisa nossos gostos e nos entrega conteúdo personalizado, também são caixas pretas e permitem facilmente que a empresa manipule intenção ao ocultar os parâmetros utilizados na construção desse algoritmo. Mas ainda existe certa subjetividade e interações orgânicas, e se conseguirmos captar somente essa natureza das redes? Hoje já existem soluções que caminham para ser as alternativas a esse modo de utilizar as redes sociais (o Fediverso, por exemplo), e aí eu passo a me perguntar o que poderia sair disso. O que poderia resultar de espaços virtuais onde não há necessidade de um servidor central de uma grande empresa capitalista ditando as regras ou construindo algoritmos em \"caixas pretas\"? Onde os dados ficam todos com o próprio usuário, e pela natureza dos sistemas geralmente serem de código aberto, programadores tem liberdade de customizar totalmente e criar esses algoritmos de recomendação de conteúdo, mas que sejam transparentes ao usuário. Sistemas abertos também são menos vulneráveis a falhas de segurança pois ao mesmo tempo que é fácil descobrir falhas por ter seu código exposto, esses mesmos erros são rapidamente corrigidos por essa mesma natureza.\n\nDada essa introdução, o motivo de eu achar que isso conversa com Marcuse é porque hoje vivemos em uma generalização dessa cultura cibernética. Por mais contradições que existam, hoje em dia temos formas artísticas digitais, como pintura, animação, jogos digitais que são uma poderosa ferramenta lúdica. Além da própria potencialização da exposição de diversas obras, do cinema à um quadro de um museu, uma determinada obra literária. Inclusive hoje muito se discute o trabalho de preservação digital que a cultura da pirataria exerce, pois plataformas de streaming como Netflix e Prime Video tem seu catálogo totalmente baseado na demanda do capital e na lógica do lucro, não faz sentido ter filmes pouco populares. Podemos pensar a mesma coisa para obras literárias e filosóficas, bem como os jogos digitais. Os jogos digitais são a grande novidade das últimas décadas, eu acho fantástico o potencial lúdico nos mais diversos âmbitos, tanto da utilidade, educação, quanto da arte pela arte, na minha visão é uma nova forma de inserir o expectador dentro da obra. Por mais que hoje em dia infelizmente já tenha se generalizado a lógica de \"controle de intenção\" também dentro dos jogos, com sistemas gamificados, apostas. Essa lógica da gamificação começa a pular fora dos jogos e passa a operar em cima das redes sociais, passam de estruturas onde a interação era mais \"lenta\" e orgânica, para plataformas totalmente algoritmizadas e que movem movem nossos afetos. Então acho que existe uma dimensão estética dentro desses ambientes digitais que ainda precisa ser compreendida, de saber separar o que é simples reprodução do capital e do desempenho, e entender o que resta para nós desses espaços enquanto intermediador de relações humanas, espaços para debates públicos e obviamente sublimação artística, podendo conectar a obra e o público independente da distância.\n\nE aí obviamente temos problemáticas em cima disso que ainda precisam ser discutidas. A possibilidade que Marcuse coloca de que nossa imaginação pode ser cooptada e perder sua capacidade de criar novos mundos, pelo menos mundos fora da dimensão de possibilidades oferecida pelo sistema capitalista, é uma preocupação genuína porque todas as formas de expressão digital que falei anteriormente estão sujeitas ao capital. A área de jogos digitais, que é a com que eu trabalho e observo mais de perto, assim como em diversas outras áreas artísticas, existe uma distinção clara entre jogos independentes, feitos por estúdios pequenos e com baixo orçamento, e jogos que são puramente comerciais, de grandes estúdios e que geralmente tem orçamentos milionários. Desenvolvedores considerados \"bem sucedidos\" são aqueles que conseguem lançar um jogo, fazer um dinheiro para se manter podendo focar somente em desenvolver o próximo projeto. Nada muito diferente da música e outras artes plásticas. Outra questão são os limites da imaginação, se estamos vivendo uma certa forma de \"apagamento\" da nossa capacidade imaginativa. Como lidar com a imaginação irrefreada? Como lidar com agentes políticos que amam viver de analogias e \"imaginar cenários possíveis\" para tentar confundir o interlocutor? Isso é algo que me interessa, e por isso gostaria de estudar mais sobre autoridade e autoritarismo.\n\nNosso uso das redes sociais é o melhor exemplo dessa dessublimação repressiva, não temos ninguém apontando armas em nossa cabeça, nós perdemos tempo scrollando infinitamente um feed cheio de conteúdo porque é prazeroso, e o prazer não está necessariamente no conteúdo em si, mas na expectativa do que virá no próximo. Porém se retiramos isso, passamos a utilizar redes sem um algoritmo pesado, que é aberto, e que o filtro de conteúdo não mais pertence a uma única empresa no Vale do Silício, mas pode ser generalizada entre programadores que criam soluções para outros usuários utilizarem; me pergunto se uma nova percepção do que é uma rede social virtual pode também nos ajudar a alcançar essa nova sensibilidade. A disputa segue sendo a mesma de tempos atrás, de como o capitalismo sequestra a técnica e nos faz de refém. Porém novamente trazendo Marcuse, precisamos imaginar um mundo novo, e isso não se trata de apagar o mundo que temos até agora e recomeçar do zero, mas entender as estruturas na qual estamos inseridos e buscar brechas para a revolução, buscar o que é útil e o que é inútil dentro da conjuntura atual, assim como discutimos na sala sobre não nos livrarmos totalmente do iluminismo pois existem concepções que ainda se fazem necessárias.\n\nPra a minha preocupação atual, que é com o controle da tecnologia por parte das Big Techs, eu penso que movimentos de software livre e hardware livre são contraculturais e revolucionários. Resumindo bastante, eles são movimentos que pregam contra a ideia de programas e dispositivos proprietários, projetos de computação e robótica que são livres tendem a ter seu código e esquema elétrico todo disponibilizado online para quem quiser replicar. Parece besteira até pararmos pra pensar que o que \"sustenta a internet\" hoje é um projeto de software livre e comunitário, o Linux, ele é utilizado em mais de 90% dos servidores do mundo inteiro, o Android que é o sistema operacional mais utilizado no mundo também é Linux, os sistemas de SmartTV, e SmartWatches, enfim. Não que o projeto hoje não tenha suas contradições, como o fato de ser a potência que é exatamente por ser fortemente financiado pelas grandes empresas capitalistas como Google, Nvidia, a própria Microsoft, que fazem não por benevolência, mas por também dependerem do sistema para operarem os seus serviços. O que novamente reafirma esse poder do capitalismo cooptar diferentes movimentos.\n\nTentei trazer Marcuse para essa dimensão específica da tecnologia, pois boa parte do nosso imaginário atualmente se baseia nessa dimensão cibernética. Então mais do que nunca Marcuse é atual, a mais-repressão e a dessublimação repressiva só se evidenciaram cada vez mais desde que o filósofo publicou suas obras. Algo que o capitalismo faz muito bem é o sequestro das ferramentas tecnológicas. Dos grandes maquinários industriais às mais avançadas técnicas de fotolitografia para o desenvolvimento de microchips. Ou seja, nesse sequestro nós também somos tomados de reféns. Diferente de nossas necessidades básicas como comer e descansar, os grandes capitalistas criam novas necessidades materiais que só eles tem o maquinário necessário para produzir.",
  "title": "Texto final de Tópicos Especiais de Estética II"
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