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  "textContent": "O pai de santo Paulo Henrique da Silva, de 34 anos, denunciou à polícia ter sido vítima de intolerância religiosa em Campo Grande. O caso ocorreu na manhã de 3 de junho, em frente à casa dele, na Rua Cenira Soares Magalhães, no Parque do Lageado, e envolve o pastor Sérgio Britto, da igreja Ministério de Jesus Cristo da Última Hora.  A polícia registrou o caso como prática, indução ou incitação de discriminação ou preconceito de religião. Conforme o boletim de ocorrência, familiares de Paulo foram abordados por Sérgio, que teria feito declarações contra a Umbanda. Ao saber da situação, a vítima foi até uma rua abaixo de sua residência para questioná-lo.  Segundo o relato de Paulo à polícia, ao ser abordado, o pastor disse que “todo macumbeiro, feiticeiro e umbandeiro vai ser julgado e vai parar no inferno”. Em seguida, teria caminhado em direção à casa da família, afirmando: “eu posso morrer, eu posso ser preso, mofar na cadeia, que eu vou sempre estar falando a palavra certa”.  A vítima contou ainda que Sérgio se ajoelhou próximo à residência e passou a recitar trechos bíblicos, perturbando o sossego da família. Paulo procurou apoio da Polícia Militar, foi orientado a registrar boletim de ocorrência e representou criminalmente contra o pastor.  Vídeo gravado pela vítima mostra Sérgio, vestido de terno e segurando uma Bíblia, acompanhado por fiéis na rua da casa de Paulo. Nas imagens, o umbandista afirma que o grupo foi até o local para dizer que ele seria condenado caso não deixasse a umbanda. O pastor responde: “vai mesmo, eu morro e vou para a cadeia, mas eu vou com a palavra verdadeira”.  Durante a discussão, Sérgio também fez uma afirmação contra praticantes da umbanda, citando capítulo e versículo bíblicos.  Na manhã desta quinta-feira (11), Paulo disse ao  Campo Grande News  que essa foi a primeira vez que ele e a família sofreram esse tipo de ataque. Ele relatou que estava no mercado quando recebeu uma ligação da sobrinha avisando que pessoas haviam passado pela casa dizendo que a família seria condenada se não mudasse de religião.  “Eu voltei para casa, estava junto com minha mãe. Cheguei em casa, coloquei minha sobrinha no carro e fomos procurar eles para contestar sobre esse assunto”, contou.  Ainda segundo Paulo, ao ser questionado, o pastor passou a citar trechos bíblicos. A mãe da vítima teria dito que a família não ia até a porta da igreja buscar fiéis. Em resposta, Sérgio teria afirmado: “abaixa o tom, satanás, demônio”.  “Minha mãe é uma pessoa doente, faz tratamento psiquiátrico, uma situação complicada”, disse Paulo.  A vítima afirmou que o pastor seguiu em direção ao terreiro da família repetindo falas contra umbandistas. “Ficamos ali contestando ele, quando ele foi subindo em direção ao meu terreiro e pregando trechos da Bíblia, sempre falando que praticantes de religiões de matriz africana iam ser condenados, iam para o inferno. Quando chegou na frente do meu barracão, ele começou a falar que praticantes de religiões de matriz africana não herdariam o reino dos céus”, relatou.  Paulo disse ter ficado abalado com o episódio. “Fiquei muito mexido, chateado com essa situação. Não vamos na casa de ninguém e foram na minha porta fazer isso. Minha mãe tem problema de saúde e eles fizeram esse tipo de situação, chamando ela de demônio”, afirmou.  Após o ocorrido, ele procurou o Instituto Yalodê, do Obaba Augusto, para receber assessoria jurídica. Paulo informou que registrou boletim de ocorrência e está acompanhado por um advogado do instituto para ingressar com ação criminal.  “Eu espero que ele tenha consciência do que ele fez, isso não é uma coisa legal e que repare esses danos causados. Minha mensagem é para quem sofrer intolerância religiosa: denuncie, não podemos ficar quietos. Quero que isso sirva de exemplo para que outras pessoas não passem por isso”, declarou.  A reportagem conversou com Sérgio Britto e ele afirmou que, no dia dos fatos, estava evangelizando no Bairro Parque do Sol, acompanhado da família, com entrega de folhetos e convites para cultos da igreja. Segundo ele, a abordagem à casa de Paulo Henrique não foi proposital e o grupo não sabia que o imóvel funcionava como centro de umbanda.  O pastor disse que entregou um folheto a uma mulher que estava no local e que, após ela afirmar ser umbandista, citou uma passagem bíblica. “Eu disse que ela deveria se arrepender e largar a umbanda, senão ela poderia ser condenada. Mas eu não disse nada contra a pessoa dela, somente falei da palavra de Deus”, afirmou.  Ainda conforme Sérgio, depois da abordagem ele seguiu evangelizando pela rua, mas foi procurado por Paulo Henrique e pela mãe dele. O pastor alega que os dois o abordaram de forma constrangedora, falaram alto e teriam feito agressões verbais contra ele e a família. Ele também nega ter perseguido a vítima ou ido até o terreiro com intenção de ofender.  De acordo com Sérgio, o vídeo que circulou nas redes sociais foi gravado quando ele acabou retornando pela mesma rua do barracão. Ele afirma que, por estar desorientado, voltou pelo caminho anterior e que a situação deu a impressão de que ele seguia Paulo Henrique. “Eles estavam nos perseguindo, nós não fizemos nada além de dizer aquilo que estava na Bíblia”, declarou.  O pastor também negou que tenha entrado ou tentado invadir o centro de umbanda. Segundo ele, a repercussão do vídeo prejudicou a família, inclusive as filhas, e expôs uma menor de idade. Sérgio afirmou que tem recebido ofensas nas redes sociais e que a situação poderia ter sido resolvida de outra forma. “Nós, como cristãos, não desrespeitamos ninguém e não obrigamos ninguém”, disse.   Combate ao racismo religioso -  Presidente do Instituto Yalodê, entidade que oferece orientação jurídica a vítimas de racismo religioso, o Bàbá Augusto afirma que Paulo Henrique da Silva procurou apoio após o episódio denunciado à polícia. “O Pai Paulo é sacerdote da Umbanda e me procurou para pedir ajuda, após ser mais uma vítima de racismo religioso”, disse.  Segundo Augusto, o Instituto Yalodê acompanha cerca de 20 casos semelhantes, entre denúncias e processos que correm em segredo de justiça. Ele ressalta, porém, que o número real pode ser maior, já que muitas vítimas ainda não formalizam denúncia. O presidente da entidade explica que visita casas de axé para divulgar o trabalho de combate ao racismo religioso, incentivar que os casos sejam levados às autoridades e oferecer orientação jurídica a vítimas de racismo ou intolerância religiosa.  Para o Bàbá, praticantes de Candomblé, Umbanda e Quimbanda sofrem racismo religioso, e não apenas intolerância religiosa, porque esse ódio, segundo ele, nasce do racismo, do preconceito e da rejeição à cultura, à fé e aos costumes de matriz africana. “O Candomblé, a Umbanda e a Quimbanda são heranças de pessoas que sofreram nas mãos do colonizador e resistiram graças aos ancestrais”, afirmou.",
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