Nadielly achou que fosse sinusite, mas dor era câncer raro na bochecha
Campo Grande News - Conteúdo de Verdade [Unofficial]
April 6, 2026
Era sinusite. Pelo menos foi isso que disseram por muito tempo. Dor de cabeça, secreção, sangramento no nariz. Sintomas comuns, receitas repetidas, antibióticos não resolviam o problema. Até que o corpo de Nadielly Karoline da Silva Lacerda, hoje com 30 anos, decidiu gritar mais alto. Não era sinusite. Era um câncer no rosto, especificamente na bochecha. A descoberta veio ainda jovem, aos 19 anos, depois de insistência e de um sintoma que já não dava para ignorar: a visão começou a falhar. Foi só então que exames mais profundos revelaram o que nenhum médico suspeitava. Um tumor raro, um condrossarcoma que, em vez de aparecer em ossos, crescia na cartilagem do rosto, entre o seio nasal e a maxila. Na época, aquilo foi um espanto para os médicos que ela consultou. O diagnóstico veio acompanhado de outra frase difícil de digerir: “nunca vi nada assim”. A 1ª cirurgia foi feita no Hospital Central do Exército, onde parte da estrutura interna do nariz precisou ser retirada. Sem quimioterapia ou radioterapia como opção, o tratamento se resumiu ao que ainda hoje é a única alternativa possível: cortar, retirar, acompanhar. “Eles me encaminharam para o Rio de Janeiro, fui para o hospital do Exército. Eles tiraram o tumor e eu continuei fazendo o acompanhamento com o oncologista. Um câncer ósseo já é difícil. No meu caso foi ainda pior. Ele é resistente a radio e quimioterapia”. A vida seguiu. Em 2018, Nadielly decidiu recomeçar longe. Com uma filha de apenas quatro meses e o marido ao lado, deixou Campo Grande e partiu para Portugal. O plano era começar do zero. E foi exatamente o que fizeram. Trocaram estabilidade por uma tentativa de mudança. Mas, em 2024, tudo virou de cabeça para baixo, de novo. “Foi quando eu estava trabalhando que comecei a sentir que o meu nariz já estava gotejando e sangrando do lado esquerdo, que é o lado que eu tive o câncer, e já me deu um alerta, porque não é normal. E como eu já tinha um passado, já foi um gatilho. Eu fui na emergência, já me fizeram uma tomografia, avaliaram e apareceu uma mancha”. O problema tinha evoluído e estava invadindo o olho. Os médicos conseguiram tirar parte do assoalho e o canal lacrimal, mas a operação não foi tão fundo quanto deveria. “Eles teriam que tirar o globo ocular e não era uma coisa que eles tinham me avisado antes da cirurgia, então eles não podiam fazer isso. Ela fez uma biópsia do que ficou e realmente constatou que também estava com algumas células doentes. Por mais que não tivesse retirado o tumor, ainda tinha ali um pouco das células”. E, como se não bastasse, alguns dias depois veio outro golpe. O marido recebeu o diagnóstico de esclerose múltipla. Dois diagnósticos, duas doenças crônicas, três filhos pequenos e nenhum familiar por perto. A vida que parecia organizada começou a desmoronar. Quem ficaria com as crianças durante as consultas, como pagar medicação, como lidar com o cansaço físico e emocional. Foi aí que veio a decisão que ela nunca quis tomar. Eles precisariam voltar para o Brasil. Para morar fora, ela deixou o diploma na área da odontologia no Brasil e vestiu o avental de garçonete em uma sorveteria. Trabalhou por quase 4 anos. Depois, conquistou espaço em um supermercado, já efetivada, com rotina puxada e dias de até 13 horas de trabalho. No meio disso tudo, nasceu o filho mais novo, português de nascimento. “A gente foi construindo nossa vida. Meu marido começou a trabalhar e eu ficava em casa com a nossa filha, e depois, eu saí para trabalhar e ele ficou com ela em casa, porque também a creche lá era particular. Ele começou a ficar em casa, eu comecei a trabalhar como garçonete numa sorveteria, perto de casa, troquei o jaleco por um avental, mas valeu a pena”. Depois, as coisas melhoraram e eles conseguiram financiar um apartamento. Hoje, ele está alugado para um amigo. Muita gente fala do que as pessoas deixam para ir para outro país ou cidade, mas ninguém fala o sofrimento que é o inverso da história. Ao voltar ao Brasil, para Campo Grande, Nadielly sentiu como se os anos longe da família e o esforço tivessem sido em vão. O sentimento ainda aparece no dia a dia. “Em 2023, a gente mudou para Figueira, na nossa casa própria. A gente estava todo entusiasmado. Eu já tinha criado o canal no YouTube na época para falar sobre Portugal, comida, onde ir, essas coisas, mostrava essa rotina, as curiosidades, preços de mercado”. A despedida não teve tempo para ser sentida com calma. Em menos de dois meses, a família arrumou o que dava, basicamente roupas, e deixou para trás a casa mobiliada, os brinquedos das crianças, a rotina construída ao longo de anos. Cada filho trouxe apenas um brinquedo na mala. De volta a Campo Grande, Nadielly precisou recomeçar mais uma vez, agora carregando não só a própria doença, mas também os impactos dela. O acompanhamento passou a ser feito no Hospital do Câncer Alfredo Abrão. Hoje, ela está em remissão. Mas a palavra não significa fim. As sequelas são diárias. Dor constante no lado esquerdo do rosto, causada pelo comprometimento de nervos. Falta de ar, mesmo com o organismo funcionando normalmente, consequência da chamada síndrome do nariz vazio. Cansaço extremo, insônia, suspeita de fibromialgia. E, acima de tudo, o medo. Porque, no caso dela, se o tumor voltar, a cirurgia pode ser ainda mais radical: retirada total do maxilar e do olho esquerdo. Uma possibilidade que não mexe só com a saúde, mas com identidade, autoestima e futuro. Entre consultas, exames a cada seis meses e medicações para dor, Nadielly segue tentando reconstruir a vida que precisou abandonar. Diferente daquela jovem que saiu do Brasil cheia de planos, hoje ela carrega uma certeza que não estava nos roteiros.
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