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Cinco coisas que me fazem feliz: abraços, céu, filmes, andarilhar, experiências surpreendentes

Cosmoliko April 18, 2026
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1. Abraçar

Gosto de receber abraços, gosto mais ainda de abraçar e fico feliz quando reconhecem meu abraço. Agradecem. Não querem me soltar. Declaram que eu tenho o melhor abraço do mundo. Eita elogio gostoso de receber.

Todo abraço é um movimento em que coloco intenção. Não gosto dos abraços de despedida no meio de uma rotina acelerada da qual não faço parte — alguém que pega o uber e leva embora segundos preciosos de contato físico com quem não verei por um longo tempo.

Tem abraço que eu sinto que a pessoa está murchinha, murchinha, então aperto forte e sinto como se pudesse compartilhar minha alegria e energia com ela. Toma, toma, eu tenho amor para dar e vender!

Às vezes gosto de abraçar quem não gosta de abraços, só para irritar. Geralmente, me arrependo no momento seguinte. Mas algumas vezes, percebo que a pessoa derruba a armadura e me agradece com o olhar.

Minha tia tem passado por uma barra. Todo dia ela vem buscar meu abraço, chega em casa anunciando. Vim buscar meu abraço! Os dias que ela não fala nada, são os dias que mais precisa.

Minha mãe não é de abraços, é claustrofóbica. Em poucos segundos, falta-lhe ar. Não aguenta um terço dos abraços que tenho com minha tia. Mas quando nos despedimos na rodoviária, ela parece esquecer disso.

Gosto de abraçar pessoas que não conhecem abraços. Pessoas de fora do Brasil, cujas culturas tratam o carinho como fraqueza, coisa de viado. Para esses, guardo um abraço diferente. Como se fosse um colo, um sinto muito, um não liga para eles não, você não é menos homem por isso. Já marejei os olhos ouvindo que nunca haviam feito isso por eles.

Lendo esses parágrafos, pareço uma pessoa extrovertidamente efusiva. Mas não é bem assim. Apesar de colocar intenção nos abraços, doso a medida, e no dia a dia eles passam despercebidos.

Raramente abraço pessoas que estou conhecendo; sigo contido. Guardo para aqueles que amo ou que simplesmente sinto que preciso abraçar.


2. Observar o céu

Especialmente o pôr do sol e de dentro do mar, melhor ainda se for na Praia Grande de Arraial do Cabo/RJ. Meu pôr do sol favorito.

Poder observar o céu por mais de cinco minutos tranquilamente é um dos indicativos de que estou bem, de que a vida anda bem — ou de que tudo vai ficar bem. Se não posso parar por alguns minutos para contemplar as nuvens, o degradê das cores e o sutil movimento acima de nós, é sinal de que estou num lugar onde não devo me estender ou me ocupando mais do que o necessário.

Às vezes, procuro nas redondezas o melhor lugar para ver o Sol ir embora. Se não é possível, me contento com diferentes ângulos para observar o horizonte ou onde consigo a melhor porção de visão.

Tenho um amigo em São Paulo, onde a possibilidade de observar o céu é mínima. Olho para cima e vejo um pequeno azul emoldurado por quatro retas de cimento. Tanta coisa acontece nesse enquadramento.

Às vezes me dói perceber a diminuição no brilho das estrelas. Tenho visto isso acontecendo aceleradamente na zona rural, cada vez mais urbana, em que minha família mora. As luzes abaixo do horizonte brilham diferente. As de cima brilham magicamente.

É tão prazeroso e sossegado caminhar entre as árvores numa noite banhada pela luz da Lua Cheia. Ou deitar na grama e olhar para o alto numa noite de Lua Nova.

Certa vez, estava numa festa proibida na restinga. A polícia apareceu de supetão e várias pessoas ligadas ao tráfico saíram correndo. A festa acabou. Eu e mais dois amigos havíamos acabado de comer cogumelos. Saímos andando pela praia e, no meio do caminho, deitamos na areia. Fomos presenteados com a maior estrela cadente de nossas vidas. Ela cortou o céu de uma ponta a outra, entre estrelas e satélites. Nossa exclamação assustou um homem que se aproximava, achando que havia encontrado três defuntos desovados.


3. Dias vendo filmes em seguida

Pode ser pulando de cinema em cinema, sessão em sessão — geralmente sozinho, pois não costumo ir acompanhado. É tão bom quando os horários dos filmes batem certinho no mesmo local ou região.

Especialmente, gosto de ver filmes na casa da minha mãe, geralmente com ela, às vezes com meus sobrinhos e minhas irmãs. Nenhum deles aguenta tanto quanto eu, e quando minha mãe vai dormir, aproveito para ver os filmes de terror.

Infelizmente, dias assim estão escassos, e às vezes temo que a última vez que estivemos juntos para isso já tenha acontecido.

Talvez eu gostar tanto disso não tenha a ver só com amar a sétima arte — tanto que foi um sonho que busquei ao me mudar para São Paulo; dos sonhos despedaçados, o meu era me tornar cineasta. Mas deve ter alguma conexão com a infância, das idas às locadoras, alugar VHS e passar o fim de semana mergulhado em histórias. Deitados no colchão jogado no chão, no meio de travesseiros e pipocas, olhando para uma TV menor que o aparelho VHS.

Um dia, alugamos as fitas pela última vez. E, um dia, será a última vez que passarei o dia vendo filmes em família.

Felizmente, ir ao cinema sozinho, pulando de sessão em sessão, continuará sendo uma das minhas atividades favoritas.

(se a merda da Netflix não foder a porra toda)


4. Andarilhar a Esmo

Sempre que me chamam de andarilho, nunca acho ruim. Na verdade, acho que faz bastante sentido e aceito o adjetivo.

Adoro caminhar por aí, percorrer longos quilômetros por lugares que desconheço. Quando chego a um lugar novo, me entusiasmo com a ideia de explorar a região caminhando. Seja na natureza, seja na cidade. Até mesmo em lugares conhecidos, andar por aí me revela tanta coisa nova.

Isso me empolga, me energiza e me faz sentir feliz comigo mesmo. Me sinto vivo, vivão e vivendo.

Gosto de observar tudo e, assim, também observar dentro de mim mesmo. Frequentemente me deparo com situações curiosas, encontro pessoas interessantes e tenho inúmeras ideias.

Faço amizades aleatórias, curtas também. Duram tanto quanto a minha permanência. Tornam-se lembranças, às vezes uma mensagem de "por onde andas?" numa foto qualquer, em outro lugar, tempos depois de quando dividimos uma conversa e compartilhamos um momento feliz.

Faço amantes também. É surpreendente o tanto de gente querendo transar que se encontra por aí. Sempre começa com o olhar. O olhar diz tudo.

Confesso que, na maioria das vezes, é melhor deixar as amizades e os amantes para trás. Quase tudo pelo caminho, na verdade, é melhor deixar para trás. Não levo nada comigo. Não cabe na mochila, não cabe no bolso, não cabe no coração.

Levo apenas as histórias, geralmente dos outros. E aprendizados. Talvez essa seja a parte de que eu mais gosto nessas andanças: aprender pelo caminho.


5. Experiências aleatórias surpreendentes

Entre os valores que carrego comigo quando estou no modo aventureiro, estão dizer sim para (quase) tudo e esperar o melhor das pessoas, sempre. Já tem gente demais esperando o pior dos outros por aí. Eu não quero ser assim.

É fácil a gente ter medo de colocar o pé no mundo, sair de casa e viver o desconhecido. A mídia toca o terror na gente; o sensacionalismo vende como ninguém. É melhor que as pessoas tenham medo de tudo, do(s) estranho(s), assim são mais fáceis de controlar. É batido, é clichê, mas é porque é verdade.

(Para os mais céticos, covardes, ou cujos egos gritam ao ver alguém buscando uma vida alternativa, que sentem a necessidade absurda de apontar obviedades, é preciso salientar que não sou um tapado. Reconheço meus privilégios, principalmente como homem e branco. Mas vocês se surpreenderiam com a quantidade de gente que, sem os evidentes privilégios, está por aí ignorando as estatísticas e o terror. Essas pessoas existem, apesar de não usarem Instagram.)

Quanto maior o leque de experiências com pessoas diferentes — de perfis, ideologias e crenças variados —, mais fácil se torna identificar seus interesses e intenções. A intuição aflora e te ajuda a fluir entre aqueles que te agregarão.

Mas já estou falando demais, me prevenindo dos que costumam menosprezar quando entro nesse assunto numa roda de bar.

Vamos direto ao ponto: eu gosto das experiências aleatórias e surpreendentes que acontecem quando estou com esse modo de vida ativado.

Posso estar sem um tostão no bolso, mas basta um sorriso e aceitar os convites para viver momentos incríveis. Às vezes nem existem convites, só acontece. Você só vai indo, indo, indo e, de repente, aconteceu tanto que jamais poderia imaginar quando deu o primeiro passo.

Uma vez, estava no Rio de Janeiro, tentando acalmar minha cabeça fodida do caralho de um estresse absurdo que estava vivendo no trabalho em São Paulo. Tinha ganhado convites para ver as escolas de samba no Rio, por isso estava lá. Fui preparado para caronar até a Bahia, mas a cada rolê novo, cada trilha que fazia pelo Rio, pessoas com quem conversava pelo caminho me diziam: vá para Arraial do Cabo. Eu nem sequer sabia da existência dessa cidade, mas já que tanta gente aleatória estava me dizendo isso, senti um chamado do Universo. Tá bão então. Peguei uma carona para Arraial.

O motorista era um completo maluco. Me apelidou em cinco minutos, parava de hora em hora para mijar e comer um salgado, falava uma besteira maior que a outra. Em determinado trecho de uma estrada de terra alternativa, levantou as mãos e abaixou os dedos um por um. Após o último, acelerou como se estivesse tirando um racha. Tá bom, cara, tá bom, vamos devagar agora.

Depois, teve a coragem de contar que tinha uma ordem de restrição de 100 metros do próprio filho. Que tipo de motorista conta isso para os passageiros?! Eu só sorria e acenava. Em conversa de louco, a gente tem que ser mais louco ainda.

Quando chegamos ao lado das dunas, ele parou o carro e me disse sério: "Você tem 5 minutos, vá". Mano do céu, que porra esse cara tá dizendo? Esse foi um momento em que o medo poderia ter piorado uma situação suspeita. Entendi que ele queria que eu subisse a duna para ver o famigerado pôr do sol de Arraial, sobre o qual havíamos conversado horas antes. Minha mochila, com tudo que eu tinha, ficou no carro daquele maluco, enquanto eu subia a areia para apreciar a vista. Mal subi, já voltei correndo. Ele ainda estava lá me esperando, e minha mochila também. Fiquei levemente envergonhado do medo que criei de ele vazar com as minhas coisas.

Entrei no carro. Em qual hotel você vai ficar? Saco, eu não queria que ele soubesse que eu estava avulso. Certeza que ia querer me levar pra casa dele, fazer amizade. Ele não podia saber que eu só fui. Quando chegasse em Arraial, descobriria o que ia fazer, para onde ir, com quem ia ficar. Mas definitivamente eu não queria ficar com ele.

Na hora, peguei meu celular, abri o Hostel World e mostrei o endereço do primeiro hostel que estava na tela: o Books Rehab. Ele me olhou desconfiado. Você tem reserva nesse lugar? Tenho sim. KKKKKK

Desci do carro, agradeci e descobri que o lugar nem tinha vagas. Mas conversamos. Eu passaria a noite e no dia seguinte procuraria outro lugar. Acabou que cancelaram reservas dos dias seguintes e fui ficando. Fiz amizades. Começou uma tal de pandemia. Passei a quarentena nesse lugar. Nunca nem cheguei à Bahia, tampouco fui embora.

Arraial do Cabo, a cidade que eu nem sabia que existia três dias antes de chegar, se tornou meu novo lar. Me tornei sócio do dono do hostel. Depois, abrimos juntos um restaurante delivery e uma pousada.

Uma sucessão de experiências aleatórias surpreendentes virou minha vida do avesso. E eu amo experiências aleatórias surpreendentes.


Aqui um texto que gosto bastante de quando estava quarentenado no hostel Books Rehab:

Burnout Corona Road e o Books RehabMeu ano começou uma delícia com amigos que amo lá em Monte Verde – antes, eu estava um pouco infeliz em São Paulo -, e aproveitei o momento bom para fazer muitos planos para 2020. Porém, tão logo voltei a capital as coisas se dificultaram, mais e mais. Fui consumido exponencialmente,CosmolikoEliel Guilhen


🫵

E você? Quais são as coisas que te fazem feliz? Alguma das que eu contei também te trazem felicidade? Me conta!

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