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Uma delicada coleção de ausências (Aline Bei, 2025)

Cosmoliko February 18, 2026
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Última atualização: 22/02/2026

  • Começando a leitura do terceiro de Aline Bei, a favorita dos escritores nos últimos anos. Gostei dos dois primeiros livros: “O peso do pássaro morto” (2017) e “Pequena coreografia do adeus” (2021).
  • Estava ansioso por essa leitura desde uma feira literária, logo após o lançamento, em que escutei Aline falando do seu processo criativo com personagens femininas com Bruna Dantas Lobato.

Anotações pós leitura

Ela conseguiu de novo! Inicialmente, estava achando esse o livro mais fraco da Aline Bei. Mas conforme avança para o final e o tema da história fica impossível de ignorar, o livro ganha muito.

Com certeza, tem um peso diferente para as mulheres. Talvez eu não recomendaria para pessoas que choram por qualquer coisa ou que precisam de alertas de gatilhos em qualquer publicação, por menor que seja. Quem precisa de alertas de gatilhos em livros, talvez nem devesse ler Aline bei.

A diagramação e os recursos estilísticos, como a ausência de letras e pontuação, parecendo um jeito de aplicar o sentimento do texto diretamente na forma me irritou um pouco, enquanto não me acostumava. Ou vai ver diminuiu de intensidade ao longo das páginas.

Fiquei incomodado com a passagem de assédio do caminhoneiro, parece uma saída fácil demais que diminui a história. Acho que ela ganharia tanto se a cena fosse construída mostrando que de quem a gente mais espera o perigo por causa do imaginário popular causa menos danos do que os que supostamente não o fariam. O que me incomoda nessa cena é justamente por ela inflar esse imaginário popular.

Mas quem sou eu para falar como Aline Bei, uma das maiores que temos, deve escrever.


Páginas lidas por dia


Destaques e Anotações

Início:

quando o circo chegou à cidade, aquele pedaço de ter­ra batida onde levantaram a lona finalmente ganhou seu segredo. noite após noite se manteve iluminado, e parecia tão natural naquela paisagem que é como se tivesse crescido depois da chuva, e circo fosse árvore ou coisa que vem da terra.


— está na sua palma. (acaricia) ela é toda atravessada por vazios e impermanências. algumas saudades. muitos ar­rependimentos. (olha para ela) na aldeia onde nasci, os brinquedos das crianças são feitos de um material frágil, de tal modo que ensinam o cuidado ao toque, ou irão se rom­per. eles lembram sua vida, esses brinquedos. as linhas de sua palma parecem uma delicada coleção de ausências. você sempre terá que tomar cuidado com o que toca. até mesmo com o que não está é preciso ter cuidado, pois essas coisas têm presença também. há muita força em suas mãos, Mar­garida, todas as luzes e as sombras. se souber usá-las, terá prosperidade.

O título vem de uma leitura da palma da mão


Frases com letras minúsculas, vírgulas com espaço antes, talvez um excesso de vírgulas. Parágrafos quebrados.


A forma, tão importante quanto o conteúdo


— é o que acontece com os ciganos. quer dizer, não dá pra confiar neles.

Ciganos


Margarida olha para ele como se o homem tives­se jogado algo vivo em seu colo, algo que não se po­de deixar cair ou morrer; depois de um tempo ela apenas assente, muito cansada, coloca as mãos na barriga e diz a si mesma que, de toda forma, em algum momento, ela teria que voltar para casa. a certa altura da noite, tão silenciosa apesar do rá­dio, o motorista dá seta, para próximo ao acostamento. coloca a mão na coxa de Margarida, você tem como pagar?

AAHHH VAI SE FODER. Consigo imaginar tantas caroneiras que já conheci revirando os olhos agora.


antes de deslizar para o sono, Laura vislumbra uma nudez luminosa. — vó, ela chama, parece que irá esquec ˆ -la no momen­to em que Margarida deixar o quarto.

Qualé dessa formatação ein?


o rapaz tosse antes de recitar o poema, senhoras se abanam com tampas de alumínio e, por Deus, aqui ninguém compreende, quando um poeta está fora de seu quarto, um poema não é nem mesmo um pom­bo bicando eternamente o paralelepípedo, quem de­ra fosse um carro de polícia, enquanto a jovem corre com o sa­patinho rente ao peito — pega ladrão, pega la­drão! — o vendedor grita, mas sua voz logo se mistura a outros pequenos azares ao redor da feira, para enfim se dissolver no silêncio de uma demorada partida de xadrez na mesa da praça.


mão de vaca , ela murmura guardando o dinheiro no sutiã.

Pq cobra livre se é pra falar isso?


na frente do portão laranja, está aquele carro com uma tabuleta no topo escrito t á x i e uma letra que falha t x i depois retorna t á x i e uma porta que se abre, a detrás:

Tô achando esse estilo mais tosco que interessante


a não ser pela menina que dorme a seu lado, as pernas compridas, do tamanho exato de sua ausência


— você não sabe como faz. — eu sei que precisa usar a língua. — quer tentar? — o quê? — ou você tem medo? — para com isso, já vai bater o sinal. — é rapidinho. — aqui não pode. — vamos na pedra do rato. elas foram. olham para os lados para ver se não tem ninguém olhando e começam a se beijar. Laura põe as mãos na cintura de Lívia, depois desiste e seus braços pendem ao longo do corpo, quem sabe ficando até maiores do que a língua. Lívia se afasta. — você baba muito. — eu, é?


embora Margarida não te­nha aban­donado a mãe — bem, talvez apenas quando fugiu com o circo, logo depois da morte do pai, mas foi a única saída que encontrou para conseguir respirar.


será que os abandonos têm o mesmo peso perante Deus?


Laura sente algo pulsar, sente um va­zio e deixa escorrer umas gotas de xixi. — eu não disse? sai que agora é a minha vez. obedece. ergue a calça enquanto Lívia executa o movimento inverso. é mais difícil para Laura caber no espaço entre a privada e a parede. ainda as­sim ela tenta, vai e vem pelas costas até o início da bunda. Lívia solta um risinho. de olhos fechados, pede para a amiga descer um pou­co mais.


entre elas, os segredos eram sempre respeitados, pois há coisas que ao serem ditas perdem ainda mais volume do que quando existiam apenas no silêncio. há coisas que só não morrem (ou matam) quando mantidas longe das palavras, no escuro.


talvez envelhecer seja lidar imensamente com o próprio corpo, com esse estado de presença brutal, à beira do insuportável, um corpo que, de tanto já ter sido visto, agora precisa ser desvisto se os olhos dos outros não quiserem morrer por antecipação.

Sobre envelhecer


— foi o quê, então? — não sei. deve ter sido o silêncio que a gente deixou crescer demais.


antes de devolver a folha para Laura, recebe outra, arrancada de algum caderno e vinda da carteira de trás. é uma lista das meninas mais gostosas da sala, divi­didas por partes do corpo que acumulam pon­­tos e somam no resultado. Jordana percorre os itens, numa busca desesperada por seu nome em alguma categoria.

Nossa, já havia me esquecido disso


Margarida ainda disse que tocar o co­ração de todos não é possível, nunca será o mundo quem sentirá a nossa falta. tocar duas ou três pessoas — isso é a vida dos que têm sorte.


no entanto, que saída tem um rosto a não ser sustentar em silêncio escolhas que nunca foram suas?


— não sei. conta! — fu… — (Laura pensa. desiste) conta! — gir. mas só quando eu for mais velha. — igual minha vó? — igual tua mãe, Laura. eu quero sumir.

Kkk


fecha a porta, vai até a janela. observa, por entre as lâminas da persiana, os alunos mais soltos naquela vida que se desenrola apenas quando estão no pátio. talvez, ele pensa, seja bom escrever uma carta para a avó de Laura e contar da habilidade que a menina demostra para o desenho. no entanto, se dissesse qualquer coisa, se veria obrigado a dedicar mais tem­po à menina. talvez deva, na carta, ofe­re­cer algumas aulas particulares. mas de repente isso lhe parece perigoso. não, ele prefere não ter aqueles peitinhos se formando dian­te de seus olhos, não mesmo, é melhor não arriscar

Acho que esse foi o trecho mais interessante de todo o livro, até agora


Camilo percebe que ela está maquiada, desde garoto sente uma pena terrível das mulheres que ainda se pintam naquela idade. é como pendurar um violão no peito de quem não toca.

Vai tomar no seu cu, Camilo


Laura olha para ele. responde que is­­so era mais no começo, agora até gosta de dormir com ela, mas às vezes esquece que ela está ali. — e como você dorme? — como eu durmo? — com que roupa. — de pijama, ué. — curtinho igual aquele da mureta? (mo­ve a mão por dentro da calça)

Pqp igual no outro momento que achei interessante, essa história de repente deixa mais claro o fim que está tomando.

Desde o início, penso se Glória não tiver sido morta. Começo a pensar que pode ser sim que algo ruim feito por homem aconteceu a ela.


de jeito, porque de corpo eles te acham gos­tosa. na verdade eles estão querendo te incentivar, entendeu? ver se você dá uma melhorada, porque daí tem muita chance de você estar comigo e com a Lívia na lista verdadeira. juro, foi o Nicolas que me disse, ele acredita MUITO no seu potencial. apostaria até dinheiro, se pre­cisasse. eu também apostaria. acho você linda linda linda quando se arruma, né, porque quando fica com essa cara, puta merda. não tô dizendo isso para te magoar, viu? Jordana coloca os braços em volta do pescoço da amiga. eu te amo, vai ficar tudo bem. como você foi na prova?

Vaca


estranha o cheiro abafado, abre a janela. ao tirar a casca, se assusta e solta correndo aquela gema verde no fundo da pia

O sinal de que a merda vai acontecer


não sei, ele parece ter algo até de Camilo, Filipa repara, mas se dizem que bastou conviver para ficar parecido!, que até os cães tem traços dos donos. e Camilo, bem, há quanto tempo ele frequenta a casa? desde que Glória era menina.


a chave, quando se volta Filipa está no corredor. se encaram por um tempo que parece congelar o mundo. mas algo nos olhos da bisa são os olhos de Laura e eles dizem Sim.

Pedrada


Ficha técnica:

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Título: Uma delicada coleção de ausências Autor: Aline Bei Editora: Companhia das Letras Páginas: 288 Data da Publicação: 10 de junho de 2025 ISBN 10: 8535942440 ISBN 13: 9788535942446

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