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Entrevista: 'A Embrapa é modelo para o mundo'

Globo Rural | O agro de ponta a ponta [Unofficial] June 20, 2026
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Jacob Moscona, doutor em economia e professor assistente do Departamento de Economia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), dos Estados Unidos, ainda não tinha nascido em 1973, ano de fundação da Embrapa, sobre a qual escreveu um artigo, em 2025, que teve ampla repercussão no meio acadêmico. O pesquisador esteve no Brasil no início de junho para participar da 1ª Conferência Internacional da Rede de Pesquisa em Produtividade & Sustentabilidade (Rede PP&S), em São Paulo, e falar sobre o trabalho, que escreveu com três outros pesquisadores: Ariel Akerman, do Banco Interamericano de Desenvolvimento, Heitor S. Pellegrina, da Universidade de Notre Dame, e Karthik Sastry, da Universidade de Princeton. Para produzir o artigo, os autores mergulharam nas cinco décadas de pesquisa da empresa – e, para surpresa de muita gente da comunidade científica, em particular no exterior, identificaram que o investimento público na instituição rendeu frutos expressivos e duradouros: a produtividade agrícola do Brasil cresceu 110%, e cada US$ 1 que o Estado brasileiro investiu na empresa gerou um retorno de pelo menos US$ 17, um resultado superior ao que os americanos obtiveram com investimentos similares. Moscona falou à Globo Rural sobre semelhanças e diferenças entre as pesquisas agrícolas de Brasil e EUA, sobre o papel do setor privado na pesquisa agropecuária e sobre caminhos para a Embrapa se manter relevante no futuro. Globo Rural: No ano passado, você e outros autores publicaram um artigo sobre a Embrapa no qual mostram, entre outras coisas, que cada dólar investido na empresa gerou um retorno de US$ 17. Em que se traduziu esse retorno? Jacob Moscona: De muitas maneiras. Com base em dados do censo agrícola, estimamos o impacto do desenvolvimento e da expansão dos laboratórios da Embrapa sobre a produtividade agrícola em diferentes partes do país. O benefício é o valor dos produtos agrícolas produzidos no Brasil. É possível que os US$ 17 sejam um piso, já que não entraram (na conta) benefícios potenciais como a possibilidade de a Embrapa ter gerado benefícios fora do Brasil, em países da América do Sul e da África. GR: Vocês mencionam que o retorno do investimento na Embrapa foi maior do que o que obtiveram economias avançadas, como os Estados Unidos, que concentram a maior parte do aporte global em pesquisa e desenvolvimento. Por que o retorno com a Embrapa foi mais alto? Moscona: Antes do nosso trabalho, não havia muitas estimativas sobre o impacto do investimento público em pesquisa nos países em desenvolvimento. Creio que muitos economistas, aliás, teriam imaginado um retorno baixo, supondo que essas nações não são tão boas em pesquisa e desenvolvimento, não têm o mesmo tipo de investimento e de tecnologia de ponta dos países ricos. O que descobrimos é que os retornos são, na verdade, muito altos. Uma razão é que, nesses países, há muitas áreas que o ecossistema de inovação global ignorou. Os pesquisadores da Embrapa entraram em novos domínios, estudaram ecossistemas, técnicas e tecnologias completamente novas. Os retornos foram tão altos porque eles trabalharam em frentes que não tinham sido estudadas nos EUA e na Europa. GR: O modelo de pesquisa agrícola dos Estados Unidos tem algo similar ao que faz a Embrapa? Moscona: Muitas semelhanças. Por exemplo, a ideia de buscar o desenvolvimento de novas tecnologias, e não apenas aplicar (tecnologias) de outras nações. Entre os países que estavam em estágio de desenvolvimento similar ao do Brasil em 1973, foram poucos os que decidiram inovar, construir laboratórios em diferentes regiões, formar doutores e colocá-los lá para gerar inovação. O USDA (Departamento de Agricultura dos EUA) fez isso, criou estações experimentais, faculdades em concessões de terras em diferentes partes do país. Quase nenhum outro lugar fora do Brasil adotou modelo semelhante. O USDA emprega cerca de 2.000 cientistas com doutorado, e a Embrapa também, em torno de 2.000. EUA e Brasil estão praticamente com a mesma capacidade de pesquisa e desenvolvimento, o que acho incrível. GR: No artigo, vocês também destacaram a descentralização das unidades da Embrapa, que teria gerado mais resultado do que se a empresa tivesse só um grande centro de pesquisa. Há distribuição semelhante nos EUA? Algo da Embrapa poderia se replicar no país? Moscona: É semelhante, mas foi estruturado de forma diferente. Nos EUA, uma das formas de descentralização foi por meio do sistema universitário. A Embrapa foi estruturada como empresa pública, o que implicou diferenças, como ter flexibilidade para trabalhar com o setor privado quando é útil. Além disso, a Embrapa manteve um apoio público extraordinário no Brasil: a empresa foi fundada durante a ditadura, mas (o apoio) continuou mesmo com as mudanças nos ventos políticos, o que eu acho surpreendente e único. É algo realmente importante, porque os investimentos levam tempo para se concretizar. Se você investir US$ 1 em pesquisa e desenvolvimento hoje, não recebe US$ 17 no ano que vem, mas ao longo das próximas décadas. Jacob Moscona, professor assistente do MIT Gabriel Reis/Valor GR: A China vem tentando reduzir sua dependência de importações, e a África busca, há anos, desenvolver sua agricultura. O modelo descentralizado e de investimento público da Embrapa poderia se aplicar nesses países? Moscona: Vejo claramente a Embrapa como um modelo mais global do que local. Na China, o governo passou a investir muito mais em inovação agrícola nos últimos anos, em um programa que em muitos aspectos se parece com o da Embrapa. Eles estão enviando pesquisadores a diferentes partes do país para trabalhar em colaboração com os agricultores, levando em conta costumes e condições locais. A China, assim como o Brasil, é grande, ecologicamente diversa e com potencial agrícola inexplorado, em virtude da falta de tecnologia e inovação. Em vários países da África Subsaariana, também está claro que falta tecnologia. Alguns são ecologicamente parecidos com partes do Brasil e poderiam buscar transferência de tecnologia. Diferentes partes do mundo terão diferentes desafios e arranjos institucionais, mas há potencial enorme em aprender com o Brasil. Provavelmente não há grande benefício em criar outra Embrapa em um país ecologicamente semelhante a Brasil, Estados Unidos ou partes da Europa, mas pode haver retornos enormes em um lugar diferente. GR: Em 2025, a Embrapa utilizou o equivalente a US$ 55 milhões de seu orçamento.Esse montante deveria ser maior? Moscona: Há uma suposição de que, depois de investir certa quantia para desenvolver uma tecnologia, pode-se parar de investir. Em muitas áreas, especialmente na agricultura, não funciona assim. Assim como é preciso seguir investindo na atualização de uma variedade de semente à medida que as pragas às quais ela era resistente evoluem, é necessário investir em novas formas de lidar com os problemas, que se modificam, como as mudanças climáticas. Há riscos reais em cortar investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Em muitos casos, isso significa que as coisas podem piorar muito. Para manter os benefícios atuais, a Embrapa precisa manter os investimentos atuais. GR: Quais são os aspectos positivos e negativos de uma estatal como a Embrapa fazer parcerias com empresas privadas? Moscona: Uma das coisas importantes sobre o investimento público é poder financiar projetos que beneficiem a população em regiões que têm capacidade limitada de se autofinanciar, com retornos em prazo mais longo do que empresas privadas podem querer esperar.Uma instituição pública pode investir em projetos de risco, com potencial de retornos enormes em 20 anos. Mas há muito capital privado no mundo, e, idealmente, deveria ser possível tirar o máximo partido de ambos. Na década de 1970, era evidente o enorme potencial de inovação agrícola que não seria financiada por capital privado porque não estava claro quanto tempo levaria (para o investimento dar retorno). Não sei se alguma empresa que hoje investe no Brasil teria entrado no país sem ter sido precedida por décadas de investimento público. “Não sei se alguma empresa que hoje investe no Brasil teria entrado no país sem ter sido precedida por décadas de investimento público” GR: Qual sua percepção sobre a relevância da conservação ambiental nos trabalhos da Embrapa? Moscona: Quando regiões agrícolas se tornam menos produtivas por causa das mudanças climáticas, isso gera custos ambientais adicionais, já que os agricultores acabam abrindo áreas em locais onde antes havia floresta. Com a Embrapa, temos o outro lado da moeda. Com seu trabalho, a empresa ajuda a reduzir as perdas de produtividade decorrentes das mudanças climáticas, o que pode, no fim das contas, ter um efeito positivo para o meio ambiente. E não só no Brasil: como o país exporta para todo o mundo, talvez ele esteja ajudando a reduzir o desmatamento na Ásia Oriental, na Ásia Meridional ou em partes da África. GR: O Brasil é hoje uma potência agrícola, que vê a ascensão de uma nova geração de produtores e novas tecnologias. Com esse quadro, a Embrapa pode manter a abordagem que adotou nas últimas décadas ou precisa de mudanças? Moscona: Eu diria que é importante aprender com os sucessos do passado e se adaptar às mudanças do mundo. Fazer tudo exatamente da mesma forma que nas últimas décadas seria a receita para se tornar cada vez menos relevante. Coisas como edição genética vão se tornar muito mais comuns, e a inteligência artificial vai fazer enorme diferença. Também há mudanças na estrutura de inovação, antes financiada por um número pequeno de empresas de biotecnologia, e agora com uma proliferação de startups. Isso pressupõe ser flexível na colaboração com o setor privado. A Embrapa deveria concentrar investimentos nas áreas em que tem vantagem comparativa, de longo prazo, talvez mais arriscados, aquelas que o setor privado ignora ou deixa de lado.

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