{
  "$type": "site.standard.document",
  "bskyPostRef": {
    "cid": "bafyreig7eebzh6gjk25y5d6mjy4i2explp62cl25krk5we2gbldreqfosa",
    "uri": "at://did:plc:fi6ft2rjjxnr5a5bbljvn7of/app.bsky.feed.post/3mmsl6b7emyt2"
  },
  "coverImage": {
    "$type": "blob",
    "ref": {
      "$link": "bafkreihgajso5pyup6g4yla4qihphx3y4ftrigvcyl5rrzpzjkqec7tvzy"
    },
    "mimeType": "image/jpeg",
    "size": 352579
  },
  "path": "/agricultura/noticia/2026/05/nao-queria-meus-netos-comendo-veneno-como-nasceu-azeite-organico-premiado-exterior.ghtml",
  "publishedAt": "2026-05-27T03:07:27.000Z",
  "site": "https://globorural.globo.com",
  "tags": [
    "globorural"
  ],
  "textContent": "\nEm Bom Sucesso de Itararé, no interior paulista, a Fazenda São Benedito tem se destacado pela produção do azeite orgânico Bene, livre de pesticidas. Na última semana, o produto recebeu o prêmio “Blend Gold Award”, concedido pela Anatolian International Olive Oil Competition de 2026. Além do azeite, a propriedade investe em técnicas de cultivo e manejo orgânico que transformaram o espaço em uma referência em sustentabilidade. Por trás do projeto está Nelson Jorge, 75 anos, que há duas décadas se dedica ao cultivo orgânico e ao plantio de oliveiras. A decisão de abandonar o modelo tradicional, baseado no uso de pesticidas, surgiu depois que ele passou a refletir sobre os impactos desses produtos dentro da própria fazenda. “Ser orgânico é uma aventura. Já foi mais difícil manter essa proposta. Quando começamos, não tínhamos muito apoio e dependíamos daquela segurança que o adubo químico, os inseticidas e os pesticidas proporcionavam”, relata. Apesar das dificuldades iniciais, Nelson conta que a vontade de produzir de forma mais natural falou mais alto, muito influenciada pelas lembranças da infância. “Meu pai gostava muito de produtos orgânicos. Então, quando compramos a fazenda, resolvi tirar os venenos, os adubos químicos e começar a pesquisar alternativas”. Leia mais Sem pesticidas: azeite orgânico brasileiro conquista o ouro em premiação na Turquia Azeite brasileiro fica entre os três melhores do mundo Azeite mineiro é eleito o melhor do mundo por guia da Espanha A partir disso, o empresário passou a se aproximar de produtores ligados à agricultura sustentável e começou a participar de grupos voltados ao tema. “Isso me ajudou bastante”, afirma. Além da preocupação ambiental, Nelson diz que os netos também influenciaram diretamente sua escolha pelo cultivo orgânico. “Eu queria entrar na estufa, pegar um tomate no pé e comer ali mesmo com eles. Mas comecei a perceber a quantidade de veneno que utilizávamos. E pensei: ‘Não quero meus netos comendo isso’”. A fazenda também abriga uma das nascentes do Rio Itararé, fator que aumentou ainda mais a preocupação do produtor com o uso de defensivos químicos. “Todo herbicida e pesticida aplicado inevitavelmente vai parar ali com a chuva. Isso começou a me incomodar muito. Não queria contribuir para contaminar uma nascente”, explica. Segundo Nelson, a relação com o solo também mudou ao longo do processo. “O solo orgânico é diferente. Tem cheiro, tem vida, e é gostoso de ver. Isso acabou virando paixão. É algo que eu queria proporcionar para os meus netos”. As pesquisas como ponto de apoio Nelson conta que, até chegar ao modelo atual de cultivo, buscou apoio em estudos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), aplicando na propriedade tecnologias ligadas aos microrganismos e à agricultura regenerativa. Um dos exemplos é o uso da bactéria Azospirillum brasilense, capaz de captar nitrogênio para o solo. “O nitrogênio é justamente a parte mais cara do adubo químico. Então, em vez de comprar esse insumo, você pode utilizar uma bactéria que já existe aqui no Brasil”, afirma. Vista da Fazenda São Benedito Divulgação A fazenda também recebeu apoio do Instituto Agronômico (IAC) a partir de 2008, com orientações sobre manejo e novas tecnologias de cultivo. “Foi um processo de construção”, resume Nelson. Os sistemas de plantio Atualmente, o sistema de cultivo da fazenda se apoia em três pilares: remineralizadores, biológicos, microrganismos que ajudam a solubilizar minerais para as plantas, e plantas de cobertura. “Hoje tratamos o solo como um todo. No cultivo convencional, muitas vezes se calcula a fórmula exata do adubo para determinada planta e se aplica diretamente nela. Aqui, olhamos para a qualidade do solo inteiro”, explica. Oliveira registrada na fazenda Divulgação Segundo Nelson, a proposta representa uma “volta às origens”. Ele afirma que o uso de adubos químicos e pesticidas ganhou força conforme o solo foi perdendo nutrientes ao longo do tempo. Com o esgotamento gradual de minerais importantes para as plantas e também para a saúde humana, a indústria passou a desenvolver fertilizantes químicos de absorção rápida para suprir essa deficiência. “Nosso pensamento é o contrário: queremos voltar ao natural. Os remineralizadores nada mais são do que rochas moídas, preparadas de forma que a planta consiga absorver”. Hoje, a fazenda utiliza remineralizadores, plantas de cobertura e produtos microbiológicos, muitos deles pesquisados e indicados pela Embrapa. “Claro que, para grandes culturas como soja e milho, essa transição não é tão simples. Mas muita gente já está migrando para a agricultura regenerativa. Hoje já existem milhões de hectares usando remineralizadores e microrganismos, reduzindo bastante o custo com adubo químico solúvel. Acho que estamos indo muito bem”, afirma. O solo orgânico Nelson explica que o manejo do solo no cultivo orgânico funciona de maneira diferente do sistema convencional. Segundo ele, em lavouras como soja e milho, os produtores precisam manter a terra “muito limpa” para evitar a competição com ervas daninhas. Leia mais Produtores de azeites pedem maior fiscalização do produto importado Produção de azeite deve alcançar 1 milhão de litros no Brasil em 2026 No pomar de oliveiras da fazenda, porém, essa vegetação passou a ser utilizada a favor da produção. “Quando ela cresce, fazemos uma roçada mecânica. Todo aquele material volta para o solo e forma uma camada de proteção, uma palhada”, explica. Segundo Nelson, essa cobertura natural protege o solo do sol e da chuva fortes, conserva a umidade e favorece a ação dos microrganismos utilizados no cultivo orgânico. Um custo elevado, mas compensado No início da transição para o cultivo orgânico, os custos eram altos e o manejo bastante desafiador. Para exemplificar, Nelson relembra uma plantação de cebolas que teve produtividade muito abaixo do esperado devido à dificuldade de controlar ervas daninhas sem herbicidas. “Em vez de colher 30 toneladas, colhi três”, conta. Segundo ele, foi necessário contratar 16 pessoas para retirar manualmente as ervas invasoras, o que aumentou ainda mais os custos da produção. Apesar das dificuldades iniciais, Nelson afirma que o cenário mudou nos últimos anos graças ao avanço das técnicas ligadas à agricultura regenerativa. Entre elas estão os remineralizadores, rochas moídas utilizadas para enriquecer o solo, que custam muito menos do que os fertilizantes químicos tradicionais. “O remineralizador custa entre R$ 100 e R$ 200 a tonelada, enquanto o adubo químico pode passar de R$ 4 mil”, compara. Dia de colheita na fazenda Divulgação A propriedade também passou a adotar alternativas naturais para reduzir ervas daninhas e melhorar a fertilidade do solo. Uma delas é o plantio de amendoim forrageiro junto às mudas de goiaba e acerola. “Ele cobre completamente o solo, impede o avanço das ervas daninhas e ainda fixa nitrogênio na terra”, explica. Segundo Nelson, o ambiente orgânico também favorece o equilíbrio natural entre pragas e predadores. “Quando você cria um ambiente orgânico e sustentável, as próprias pragas começam a enfrentar seus inimigos naturais”. Ele afirma ainda que produtores e agrônomos especializados em agricultura regenerativa já observam resultados semelhantes e, em alguns casos, superiores aos do cultivo convencional. No caso do milho cultivado com remineralizadores, Nelson percebeu aumento no peso dos grãos devido à maior presença de minerais. “Já começamos a ter um pequeno ganho em relação ao convencional, e isso é muito animador”, conclui. O papel das abelhas Nelson afirma que as abelhas têm papel essencial no equilíbrio ambiental e na própria produção agrícola. Na fazenda, cerca de 60% da área é composta por mata preservada, o que favorece a presença dos insetos e até a produção de mel na região. O produtor conta que, durante alguns anos, a área ficou conhecida pela produção de um mel considerado entre os melhores do mundo, feito principalmente a partir da bracatinga, árvore abundante na propriedade. “A abelha utiliza uma resina da bracatinga na produção do mel, e isso dá características muito especiais ao produto”, explica. Por causa do frio intenso da região, porém, manter grandes colônias de abelhas durante o inverno sempre foi um desafio. Para contornar o problema, Nelson passou a utilizar plantas de cobertura entre as oliveiras para fornecer alimento aos insetos ao longo do ano. Leia mais Clima é grande desafio para produção brasileira de azeite Casal transforma olival abandonado em azeite premiado no exterior No verão, a fazenda cultiva trigo-mourisco, que floresce rapidamente, ajuda no manejo do solo e contribui para a fixação de nitrogênio. Já no inverno, utiliza ervilhaca, uma forrageira com flores que serve de alimento para as abelhas. “Chegamos a ver 50 ou 60 abelhas por metro quadrado em dias de sol mais quente”, relata. Segundo Nelson, além da importância ambiental, as abelhas também ajudam na polinização das oliveiras. “Precisamos cuidar bem delas, garantir alimento e criar um ambiente favorável. A ideia é justamente essa: fazer a fazenda florescer”, afirma. Um projeto ainda em andamento Apesar do reconhecimento recente, Nelson afirma que o projeto das oliveiras ainda está em fase de maturação. Como a região não tinha tradição no cultivo da espécie, o plantio aconteceu aos poucos, para avaliar a adaptação das árvores ao clima e ao solo local. “Primeiro plantamos cerca de 300 árvores. Depois mais mil, depois mais 1.500, e fomos ampliando aos poucos. Hoje ainda tenho menos da metade do pomar em fase plena de produção, porque a oliveira demora cerca de oito anos para produzir bem”, explica. Nelson Jorge e sua esposa há mais de 50 anos, Lélia Bitencourt Jorge, durante colheita na fazenda Divulgação Por isso, Nelson ainda acredita ser cedo para medir o potencial total do projeto. Mesmo assim, a última safra trouxe resultados animadores. “O clima colaborou bastante, tivemos boas condições para a colheita, e os resultados começaram a mostrar que o projeto pode ser viável economicamente”, conta. “Estamos otimistas. Acho que o caminho é muito promissor”, conclui.",
  "title": "'Não queria meus netos comendo veneno': como surgiu azeite orgânico premiado no exterior"
}