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"textContent": "\nCom apenas três anos de atuação formal, a Destilaria Alto da Cruz já coleciona premiações. Apesar de a cachaça ser seu carro-chefe, foi com os licores que a agroindústria conquistou, em 2025, uma medalha de prata e outra de bronze no Brasil Cup, um dos principais concursos nacionais de avaliação sensorial de bebidas. E, mesmo antes de participar de qualquer premiação, o empreendimento já começou com um recorde: é a cachaçaria mais ao sul do Brasil. Localizada no interior de Canguçu, no Rio Grande do Sul, a agroindústria está a 230 quilômetros da fronteira com o Uruguai – muito distante das áreas das regiões Sudeste e Nordeste do Brasil, tradicionalmente ligadas à cultura da cana. A história da Alto da Cruz é um exemplo do dinamismo e das características locais da cultura da cana-de-açúcar em solo gaúcho. Embora não tenha grandes extensões de canaviais como em áreas mais ao norte, onde vastas lavouras destinam-se, em grande parte, a abastecer usinas de etanol e açúcar, a produção no estado concentra-se em pequenos empreendimentos familiares, que usam a cana como matéria-prima para bebidas, açúcar mascavo e, principalmente, melado, um xarope adocicado e espesso que se pode consumir puro ou, então, como ingrediente para rapaduras e outras guloseimas. A dimensão da importância social da cultura no Rio Grande do Sul fica explícita justamente no enorme contingente de agroindústrias que se dedicam à atividade. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apesar de concentrar apenas 0,11% dos canaviais do país, o estado tem o maior número de fábricas brasileiras de melado. De acordo com o Censo Agropecuário de 2017 (último dado disponível), 14.412 agroindústrias do Rio Grande do Sul dedicam-se à produção desse derivado da cana, um número quase cinco vezes maior do que o de Santa Catarina, que aparece em segundo lugar no ranking, com 3.221 estabelecimentos. Em relação às cachaçarias, o Rio Grande do Sul ocupa o terceiro lugar, com 591 indústrias, atrás de Minas Gerais (5.512) e Bahia (2.890). “A cana-de-açúcar é muito importante para milhares de famílias de produtores do Estado. Embora tenham pequenos cultivos, elas conseguem obter uma renda interessante por meio das agroindústrias de melado, açúcar mascavo, rapadura e cachaça, muitas vezes com ganhos que eles não poderiam obter com a produção de grãos ou pecuária”, afirma Alencar Rugeri, gestor da área de culturas anuais da Emater-RS, a empresa pública de extensão rural do Rio Grande do Sul. “Atualmente, a cultura tem uma importância maior do que feijão, por exemplo”, completa. Uma produção inédita A produção de cana-de-açúcar no Rio Grande do Sul pode ser uma surpresa para muita gente, em parte, por causa do fator climático: afinal, como um lugar onde faz frio intenso no inverno pode abrigar uma cultura tropical? Ocorre que, ainda que de fato o estado registre baixas temperaturas no inverno, algumas regiões, como o litoral, abrigam canaviais desde o início da colonização portuguesa da região, no século XVIII. “Existem diversos microclimas e ambientes no estado que abrigam melhor as plantas do efeito do frio e que tornam o plantio possível. Dá para encontrar pequenas lavouras em praticamente todo o nosso território”, destaca o gestor da Emater. Participação acanhada na área de cultivo Globo Rural Sérgio Delmar dos Anjos, pesquisador da Embrapa Clima Temperado, confirma que a ocorrência de temperaturas negativas pode gerar perdas nas lavouras. Mesmo assim, o Rio Grande do Sul tem algumas condições que são vantajosas para a cultura. “No verão, temos mais luz solar para o desenvolvimento da planta. E, no inverno, o frio, quando não é muito intenso, ajuda na maturação da cana. Às vezes, a parte aérea (da planta) morre com temperaturas muito baixas, mas a cana consegue rebrotar depois”, afirma. Desde 2006, o pesquisador lidera um projeto de produção de cana-de-açúcar no Rio Grande do Sul, no qual desenvolve e estimula o plantio de variedades mais produtivas e adaptadas às condições de clima e solo do estado. Entre os produtores que receberam mudas está o casal Mateus Ribeiro Camargo e Débora Severo, proprietários da Destilaria Alto da Cruz. Inicialmente, a cana entrou na propriedade para servir de alimentação para o gado leiteiro. “Começamos a plantar cana em uma época em que o preço do milho subiu muito. Mas a nossa região tinha um histórico de mais de 100 anos de produção artesanal de cachaça, e resolvemos apostar na agroindústria”, relata Camargo. O casal mantém um rebanho de 70 vacas, que produzem em torno de 40.000 litros de leite por mês. Hoje, no entanto, a propriedade tem no comércio das bebidas sua principal fonte de renda. Com uma área de apenas 3,5 hectares dedicados à cultura, Mateus e Débora colhem cerca de 400 toneladas de cana e fabricam em torno de 4.000 litros de bebidas por ano. “Estamos em uma área de risco climático para a cana e, mesmo assim, atingimos ótimas produtividades”, comemora o produtor. Mateus Ribeiro Camargo e Débora Severo, proprietários da Destilaria Alto da Cruz Arquivo pessoal Em Restinga Seca, na região central do Rio Grande do Sul, a Agroindústria Puppe foi outro empreendimento que apostou nas cultivares que a Embrapa tem desenvolvido. “A gente usava umas variedades antigas de cana aqui da região, que cresciam bem, mas não faziam um bom melado”, conta a produtora Leci Puppe, que lidera as atividades da fábrica junto com o marido, Vitor Puppe. Foi em 2017 que o casal recebeu da Embrapa uma das primeiras mudas. “Era uma variedade que dava bom resultado e produzia um melado de melhor qualidade, e ainda usamos até hoje”, relata a agricultora. Os Puppe cultivam cana em 3,5 hectares e fabricam cerca de 6.000 quilos de melado e 1.000 quilos de açúcar mascavo por ano. O casal vende toda a produção em apenas uma feira de agricultores do município, uma renda que ajuda a complementar os ganhos da principal atividade da fazenda, que é a plantação de arroz. “Não participamos de grandes eventos e, mesmo assim, temos uma boa clientela. Muita gente vem aqui para comprar nosso produto porque gosta da qualidade”, diz a produtora. Apesar de sua importância para tantas famílias de pequenos produtores, as lavouras de cana vêm perdendo espaço nos campos gaúchos. De acordo com o IBGE, entre 2015 e 2024, a área de plantio da cultura caiu 40,5% no Rio Grande do Sul, passando de 19.508 para 11.605 hectares. Grande parte dessa diminuição é consequência do avanço da soja, observa Sérgio Delmar dos Anjos, da Embrapa Clima Temperado. “Mas muitos produtores esquecem que, apesar de as cotações da soja serem interessantes, o custo de produção também é mais alto do que o da cana. Para quem tem uma agroindústria de melado, por exemplo, apenas um hectare de cana pode gerar uma renda de até R$ 20.000”, detalha. Lavoura experimental da Emater-RS Divulgação Os trabalhos de pesquisa e desenvolvimento de cultivares adaptadas ao estado têm contribuído para que, apesar da redução da área de plantio, o Rio Grande do Sul esteja conseguindo recuperar os níveis de produtividade no campo – que, assim como em outras culturas, diminuíram nos últimos anos, por causa de problemas climáticos, como estiagens e enchentes. As pesquisas para incentivar a produção no estado continuam. Em Machadinho, no norte gaúcho, a Emater montou um campo experimental de cana-de-açúcar, onde técnicos e pesquisadores estudam o comportamento de cultivares em diferentes condições de solo e clima e apresentam os resultados aos produtores rurais da região. A média de produção no município é de 80 a 90 toneladas de cana por hectare. Mas, no experimento, já conseguimos variedades produzindo até 120 toneladas por hectare”, comemora Edgar Copatti, extensionista do escritório municipal da Emater e responsável pelo estudo. “Temos variedades precoces e tardias. Os produtores estão levando mudas e multiplicando em suas propriedades, conforme o tipo de uso, se para açúcar ou para cachaça.” “Retomada” é a palavra de ordem para Givanildo Vidal de Souza e Maria Elisa Hennig, de Candelária (RS), proprietários da agroindústria de melado Rodeio da Figueira. Durante as enchentes de 2024, eles perderam suas moradas e a estrutura do empreendimento. “Houve um deslizamento de terra, uma rachadura de solo, que atingiu a fábrica e as casas da propriedade, nossa e dos meus sogros. Perdemos tudo o que demoramos 20 anos para conquistar”, lembra Givanildo. A força das águas acabou também com toda a matéria-prima, e até o solo onde plantavam se perdeu. “Tínhamos 12 hectares de cana-de-açúcar, e boa parte do terreno virou pedregulho, cascalho, porque a enxurrada levou a terra embora”, conta o produtor. O casal pensou em desistir das atividades e passou a fazer criação de gado de corte para recuperar renda. Mas, com o incentivo da Emater, a família voltou a produzir e a tentar recuperar parte do que foi embora com as águas. O casal montou a agroindústria em um velho galpão e foi morar em uma parte de uma das casas que não foi destruída. Atualmente, eles dedicam apenas quatro hectares ao cultivo de cana, mas planejam aumentar a área no ano que vem. A produção, que passava de 4.000 quilos por mês, hoje oscila entre 2.000 e 3.000 quilos mensais, incluindo melado, açúcar mascavo, rapadura e puxa-puxa. A comercialização dos produtos ocorre principalmente em feiras. “Hoje, criamos um pouco de gado e vamos aos poucos aumentando a produção da agroindústria. Estamos lutando”, frisa o produtor. Givanildo Vidal de Souza e Maria Elisa Hennig, de Candelária (RS): o casal está retomando a produção de melado e açúcar mascavo após perder a agroindústria nas enchentes de 2024 Arquivo pessoal Da tradição a excelência Uma das mais tradicionais empresas de fabricação de derivados da cana-de-açúcar do Rio Grande do Sul é também uma das que mais têm tido sucesso. A Weber Haus, marca reconhecida como fabricante de bebidas premium, tem mais de 150 premiações nacionais e internacionais, além de presença em mais de 30 países, e é responsável pela produção de uma das cachaças mais caras do Brasil, a Weber Haus Diamant 21 Anos – a garrafa de 750 ml custa R$ 15.848. Curtida e envelhecida em barris de carvalho por seis anos e mais 15 anos em barris de bálsamo, a bebida saiu em edição limitada, de apenas 1.000 unidades, e carrega um diamante de 3,65 milímetros incrustado na garrafa. Originária da Alemanha, a família Weber chegou ao Brasil em 1824, ocupando terras na região do Vale do Rio dos Sinos, para onde levou junto a tradição da fabricação do schnapps, bebida feita a partir da destilação da batata. Em 1848, os Weber passaram a usar a cana-de-açúcar na produção artesanal. Um século depois, em 1948, José Weber criou oficialmente a empresa, que recebeu o nome de Cachaça Primavera. Após a morte do fundador, em 1999, seu neto Evandro Weber, atual presidente da Weber Haus, descobriu que já havia outro registro dessa marca. Sob o comando de Evandro Weber, a destilaria Weber Haus já conquistou 150 premiações, mantém presença em 30 países e está investindo R$ 80 milhões em uma nova fábrica Divulgação/Weber Haus “Minha família produzia um pouco de cachaça, que era vendida apenas localmente. Era um complemento para a renda da agricultura, e não tínhamos condições de comprar uma briga judicial”, lembra Evandro, que tinha 19 anos na época e ajudou a escolher a nova marca, que leva o nome da família. Ele comandou o processo de expansão da empresa. Uma das decisões-chave para o sucesso da iniciativa foi a de levar a companhia a ser uma das primeiras cachaçarias do Brasil a fazer a rastreabilidade de todo o processo de fabricação da bebida, desde o preparo do solo até o engarrafamento. A mudança, que ocorreu em 2004, abriu portas em feiras e exposições e aumentou o interesse pelo produto. Com mais de 80 tipos de bebidas para comercialização, a Weber Haus produziu 480.000 litros de destilados em 2025. O mercado externo, com os Estados Unidos como principal destino, respondeu por 28% das vendas. A cana que dá origem à cachaça da Weber Haus sai de duas lavouras: uma de 48 hectares, em Presidente Lucena, e outra de 18 hectares em Ivoti. “A média brasileira de produtividade da cultura é de cerca de 75 toneladas por hectare. Com mais de 80 tipos de bebidas para comercialização, a Weber Haus produziu 480.000 litros de destilados em 2025 Divulgação A nossa fica em 105 toneladas, mas já alcançamos 150 e até 170 toneladas em anos excelentes\", relata Fernando Soares, diretor de Inovação da empresa. O cultivo de toda a cana que abastece a companhia é com sistema orgânico, sem o uso de agrotóxicos ou de fertilizantes sintéticos. Em fase de expansão, a Weber Haus está investindo R$ 80 milhões para erguer em nova fábrica, em Presidente Lucena. Com mais de 7.000 metros quadrados, a planta será até dez vezes maior do que a atual, que fica em Ivoti, e deve aumentar em 15 vezes a capacidade produtiva da indústria. A unidade, que deve começar a produzir no fim de 2027, terá ainda biorrefinaria própria e reaproveitamento integral de resíduos",
"title": "A cana que vem do frio: RS lidera indústria de melaço e ainda se destaca em cachaças"
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