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  "textContent": "\nA geopolítica global está cada vez mais instável, o que tem afetado, direta ou indiretamente, as atividades produtivas em todas as áreas — e isso inclui a cadeia agropecuária. Para Muhammad Ibrahim, diretor-geral do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), esse quadro de incerteza aumenta o peso da cooperação comercial e tecnológica entre os países do continente, que precisam intensificar o trabalho conjunto e, ao mesmo tempo, priorizar seus mercados locais. “A grande questão é como promover o comércio nas Américas e adotar uma abordagem integrada com todos os países-membros do IICA, visto que mais de 52% dos alimentos que exportamos vão para fora do continente”, afirmou. Nascido na Guiana e engenheiro agrônomo de formação, Ibrahim recebeu a Globo Rural em um hotel em Washington, capital dos EUA, em abril, no intervalo de uma série de reuniões que teve com representantes de diferentes organismos internacionais para tratar de temas como os efeitos da guerra no Oriente Médio sobre o mercado global de fertilizantes. A seguir, os principais trechos da entrevista. Globo Rural — A guerra no Oriente Médio tem afetado países das Américas que têm capacidades de resposta à crise muito diferentes entre si. Qual o impacto desse quadro sobre a coordenação regional que o IICA lidera? Muhammad Ibrahim - Nos países menores, como os do Caribe e da América Central, o número de pequenos agricultores é proporcionalmente maior do que em países maiores, como Brasil, Argentina e México. Todo o trabalho de avaliação que fazemos sobre os impactos da guerra tem como ponto de partida o nível de dependência que os países têm da importação de insumos de regiões onde há conflito neste momento, além das implicações do aumento do custo de energia. Com base nessas análises, desenvolvemos políticas que ajudam os países a lidar com situações de estresse e crises, compartilhando informações e inteligência de mercado. Outras ameaças também podem causar rupturas, como foi o caso da pandemia de covid-19. GR — A experiência que o mundo teve na pandemia nos preparou para o cenário atual de alguma forma? Ibrahim — Choques do passado, a exemplo da covid-19 e de outras pandemias, causaram rupturas nos sistemas alimentares. Alguns países começaram a estocar alimentos, como foi o caso da Índia, e isso afetou a distribuição em países pequenos, como os do Caribe. Por outro lado, esse cenário desencadeou, na Comunidade do Caribe (Caricom), que reúne países da região, a elaboração de uma estratégia de longo prazo para a segurança e a soberania alimentar. Hoje, a Caricom trabalha para atingir a meta de reduzir em 25% a dependência da importação de alimentos e aumentar a produção local, um esforço que inclui a adoção de políticas de incentivo à produção de alimentos nesses países. GR - No caso do Brasil, um exportador de alimentos, as crises globais também afetam cadeias importantes da agropecuária. Recentemente, o país passou a enfrentar restrições para vender carne bovina para seu maior cliente, a China. O senhor acredita que seja a hora de o Brasil olhar com mais atenção para os mercados vizinhos? Ibrahim - O Brasil já está em diálogo com a Caricom para criar novas rotas comerciais. No momento, uma das discussões trata do transporte de alimentos em direção ao Panamá via Georgetown, na Guiana, ou até mesmo à Europa, com conexões no Caribe. A questão é como promover o comércio nas Américas e adotar uma abordagem integrada com todos os países-membros do IICA, incluindo Estados Unidos, México, Brasil e outros, para aumentar o comércio de alimentos, já que mais de 52% dos alimentos que exportamos vão para fora do continente. Acredito que há muito espaço para a integração regional. GR - Quais oportunidades se abrem para a América, e em especial para o Brasil, neste momento? Ibrahim - A grande oportunidade é a de se fazer uma análise criteriosa sobre como essas disrupções estão afetando todas as cadeias de produção e abastecimento, para, com isso, termos uma compreensão mais profunda sobre a situação. No momento, é fundamental analisar o contexto regional e onde estão as oportunidades para a produção de fertilizantes. Temos exemplos em Trinidad e Tobago, Guiana, Canadá e Estados Unidos. Além disso, países como o Brasil têm avançado no desenvolvimento de tecnologias que tornam a produção menos dependente do uso de fertilizantes. É o caso, por exemplo, dos sistemas que consorciam culturas. Eles têm se mostrado altamente produtivos e, de fato, exigem um volume de fertilizantes menor, já que reforçam a fixação de nitrogênio, o que melhora a qualidade e a fertilidade do solo. GR - Essas tecnologias que o senhor menciona incluem os insumos biológicos, como os biofertilizantes? Ibrahim - Os biofertilizantes são outra vertente na qual temos trabalhado e que devemos utilizar como alternativa. A questão é: o que podemos utilizar como biofertilizantes? Precisamos que os países estabeleçam marcos regulatórios, garantindo que o produto tenha boa padronização e qualidade. Com a produção local, é possível reduzir o impacto dos resíduos sobre o meio ambiente e, ao mesmo tempo, transformar esses resíduos em valor econômico. GR - Na reunião mais recente do IICA em Washington, muitos países destacaram a necessidade de se ter uma legislação comum para biofertilizantes na região. O que essa norma regional precisa conter para dar impulso ao mercado e ao uso de biofertilizantes nas Américas? Ibrahim - Ela deve estabelecer, fundamentalmente, a padronização do produto e de sua inserção no processo comercial, o que começa já na rotulagem, na forma como os produtos devem ser etiquetados. Os países que importam fertilizantes já têm interesse estabelecido (pelos biofertilizantes). É preciso atuar para que o biofertilizante seja reconhecido como uma commodity disponível, passível de comercialização e de distribuição nos pontos de venda. GR - Momentos de crise e guerra, como o atual, costumam desencadear discursos protecionistas, em que líderes defendem priorizar o mercado interno em detrimento das exportações. Muitos países estão com essa postura no momento. As condições atuais colocam a globalização em xeque? Ibrahim - Sim, é possível centrar o foco nos mercados locais, mas a questão central é outra: você tem capacidade para consumir todos os alimentos que produz? Quando se produz mais alimentos do que o mercado interno exige, o que fazer com o excedente? É exatamente por isso que existe o mercado de exportação. No entanto, é preciso entender que priorizar sua própria região também pode ser visto como um movimento semelhante ao que outros países estão adotando, de se voltarem para dentro. E, sim, acredito que essa é a direção para a qual estamos caminhando agora. Muhammad Ibrahim: \"países como o Brasil têm avançado no desenvolvimento de tecnologias que tornam a produção menos dependente do uso de fertilizantes\" Wenderson Araujo/Trilux/Divulgação GR - O IICA e o Banco Mundial têm trabalhado em um programa que pretende ampliar a conectividade rural e a inclusão digital de produtores da agricultura familiar, o AgriConnect. Como isso pode ajudar a solucionar dificuldades na importação de fertilizantes, transporte e exportação de alimentos? Ibrahim - A conectividade é fundamental por diversas razões. Em primeiro lugar, porque torna viável muitos serviços de extensão rural. Com tecnologias digitais, é possível disseminar informações, gerenciar conhecimentos e prestar assistência técnica aos agricultores de maneira extremamente ágil. A conectividade também permite ao agricultor atuar em cooperativas ou grupos associativos, em vez de cada um agir isoladamente. Ao trabalharem em conjunto, os agricultores podem fazer compras em grande volume de insumos como fertilizantes e rações. Isso reduz custos na aquisição e também no transporte. Além disso, o trabalho em conjunto pode auxiliar os agricultores no compartilhamento de recursos. Se, por exemplo, um agricultor estiver sem fertilizantes e outro tiver um excedente, ele pode compartilhar algo. A ideia é buscar essa conexão. GR - O AgriConnect prevê apoiar até 300 milhões de pequenos agricultores em todo o mundo até 2030. Qual o principal desafio para levar conectividade a essas pessoas? Ibrahim - O desafio é a organização. O Brasil tem boas cooperativas, e (o ex-ministro da Agricultura) Roberto Rodrigues foi um expoente nesse sentido. Ele é muito competente. A organização dos agricultores é fundamental para que eles possam obter esses serviços, para que recebam capacitação e para viabilizar a comunicação. \"O Brasil tem boas cooperativas. A organização dos agricultores é essencial para terem acesso a serviços no campo\" Além disso, o governo desempenha um papel crucial, por meio de políticas de auxílio aos agricultores, de incentivo, facilitando o acesso a financiamentos de baixo custo, abrindo caminhos para acesso a mercados e garantindo a infraestrutura necessária. Todos esses são fatores indispensáveis para que os produtores consigam trabalhar. GR -A agricultura brasileira tornou-se referência internacional graças a alguns feitos, como o fato de, no intervalo e alguns anos, o país ter deixado a condição de importador de alimentos para se tornar um exportador. Quais as deficiências do Brasil e o que ele poderia aprender com os países do Caribe? Ibrahim - Há sempre um aprendizado que se pode extrair da forma como os países gerenciam os seus recursos naturais. A Costa Rica, por exemplo, um país de pequeno porte, tem ampliado seus esforços para adotar uma gestão agrícola mais sustentável. Esse tipo de aprendizado é valioso. O Brasil pode avaliar como adaptar essas experiências à sua própria realidade para estimular práticas sustentáveis que visem à redução do desmatamento, uma questão de grande relevância para o país.",
  "title": "Países das Américas são escudos para a segurança alimentar, diz diretor-geral do IICA"
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