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  "textContent": "\nDurante muito tempo, a lógica da agricultura parecia simples. Quem produzia mais ganhava mais. E o produtor brasileiro fez isso como poucos. Nas últimas décadas, a produtividade de grãos mais do que dobrou, impulsionada por tecnologia e manejo eficiente. O Brasil saiu da condição de importador para um dos maiores exportadores de alimentos do mundo. Mas, no dia a dia da fazenda, essa realidade está mudando, e produzir mais já não significa, automaticamente, ganhar mais. Mesmo colhendo mais por hectare, muitos produtores percebem que o lucro não acompanha esse avanço. O preço da soja, do milho ou do trigo é definido em mercados internacionais, enquanto custos de insumos, máquinas e crédito seguem outra dinâmica. Em safras recentes, não foi incomum ver custos de produção subirem mais de 30% enquanto os preços recuavam. O resultado é a sensação de que se trabalha mais, se produz mais, mas se ganha relativamente menos. Esse descompasso não ocorre por acaso. Parte importante do valor gerado no campo fica com a indústria de insumos, logística e comercialização. Globo Rural O produtor assume o risco e conduz a produção, mas captura uma parcela cada vez menor do valor final. Além disso, o aumento da produtividade tende a pressionar preços, fazendo com que colheitas recordes nem sempre tragam margens melhores. O fato é que esse modelo de produzir cada vez mais para compensar margens menores está chegando ao limite. Em muitas situações, ampliar a área ou a escala sem melhorar a forma de comercializar ou de se posicionar no mercado acaba apenas aumentando o risco. O desafio hoje é mais complexo: continuar produzindo, bem, mas também buscar remuneração melhor, com menos exposição às oscilações do mercado. Nesse cenário, o lucro depende cada vez mais de estratégia. Cooperativas e associações fortalecem a negociação e abrem mercados. Também ganha espaço a diversificação, com bioenergia, bioinsumos e outras atividades ligadas à bioeconomia. Ao mesmo tempo, é fundamental que o produtor se proteja das incertezas, buscando fechar preços antecipadamente quando surgem boas oportunidades, usando seguro rural e organizando melhor as contas da fazenda. Leia mais opiniões de especialistas e lideranças do agro Há também cada vez mais oportunidades ligadas à sustentabilidade. A demanda por produtos com impacto ambiental menor e mais rastreabilidade tem crescido. O Brasil tem vantagens, mas transformá-las em renda exige escala, organização e acesso a mercados que valorizem essas qualidades. Não basta produzir bem. É preciso ser bem remunerado por isso. O ponto central é que o lucro do futuro não virá apenas do aumento da produção, mas da capacidade de produzir mais bem posicionado. A agricultura brasileira precisará combinar eficiência produtiva com leitura de mercado, diversificação e mais capacidade de capturar valor. Em um cenário de tensões geopolíticas e mudanças frequentes das regras do comércio, depender de poucos compradores aumenta o risco e reduz o poder de negociação. Por isso, ampliar mercados, reduzir dependências e proteger melhor a renda do produtor passa a ser decisivo. Produzir mais continua sendo necessário, mas já não garante, por si só, o lucro. *Maurício Antônio Lopes é engenheiro agrônomo e pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) As ideias e opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seu autor e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial da Globo Rural",
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