Dentista transforma pasto no Pará em plantação sustentável de cacau e açaí
Globo Rural | O agro de ponta a ponta [Unofficial]
May 10, 2026
Em transição de carreira por doença ocupacional, o dentista Osni de Azevedo Ramos converteu em 2019 pastos de uma fazenda de 60 anos do sogro dedicada à pecuária em um plantio de cacau com açaí no sistema agroflorestal no município de Castanhal, no nordeste do Pará. A sugestão do cacau veio de um técnico da Ceplac (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira), órgão do Ministério da Agricultura focado no desenvolvimento sustentável da cacaicultura. Ramos decidiu acrescentar o açaí por observar que as duas plantas crescem juntas na floresta, visando ter renda garantida do cacau em um semestre e do açaí no outro. A produção é 100% irrigada com mangueiras suspensas. O cacau rende 1,7 quilo por pé, ou 1.700 quilos por hectare. Já o açaí produz 14 toneladas por hectare. “Nosso projeto sempre foi focado no cacau fermentado. Passei seis anos sem saber que outros produtores vendiam o cacau sem fermentar. No meu terceiro ano de plantio, mandei uma amostra para um festival estadual de qualidade de amêndoas e ganhei o ouro. Quase caí pra trás. Isso catapultou nossa produção e criou a vitrine do nosso cacau.” O impulso levou Ramos a investir em uma pequena agroindústria fora da fazenda, devido a limitações de fornecimento de energia, para processar 30% do seu cacau fino e produzir o chocolate tree-to-bar amazônico que leva a marca Caupé. Neste ano, Ramos se aliou a uma comunidade quilombola vizinha da Fazenda Monte Castelo para fazer um teste de plantio adensado de cacau a pleno sol, em busca de maior produtividade por hectare. Ele cedeu 5.000 mudas para o plantio tutorado (em estacas) em 1 hectare do quilombo e deu treinamento para os integrantes da comunidade, cujo presidente é o funcionário mais antigo da fazenda. Aliás, mais da metade dos 28 empregados vem do quilombo. Hoje, a área de cacau e açaí ocupa 22 hectares e a cada ano são plantados mais 10 hectares. Cada hectare que recebeu os híbridos de cacau da Ceplac demandou investimento de R$ 80 mil a R$ 90 mil. A meta é ocupar 100 dos 400 hectares da fazenda e incluir no consórcio árvores de grande porte como andiroba e castanha-do-Pará. Neste ano, Ramos espera aumentar de 32 para 35 toneladas a produção total de amêndoas na fazenda. A pecuária, tradição da região, foi mantida em uma parte com cria, recria e engorda administradas pelo sogro, o pesquisador aposentado da Embrapa Norton da Costa, que chegou a plantar pimenta-do-reino nos pastos antes do cacau, mas o solo degradado não produziu nada. Todos os dejetos da pecuária são aproveitados e representam 70% da adubação do cacau e açaí. Cada pé de cacau recebe cerca de 60 kg de adubo orgânico por ano e Ramos quer começar a migrar para a produção 100% orgânica no final deste ano. A quebra do cacau é feita por máquina. Segundo o produtor, a qualidade das amêndoas é garantida pela fermentação dos frutos selecionados como 100% sadios em cochos de madeira (e também em tonéis plásticos), seguida pela secagem em galpão fechado com temperatura controlada. O ex-dentista também iniciou testes de plantio de baunilha de Madagascar na sombra do cacau, na esperança de turbinar a renda da propriedade. “Estamos aproveitando as estacas da pimenta que não deu certo para plantar a baunilha. É um teste ainda, as mudas são bem caras, mas nenhuma cultura renderia tanto quanto esse trio junto. Estimo uns R$ 200 mil por hectare.” *A jornalista viajou a convite do festival Chocolat Amazônia
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