Como o acordo Mercosul-UE impacta diferentes segmentos do agronegócio
Globo Rural | O agro de ponta a ponta [Unofficial]
May 1, 2026
O acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, que entra em vigor de forma provisória nesta sexta-feira (1º/5), irá criar um mercado estimado em cerca de 700 milhões de consumidores. Os PIBs de todos os países envolvidos no tratado somam US$ 22 trilhões. A expectativa do agronegócio brasileiro é positiva, diante da redução gradual de tarifas para a maior parte dos produtos comercializados entre os dois blocos. Mas também há pontos de atenção, que envolvem cadeias consideradas sensíveis à importação de produtos europeus, que agora passam a chegar ao Brasil com preços mais baixos. "Os impactos para o agro brasileiro são enormes. De um lado, um leque de oportunidades para o aumento das exportações e, de outro, desafios decorrentes da maior exposição aos produtos europeus”, resume Sueme Mori, diretora de Relações Internacionais da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Leia também: Por que o acordo entre Mercosul e União Europeia irá entrar em vigor de forma provisória Entenda o que são salvaguardas e como elas impactam as exportações agropecuárias Detalhes do acordo A União Europeia deverá eliminar tarifas para cerca de 93% dos produtos do Mercosul em até dez anos, enquanto o Mercosul fará o mesmo para aproximadamente 91% dos produtos europeus em um prazo que pode chegar a 15 anos. Cerca de 54% das exportações do bloco sul-americano passam a ter tarifa zero imediatamente. Entre os segmentos com maior potencial de crescimento, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) aponta couro, uvas e mel. “Uma tarifa de 3% ou 7% pode definir se o negócio acontece ou não. A eliminação desses custos abre espaço imediato para o produto brasileiro ganhar participação”, ressalta o presidente da agência, Laudemir Muller. Em março, o governo federal publicou decreto que regulamenta a aplicação de medidas de salvaguardas bilaterais previstas em acordos comerciais firmados pelo Brasil. A norma estabelece como o governo poderá investigar e, se necessário, aplicar restrições a importações de produtos que entram no país com tarifas reduzidas quando houver risco de prejuízo à indústria nacional. Veja qual a expectativa dos principais segmentos do agronegócio brasileiro: Açúcar O acordo mantém a cota de 180 mil toneladas de açúcar e elimina as tarifas de importação nesse volume. Os embarques brasileiros de açúcar para a União Europeia superaram esse limite em 670 mil toneladas em 2025, o que indica um impacto limitado para o setor, segundo o BTG Pactual. Algodão O algodão brasileiro ainda tem um fluxo comercial limitado com a União Europeia. A expectativa do setor é de que isso mude com a entrada em vigor do acordo. "Já estamos trabalhando, em conjunto com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), no desenho de um plano estratégico para garantir que a indústria nacional se beneficie, permitindo exportar para a Europa peças produzidas com algodão brasileiro, e fabricadas no Brasil, em vez de peças feitas com algodão brasileiro em outros países", afirma Marcelo Duarte, diretor de Relações Internacionais da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa). Arroz O acordo também estabelece uma cota de 60 mil toneladas de arroz livre de tarifa, a ser implantada em seis anos. O volume é quase o dobro do que o Brasil embarcou para o bloco em 2025 e equivale a 7% das exportações totais do país. Os volumes acima da cota pagarão tarifas de 65 euros e 211 euros por tonelada, dependendo do produto. Café O Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) ressalta que o acordo traz a desgravação anual das tarifas sobre os cafés solúveis e torrado e torrado e moído do Brasil para entrar no bloco europeu, até chegar a zero em quatro anos. Isso permitirá ao Brasil ampliar “sua competitividade na União Europeia e, muito provavelmente, ampliar as exportações desses produtos para lá, principalmente do solúvel”, diz a entidade. O acordo, no caso do café solúvel, ganha ainda mais relevância, uma vez que a UE é o segundo maior comprador do produto brasileiro — atrás apenas dos EUA, observa Aguinaldo Lima, diretor de relações institucionais da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics). A tarifa para o embarque do solúvel sairá de 7,20% em 2026 para zero em 2030. Carne bovina A expectativa do segmento é que o acordo leve a um crescimento gradual e moderado, de cerca de 5% ao ano, das vendas brasileiras à Europa, segundo o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa. “O acordo Mercosul-União Europeia é positivo para a carne bovina brasileira, principalmente por melhorar as condições de acesso a um mercado que remunera melhor, com foco em cortes de maior valor agregado, como os do traseiro, já exportados para países como Itália, Espanha, Alemanha e Países Baixos”, diz. Carne de frango Assim que o acordo entrar em vigor, com licenças e certificados de uso da cota estabelecidos, o Mercosul terá uma cota de 15 mil toneladas de carne de frango com osso e 15 mil sem osso isentas de tarifas, de acordo com a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). O presidente da entidade, Ricardo Santin, lembra que o volume da cota com isenção vai aumentar gradativamente por seis anos, até chegar a 90 mil toneladas de frango com osso e 90 mil sem osso. “O quanto o Brasil vai ter da cota, estamos conversando entre os países”, afirma Santin. “(A UE) é um mercado com boa precificação e isso ajuda as margens das empresas. O que não se sabe ainda é o tamanho do benefício”. Carne suína Já para a carne suína, o acordo cria, pela primeira vez, um contingente tarifário preferencial específico para o Mercosul, inexistente até então para o Brasil. A cota final prevista é de 25 mil toneladas anuais, com tarifa intracota de 83 euros por tonelada, "substancialmente inferior à tarifa aplicada fora da cota", destacou a ABPA, sem detalhar os valores de taxas de embarque fora da cota. "A efetiva utilização dessa cota pelo Brasil dependerá da conclusão dos trâmites sanitários junto à União Europeia para a abertura do mercado, incluindo a aprovação do Certificado Sanitário Internacional", pontuou a entidade. Citros O acordo pode ser uma oportunidade de médio prazo para o setor citrícola brasileiro retomar a competitividade e ampliar exportações para o mercado europeu. A avaliação é do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea). O acordo prevê a redução a zero das tarifas para o suco de laranja não concentrado em até quatro anos, e de sete a dez anos para o suco concentrado congelado, com salvaguardas e monitoramento. A CitrusBR estima uma economia acumulada da ordem de US$ 320 milhões nos primeiros cinco anos, podendo, conforme pesquisadores do Cepea, favorecer a retomada dos embarques ao bloco. Etanol O acordo cria cotas de importação de etanol dentro da UE, sendo uma cota isenta de tarifa de até 570,3 milhões de litros para o etanol para uso na indústria química e outra cota com redução tarifária de um terço para até 200 mil toneladas de etanol para outros usos, como combustível. A Europa consome 6 milhões de toneladas de etanol por ano, dos quais 4 milhões de toneladas são para uso como combustível. No início a UE aplicará tarifas maiores, que serão reduzidas com o tempo, e alcançarão a redução total prevista em um prazo de cinco anos. A UE aplica atualmente uma tarifa de US$ 102 o metro cúbico para o etanol com aditivos químicos e de US$ 192 o metro cúbico para etanol sem aditivos, segundo a consultoria Argus. A distribuição das cotas entre os países do Mercosul ainda será definida após a ratificação do acordo. Frutas Até então, a fruta brasileira enfrentava uma média de 10% de imposto para entrar no mercado europeu, percentual que variava conforme o produto — cerca de 8,8% para o melão e até 14% para a uva. A retirada das tarifas tende a baratear os produtos brasileiros, aumentando sua competitividade, observou Luiz Roberto Barcelos, conselheiro da International Fresh Produce Association (IFPA). Outro ponto destacado é que a fruticultura brasileira não concorre diretamente com a produção europeia porque produz frutas tropicais que não são produzidas na Europa e as frutas são exportadas na época de entressafra da produção europeia. Lácteos A indústria brasileira de laticínios não vê grandes impactos no mercado nacional com a entrada em vigor do acordo entre Mercosul e União Europeia. A Viva Lácteos, que representa o setor no país, destaca ainda avanços conquistados na negociação para permitir que diversas empresas mantenham o uso de termos europeus nos rótulos de seus queijos, como gorgonzola e parmesão. No caso das cotas, o volume de leite em pó que poderá ser importado anualmente com isenção total da Europa depois de dez anos da implementação do tratado será de 10 mil toneladas por ano, quantidade equivalente à média de importação mensal do Brasil nos últimos cinco anos. “Vai existir mais um ofertante, mas esse volume é pequeno e a cota não é apenas para o Brasil. Não são pontos capazes de causar grandes impactos na indústria”, disse Gustavo Beduschi, diretor-executivo da entidade. Máquinas agrícolas Numa primeira avaliação, a indústria de máquinas e equipamentos agrícolas antecipa um aumento da concorrência no setor, com mais entrada de importações. Porém, algumas empresas percebem um misto de riscos e oportunidades com o acordo. “Se nós não melhorarmos o custo Brasil, no longo prazo a indústria nacional vai perder mercado”, analisa Pedro Estêvão Bastos, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas (Abimaq). O desembarque de maquinário importado, de toda forma, não será automático. Há “impeditivos”, segundo Bastos, que poderão retardar o aumento da concorrência estrangeira num setor já dominado por multinacionais. Ele cita o Plano Safra, que exige conteúdo local nas máquinas compradas com o crédito rural, e a necessidade de redes de pós-venda com capacidade para atender todo o país. Olivicultura A assinatura do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia não deve reduzir o preço do azeite de oliva importado nem melhorar a qualidade do produto que chega ao consumidor brasileiro, segundo o Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva). Desde março de 2025, os azeites importados da União Europeia já entram no Brasil com alíquota zero, destaca o Ibraoliva. “Dessa forma, não há impacto tributário adicional capaz de resultar em redução de preços nas gôndolas dos supermercados, o que torna incorretas as informações que associam o acordo a uma queda no valor do azeite importado para o consumidor final”, informou o instituto, em nota. Ovos No segmento de ovos, o acordo estabelece contingentes tarifários específicos, também no âmbito do Mercosul, isento de tarifa intra-cota. Estão previstas 3 mil toneladas anuais para ovos processados e 3 mil toneladas anuais para albuminas. Na avaliação da ABPA, cria-se, então, uma oportunidade concreta para a ampliação das exportações brasileiras de produtos com maior valor agregado. Ao mesmo tempo, a entidade ressalta que os contingentes criados pelo acordo são cotas do Mercosul, e não exclusivas do Brasil, o que demandará coordenação intrabloco para definição dos critérios de alocação entre os países membros. Peixes A Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR) acredita que o acordo trará impacto direto e imediato para a competitividade da tilápia brasileira no mercado europeu. Com a inclusão do produto na Categoria “0”, as tarifas de importação — hoje entre 7,5% e 9% — serão eliminadas, sem a imposição de cotas de exportação. Na prática, a medida permite ao exportador brasileiro reduzir o preço final em quase 10% ou ampliar margens, colocando o país em igualdade de condições com fornecedores que já têm acordos com a UE, como Vietnã e países da América Central. “O acordo Mercosul–UE é uma grande janela de oportunidade a médio e longo prazo para a aquicultura nacional, abrindo novos mercados para a tilápia e para nossos peixes nativos", resume o presidente da Peixe BR, Francisco Medeiros. Soja O diretor de economia e assuntos regulatórios da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), Daniel Amaral, afirma que, até então, as alíquotas sobre o óleo de soja ficavam entre 3,2% e 9,6%, a depender da finalidade do produto (uso industrial ou alimentação humana) e de seu grau de processamento (bruto ou refinado). Tanto o grão quanto o farelo já são isentos. “Com a implementação do acordo Mercosul-União Europeia, as tarifas (que incidem sobre) o óleo de soja bruto serão zeradas, enquanto as alíquotas para os demais tipos de óleos serão reduzidas para 4%. Essa desoneração representa um avanço significativo para o acesso do produto brasileiro ao mercado europeu”, avalia. Vinhos A preocupação do setor produtivo brasileiro é com o “potencial impacto concorrencial ao mercado interno e a existência de políticas de subsídios aos produtores europeus”. Os produtores querem instrumentos governamentais que “garantam condições equilibradas de competição e fortalecimento da indústria nacional”. "A desgravação [redução tarifária] no caso do vinho se dará em oito anos e do espumante em 12 anos. E existe a salvaguarda. No próprio acordo, tem um capítulo voltado às salvaguardas", disse o vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmin, em visita à Festa Nacional da Uva deste ano, em Caxias do Sul. Em março, o governo federal publicou decreto para regulamentar a aplicação de salvaguardas bilaterais.
Discussion in the ATmosphere