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Da terra ao tratamento: como é o trabalho na maior fazenda de cannabis medicinal do país

Globo Rural | O agro de ponta a ponta [Unofficial] March 29, 2026
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Cassiano Gomes estava na cozinha de sua casa, em João Pessoa, a capital da Paraíba, num dia qualquer de 2013, mas o que preparava no fogão não era uma refeição qualquer. Ele estava tentando manipular a flor de cannabis para extrair o óleo que pretendia usar para amenizar as dores que afligiam sua mãe, Maria José Gomes. Dona Zezé, como é chamada carinhosamente, sofre de bronquiectasia, doença pulmonar que vez ou outra a faz perder o apetite e sentir muitas dores. Ainda que a contragosto dos irmãos, Gomes medicou Dona Zezé com a solução caseira. A melhora da qualidade de vida de sua mãe foi evidente. Agora, 13 anos depois do experimento que fez na cozinha de casa, no Bairro dos Ipês, Gomes ainda trata a mãe contra as dores usando o óleo da planta. Já o processo de fabricação, antes artesanal, deu lugar a normas e protocolos oficiais, que ele segue à risca. Gomes fundou e dirige a Associação Brasileira de Apoio à Cannabis Esperança (Abrace), a primeira organização desse tipo a obter autorização da Justiça brasileira para o cultivo da planta para fins medicinais. O plantio ocorre no município de Conde, a 21 quilômetros de João Pessoa, em um terreno de 17 hectares que a associação comprou há um ano, o que faz da propriedade a maior do país dedicada ao cultivo de cannabis medicinal. A produção da Abrace atende cerca de 60 mil pessoas, que compram os derivados da planta por preços abaixo dos de mercado, principalmente o óleo de canabidiol, composto natural também chamado de CBD, que é reconhecido por seu potencial terapêutico em tratamentos contra ansiedade, dor crônica, epilepsia, distúrbios do sono e outras condições neurológicas. Em João Pessoa ficam a sede da entidade, o laboratório próprio e ainda um museu que conta um pouco da história da cannabis e da trajetória da Abrace, que hoje tem 100 funcionários. Cassiano Gomes, da Abrace: ele manipulava a cannabis em casa para tratar a mãe; hoje, a associação que fundou atende 60 mil pessoas Alexandre Gondim Sentado à mesa de seu escritório na sede da associação, Gomes conta que o relato do sucesso no tratamento de sua mãe circulou rapidamente entre pessoas próximas, especialmente pais de crianças que tinham receita para usar o produto no tratamento contra males como as crises de epilepsia. Em 2015, ainda sem a infraestrutura que a associação tem hoje, Gomes ajudava 300 pessoas no trabalho de importação do óleo de cannabis. “Naquele ano, o dólar disparou, o que fez com que o preço do produto, que era de R$ 900, passasse para R$ 1.800. Os pais das crianças que faziam tratamento entraram em pânico e perguntavam, ‘Cassiano, o que eu faço? Agora meu filho vai morrer’. Eu disse a eles que não ia deixar isso acontecer.” Relação com os pacientes Ele assumiu o compromisso com os pais de que encontraria uma solução, mas não tinha certeza de como conseguiria produzir o remédio. Com poucas opções à disposição, e com o ditado “doença não espera” martelando na cabeça, Gomes precisou recorrer à ilegalidade para acelerar a produção caseira do óleo de cannabis. A oferta do medicamento ganhou escala rapidamente, e isso deu a ele a certeza de que era necessário mudar a gestão da operação. Gomes sempre teve uma relação muito próxima com os pacientes, o que se percebe pelas dezenas de fotos com os rostos deles distribuídas em vários pontos da sede. Essa proximidade acabou facilitando a criação da Abrace. “À época, eu ainda não tinha CNPJ, e tive receio de ter problemas com a polícia, já que todo o dinheiro que recebia ia para minha conta bancária pessoal.” “Juntei alguns pais que recebiam o óleo já fazia algum tempo, mencionei a proposta da associação, e eles prontamente apoiaram a iniciativa”, afirma. Em 2017, após autorização da Justiça da Paraíba, a Abrace pôde começar a cultivar Cannabis sativa para fornecer óleos e pomadas derivados da planta a pessoas que tinham receita médica para usar os produtos. Gomes havia finalmente superado as barreiras legais para o cultivo de cannabis e a produção de medicamentos. Ele continuou a fazer o plantio no terreno de sua própria casa até 2019, quando transferiu a produção para uma área de quatro hectares em Campina Grande, a 127 quilômetros da capital paraibana. O problema é que, assim como para os pacientes, a matéria-prima dos produtos era valiosa também para os criminosos. Nos seis anos em que manteve sua estrutura em Campina Grande, a entidade sofreu sete assaltos. O penúltimo deles, em maio de 2023, ganhou o noticiário nacional, após 15 homens armados invadirem o local e levarem 75 quilos da planta. “Quando ouço as pessoas criticarem a Anvisa por causa da exigência de alto nível de segurança para o plantio da cannabis medicinal, eu fico sem acreditar. Acham que é só plantar e fica tudo certo, uma coisa bucólica. Mas não é assim. Entramos em estado de guerra quando fomos invadidos por 15 homens com metralhadoras”, relata Gomes. Muda de cannabis na estufa da Associação Brasileira de Apoio à Cannabis Esperança Alexandre Gondim A maconha é a droga que se produz com plantas de cannabis que tenham teor elevado de tetrahidrocanabinol, ou THC, o composto químico responsável pela sensação de euforia em quem consome a substância. Algumas cepas de cannabis usadas para a produção de maconha chegam a ter mais de 30% de THC, enquanto a cannabis medicinal tem, no máximo, 0,3% da substância, além de ser rica em canabidiol, o CBD. Segundo balanço que a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal apresentaram em fevereiro, as apreensões de maconha em operações conjuntas somaram 1.400 toneladas em 2025. Estrutura protegida “QAP, na escuta?”, fala Gomes ao sistema de rádio integrado ao seu telefone celular, enquanto se dirige à estrutura de Conde com a equipe da Globo Rural. “Chegando ao cultivo com mais duas pessoas. Prepara para abrir o portão quando eu chegar.” A resposta é um lacônico “ok”. A voz do outro lado da frequência é a do segurança armado que fica responsável por liberar a entrada e a saída de pessoas no portão principal do cultivo. Gomes percorre o trajeto entre a sede e o cultivo em seu carro, que é equipado com rastreador. Depois de 20 minutos em trecho de asfalto e outros dez de estrada de terra, surge o “Cultivo da Dona Zezé”. Na sede da Abrace, 150 "madres", ou plantas-mãe, geram clones de novas mudas Alexandre Gondim Para quem olha de fora, os muros brancos e altos, rodeados por cercas elétricas em toda a extensão, e as quatro guaritas parecem lembrar muito mais uma penitenciária do que uma área de plantação. Mas, do lado de dentro, a imensa estrutura, as dezenas de equipamentos e os funcionários dão ao local o ar de empresa agrícola. A Abrace comprou o terreno há um ano, mas a mudança para o novo endereço ocorreu bem mais recentemente e, assim, o local ainda está em reformas. A área de cultivo a céu aberto ocupará 7 dos 17 hectares da propriedade; os plantios devem ocorrer até o fim do ano. Por ora, a entidade tem usado o estoque da cannabis produzida em Campina Grande para fabricar os medicamentos. Em paralelo à reforma, a entidade tem se concentrado em produzir clones das 150 “madres”, as plantas-mãe de cannabis, que geram entre dez e 15 clones de novas mudas, em média. A associação importa as sementes das madres de países como Estados Unidos e Canadá e, até concluir as obras, vai manter madres e clones em uma estufa improvisada. Quando a estrutura estiver a pleno vapor, o número de madres poderá chegar a 300. Leia também Quem pode cultivar cannabis no Brasil? Saiba o que muda após decisão da Anvisa Pesquisadora que abriu caminho à cannabis medicinal vê espaço para país elevar o teor de THC Em Campina Grande, a Abrace produzia, por ano, 2,5 toneladas de flor de cannabis seca, a matéria-prima do óleo. Com mais plantas à disposição, o rendimento deve crescer. “Estamos em uma área bem maior e que tem solo melhor. Nossa estimativa é de que vamos conseguir até 5 toneladas de flores secas por ano”, diz Kaio Henrique Costa Ferreira, engenheiro agrônomo da associação. Manejo da planta A mudança de cidade fez bem à saúde das plantas. Mais próximos da região de praia, os pés de cannabis ganharam mais tempo de exposição ao sol, condição essencial para poderem se desenvolver. “Campina Grande fica em uma altitude maior, então as temperaturas baixas são mais frequentes e o clima é mais ameno à noite. Lá, também tínhamos limitação de recursos hídricos, o que exigia contratar dois carros-pipa por dia. Agora, temos um rio que corta os limites da propriedade e instalamos um poço artesiano, que alimenta nossa produção e ainda gera excedente”, afirma Gustavo dos Santos Nobre, gerente de cultivo da entidade. No manejo da planta, uma das preocupações é com o Fusarium, gênero de fungos de solo que, por manter estruturas de resistência adormecidas na terra, é de difícil controle. Na Abrace, os tratos culturais dos clones de cannabis incluem ainda adubação verde, uso de compostagem, rotação de culturas e manejo integrado de pragas e doenças, priorizando a aplicação de insumos biológicos. Medicamento de cannabis produzido pela Abrace: em janeiro, a Anvisa aprovou o cultivo, industrialização e comercialização da planta para fins exclusivamente medicinais Alexandre Gondim Os plantios dos diferentes lotes ocorrem a cada 15 dias, o que permite à equipe colher as plantas de cada lote de maneira simultânea. Durante o ciclo da planta, que dura de 120 a 150 dias, a equipe faz três podas. A primeira delas ocorre durante a fase vegetativa e tem como objetivo direcionar a arquitetura da planta e estimular a ramificação. A segunda, que funciona como uma “poda de limpeza”, é feita ao longo do ciclo, principalmente na transição para a floração, quando se faz a remoção de ramos pouco produtivos e do excesso de folhas mais velhas. Já a terceira poda é a fitossanitária. Ela não segue um calendário fixo e ocorre sempre que se identifica uma parte da planta com sinais de pragas, doenças ou danos na estrutura. Avanço no Brasil Trabalhar em uma fazenda de cannabis é mais do que uma simples sucessão de rotinas e tarefas: os funcionários da associação contam que, vez ou outra, precisam explicar a parentes, amigos e conhecidos que o que fazem no local não infringe nenhuma lei. “Sempre tento ser maleável para falar da minha profissão. Conto que trabalho com cultivo da mesma planta da maconha, mas que nossa empresa tem autorização da Justiça para fazer isso desde 2017”, afirma Kaio Henrique. Gustavo Nobre, o gerente de cultivo, diz que teve que convencer a mãe, de maneira prática, sobre os benefícios da cannabis medicinal. “Minha mãe tem fibromialgia. Pedi a ela que experimentasse o óleo utilizando vaporizador. Ela disse que não voltaria a fumar e ainda não queria ser tachada de maconheira. Depois de uma crise em que minha mãe não conseguia sair da cama, consegui fazer com que ela usasse o vaporizador para provar o óleo. No dia seguinte, ela acordou e começou a trabalhar normalmente”, relata Nobre. “Quando percebeu que trabalhou o dia inteiro e não tinha sentido dor, virou ativista.” No início deste ano, as associações que produzem cannabis medicinal comemoraram uma vitória importante. Em janeiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou a liberação do cultivo, industrialização e comercialização de cannabis para fins exclusivamente medicinais. Na Abrace, a decisão mudou pouco a rotina dos protocolos que a entidade já adota. Gustavo Nobre, gerente de cultivo da associação, conta que a planta respondeu bem às condições de Conde (PB) Alexandre Gondim Ainda assim, Cassiano Gomes admite que a medida reforça a atuação das organizações que trabalham com tratamentos alternativos para ajudar pacientes. “É melhor dar um primeiro passo, mesmo que seja preciso fazer algumas alterações e ajustes, do que nunca dar passo algum. A gente ficou muito feliz e aliviado porque agora temos o reconhecimento”, afirma. As normas de cultivo de cannabis medicinal no Brasil têm avançado, mas, para combater o preconceito, diz o fundador da Abrace, ainda há um longo caminho a percorrer. “Muita gente ainda acha que meu trabalho é plantar maconha e incentivar o uso deliberado. O que atrapalha nossa causa é a falta de entendimento de que existem pessoas lutando pelo uso medicinal, pela possibilidade de termos um remédio de baixo custo.” Atualmente, cerca de 500 decisões judiciais – a da Abrace é uma delas – permitem o plantio da cannabis para fins medicinais no Brasil. A Anvisa já autorizou a comercialização de 49 produtos derivados da planta.

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