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"textContent": "\n\"Malditos, por que não me deixaram morrer?” Essa foi a reação de Verônica (nome alterado para preservar a identidade), uma produtora rural do oeste de Santa Catarina, ao acordar no hospital, em 2021. Ela recebeu socorro ao ser encontrada em seu carro, desmaiada, após tentar tirar a própria vida – a produtora havia ingerido mais de 50 comprimidos para dormir. O ato desesperado foi a culminação de anos de problemas de saúde mental. Desde criança, Verônica sofria com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), que, no caso dela, manifestava-se na mania de limpeza, higienização e organização. O quadro ganhou novos contornos quando um forte vendaval destruiu boa parte de sua propriedade. \"Muita coisa foi arrasada. Perdemos um chiqueiro com capacidade para 1.000 suínos, tivemos mais de R$ 200.000 de prejuízo, mas o pior é o dano psicológico. Se o tempo fecha para chover, eu me tranco dentro de casa. Tenho muito medo. Ainda não consegui superar isso, nem mesmo usando a medicação\" O caso de Verônica é um exemplo de um problema que, embora comum, ainda é um tabu no campo. Questões culturais, isolamento e dificuldade de acesso a atendimento fazem com que muitos produtores tenham dificuldades para encontrar auxílio quando sofrem doenças ligadas a condições psicológicas. Até mesmo encontrar estatísticas atualizadas é difícil. A edição mais recente da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), do Ministério da Saúde, é de 2019. Segundo o levantamento, na época, 7,6% das pessoas maiores de 18 anos que residiam em territórios rurais no Brasil tinham diagnóstico de depressão, doença que afetava especialmente mulheres. Mas o número pode ser ainda maior. Um indício são os registros nos monitoramentos do Programa Saúde no Campo, iniciativa que o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) criou em 2024. “Já acompanhamos 34.000 pessoas em mais de 11.000 propriedades. Em nossos levantamentos, descobrimos que as questões de saúde mental e de sofrimento psíquico representam a terceira maior comorbidade relatada pelos moradores de áreas rurais, atrás apenas de problemas cardiovasculares e diabetes”, afirma Erika Bömer Cagliari, diretora-adjunta de saúde e promoção social do Senar. Questões de sofrimento psíquico representam a terceira maior comorbidade relatada pelos moradores de áreas rurais Kleverson Mariano “É um problema que existe do norte ao sul do Brasil. As famílias do campo enfrentam desafios importantes nas questões de saúde mental”, completa. Em muitos casos, relata a especialista, os produtores rurais estão expostos a fatores de risco psicossocial, como endividamento, renda instável e isolamento social. Outro elemento que torna mais difícil as ações de apoio às pessoas de localidades rurais que enfrentam problemas de saúde mental é o tabu que cerca essas questões. “É um assunto ainda muito estigmatizado. O habitante do campo tem uma cultura de que não pode sofrer, não pode se demonstrar fragilizado, e isso dificulta a busca de ajuda”, afirma a diretora-adjunta do Senar. Algumas vezes, o sofrimento psíquico, combinado com outros fatores, acaba levando ao ato mais drástico: tirar a própria vida. “O suicídio é um fenômeno complexo, o desfecho de uma sobreposição de fatores de risco que vão se acumulando. Ele não pode ser analisado com uma causa única”, observa a psicóloga Cláudia Weyne Cruz, que atua no Comitê Estadual de Promoção da Vida e Prevenção do Suicídio do governo do Rio Grande do Sul. O Estado tem as maiores taxas de suicídio do país. Segundo o Boletim Epidemiológico da Secretária Estadual da Saúde, em 2023 ocorreram 17.009 casos no Brasil, o equivalente a 8,6 mortes por 100.000 habitantes. No Rio Grande do Sul, o índice foi de 16,09 por 100.000 habitantes, quase o dobro da taxa nacional. Erika Cagliari, diretora-adjunta de saúde e promoção social do Senar Divulgação Esse problema é histórico na população do Rio Grande do Sul, lembra Cláudia, que, em seu doutorado, dedicou-se a uma pesquisa sobre o suicídio de agricultores idosos, especialmente entre os produtores de tabaco. Desde a década de 1970, as regiões fumageiras lideram as mortes autoprovocadas no estado. Agora, com a população rural enfrentando as consequências de anos seguidos de quebras de safras causadas por secas, a destruição que ocorreu com as enchentes de 2024 e o alto endividamento, existe o temor de que esses números possam aumentar no futuro. Os possíveis impactos da enchente histórica de 2024 sobre a saúde mental dos produtores rurais no Rio Grande do Sul levaram o Senar-RS a estruturar um módulo do Programa Saúde no Campo voltado especificamente para alguns dos municípios que mais sofreram com as cheias. “Em nossos atendimentos, verificamos muitos casos de alcoolismo, depressão e ansiedade, esta última especialmente entre os jovens. Mas a enchente expôs um problema que é contínuo. É um público que tem muita necessidade de ajuda”, constata Fernanda Kusiak, analista de saúde do Senar-RS. O módulo, detalha a especialista, oferece capacitação de enfermeiros e técnicos para práticas de escuta qualificada, psicoeducação e acolhimento. O programa inclui ainda visitas domiciliares, teleatendimentos e fortalecimento da articulação com o Telessaúde e o Sistema Único de Saúde (SUS), a fim de garantir acompanhamento contínuo e humanizado. No Amazonas, as dificuldades logísticas são o maior empecilho que os moradores de comunidades rurais enfrentam para conseguir atendimento com profissionais de saúde. “Grande parte da população do campo é formada por ribeirinhos que precisam pegar um barco para ir de sua comunidade até a cidade para buscar serviços de saúde. Na maioria desses locais, não há profissionais de saúde mental, como psicólogos”, diz Márcia Kamila Silva de Souza, coordenadora de promoção social e saúde do Senar-AM. Márcia Souza, coordenadora do Programa Saúde no Campo do Senar-AM Divulgação Um caso emblemático, ressalta, foi o de um fruticultor do município de Iranduba que sofreu um acidente com uma roçadeira e perdeu parte da visão. O episódio desencadeou depressão e ideias suicidas. “Ele se isolou na propriedade, recusando ajuda. Após a intervenção da equipe, oferecemos apoio e encorajamos a busca por atendimento”, afirma. A ação dos profissionais teve efeitos positivos. “Após três meses, ele teve uma melhora significativa, retornou ao convívio familiar e às atividades produtivas. A vontade de viver e a superação das ideias suicidas foram marcantes”, relata Márcia. \"Eu me vi desesperada, porque não sabia o que fazer”, lembra a agricultora Thais Neres Krindges sobre o momento em que se mudou para a propriedade rural da família do namorado (hoje esposo), de Concórdia (SC). Ela nasceu no campo, mas se mudou ainda criança para a cidade de Ipira (SC) e outros municípios próximos, onde trabalhou em hotelaria, frigorífico e numa fábrica de móveis. A mudança para a propriedade da família do namorado ocorreu quando ela tinha 20 anos. Thais buscou ajuda médica e passou a contar com o apoio de uma psicóloga.Mas essa experiência, e oque ouvia de conversas com outros produtores, fez com que ela percebesse que os problemas de estresse, ansiedade e depressão eram comuns em sua região. Depois de enfrentar – e superar – depressão e uma síndrome de esgotamento profissional, também conhecida como síndrome de burnout, a agricultora criou o programa Cultivando o Bem-Estar no Meio Rural, que tem oferecido ajuda a outros produtores de comunidades da região. Agricultora Thais Krindges, de Concórdia (SC) Divulgação No projeto, que nasceu com apoio da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e também da cooperativa Cresol, Thais passou a realizar encontros para aproximar produtores rurais e profissionais da saúde mental. A iniciativa já alcançou mais de 1.000 pessoas. “Reunimos homens, mulheres, idosos. Eu falo da minha história, ouvimos as deles, os terapeutas falam. É uma rede de apoio e compreensão”, diz. A agricultora afirma que, mesmo com uma estratégia simples, baseada apenas na troca de experiências entre as pessoas, a iniciativa já tem tido um impacto positivo na vida dos produtores. “Em um encontro em novembro, uma senhora me falou: ‘Se você tivesse vindo aqui dois anos atrás, talvez minha filha ainda estivesse viva’. Foi muito emocionante, mas também mostra como nosso esforço é relevante.” O trabalho de Thais Krindges vai reverberar até no exterior. Entre os dias 27 e 29 de março, a produtora será uma das palestrantes do Brazil Conference, evento que ocorrerá na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Uma das frequentadoras dos encontros promovidos por Thais Krindges foi justamente Verônica, a produtora citada no início da reportagem. “Tive uma tarde de muita conversa, que me ajudou demais. Eu vi que precisava me apegar, ter mais contato com pessoas que me incentivem”, afirma. Leia também Transição de La Niña para El Niño cria cenário de incerteza; veja como será o outono Colheita de soja segue atrasada no Rio Grande do Sul Segundo ela, a medicação controlada tem ajudado no tratamento, mas a mudança de atitude também foi fundamental para a recuperação. “Eu tomei consciência de que estava doente e precisava me tratar e busquei a ajuda de um psiquiatra. Hoje, viver no campo para mim é uma bênção, tenho muito gosto por viver aqui”, frisa. Para Andreia Novo Volkmer, analista em saúde sanitarista da Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul, além de buscar ajuda profissional, os trabalhadores rurais que se sentem fragilizados também podem fazer mudanças de vida que auxiliem na recuperação. “Alguém mais ligado à religião pode frequentar mais sua igreja. Ou conviver mais com a família, amigos, fazer atividades que lhe agradem ou mesmo cortar a convivência com pessoas desagradáveis”, diz ela, que integra o Comitê Estadual de Prevenção ao Suicídio. “As pessoas precisam se dar conta da importância de valorizar esse cuidado. A saúde mental é o que governa a nossa vida.” Como pedir ajuda Se você é produtor ou produtora rural e tem percebido sinais como tristeza persistente, ansiedade intensa, cansaço constante, dificuldade para dormir, desânimo para as atividades do dia a dia ou sensação de sobrecarga, buscar ajuda é um passo importante e necessário. Algumas orientações práticas: 1. CONVERSE COM ALGUÉM DE CONFIANÇA: Falar com um familiar, amigo, vizinho ou líder comunitário pode ajudar a aliviar o peso emocional e servir como estímulo a dar o primeiro passo na busca por apoio. 2. PROCURE A UNIDADE DE SAÚDE MAIS PRÓXIMA: A equipe da Atenção Primária à Saúde (postos de saúde e equipes de saúde da família) está preparada para orientar, acolher e encaminhar, quando necessário, para atendimento especializado. No caso de planos de saúde, verifique os canais de atendimento – talvez você possa ter apoio sem sair de casa, via teleatendimento. 3. UTILIZE SERVIÇOS DE APOIO EMOCIONAL: O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece escuta gratuita e sigilosa, 24 horas por dia, pelo telefone 188 ou pelo site cvv.org.br (chat online). 4. PEÇA ORIENTAÇÃO AOS PROFISSIONAIS QUE VISITAM SUA PROPRIEDADE: Técnicos de programas de assistência rural, agentes comunitários de saúde e equipes de projetos locais podem dar orientações sobre onde buscar atendimento e como acessar os serviços disponíveis. 5. LEMBRE-SE: PEDIR AJUDA É UM SINAL DE CUIDADO, NÃO DE FRAQUEZA: Assim como cuidar da lavoura, dos animais e da família, os cuidados com a saúde mental são essenciais para a pessoa manter a qualidade de vida e a capacidade produtiva.",
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