Trajetórias diversas: os desafios e conquistas de mulheres que atuam no agro
Globo Rural | O agro de ponta a ponta [Unofficial]
March 8, 2026
O Dia Internacional da Mulher, celebrado neste domingo, 8 de março, ganha um significado especial para o setor rural este ano. A ONU (Organização das Nações Unidas) elegeu 2026 como o Ano Internacional da Mulher Agricultora. O objetivo é reforçar o papel feminino no campo, destacando as conquistas e chamando a atenção para os obstáculos ainda enfrentados. Dados da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) apontam que, na América Latina e no Caribe, as mulheres ainda são minoria, mas desempenham papel essencial na produção, processamento, distribuição e comercialização de alimentos. Elas representam 36% da força de trabalho nos sistemas agroalimentares da região, com participação especialmente relevante nos segmentos não agrícolas, onde 71% estão concentradas em atividades como processamento e comercialização. No Brasil, segundo o Censo Agropecuário do IBGE (2017), aproximadamente 947 mil propriedades rurais são administradas por mulheres, o que representa cerca de 19% dos empreendimentos agrícolas do país. Atuação em diferentes funções Experiências compartilhadas nas redes sociais mostram que a atuação feminina envolve diferentes funções. A jovem Ilana Dourado, de 20 anos, viralizou recentemente no Instagram com um vídeo feito sobre seu trabalho: ela atua como operadora de máquinas da SLC Agrícola, e postou uma gravação em que mostrava o plantio de algodão, realizado em Balsas, no Maranhão. Ilana Dourado é operadora de máquinas Divulgação Ela lida com uma rotina que exige precisão técnica e domínio de tecnologia. Em dias de bom ritmo, chega a conduzir o plantio de até 130 hectares de algodão. “Todo dia é um novo começo. Há diversas máquinas e infinitas possibilidades que enxergo aqui na fazenda. Meu objetivo é conseguir continuar aprendendo e aplicando esse aprendizado com precisão. Acredito que a capacidade de lidar com a atualização constante seja um diferencial”, afirma. Marcikely Ferreira, do município de Lábrea, no sul do Amazonas, representa os esforços femininos na busca pelo fortalecimento de cadeias agroextrativistas na região. Ela preside a Associação dos Produtores Agroextrativistas da Colônia do Sardinha (ASPACS) e hoje coordena uma equipe de 12 colaboradores diretos, que chega a 50 em períodos de produção. “Já conseguimos melhorar as cadeias produtivas de murumuru, ouriço de castanha, copaíba e andiroba”, celebra. “Esse trabalho em conjunto, com uma liderança e união de forças, é importante para melhorarmos a renda das famílias extrativistas e construirmos parcerias que potencializem nosso trabalho e nossos resultados. As habilidades de negociação aqui são fundamentais”, avalia. Marcikely Ferreira é presidente da Associação dos Produtores Agroextrativistas da Colônia do Sardinha Divulgação Anny Caroliny Pereira Rocha, uma jovem liderança no extrativismo de baru, atua na assistência técnica voltada ao desenvolvimento rural dentro da Cooperativa Regional de Base na Agricultura Familiar e Extrativismo (Copabase), em Arinos (MG), com foco na agricultura familiar e práticas de extrativismo sustentável. “Um dos grandes desafios diários é percorrer grandes distâncias de moto em estradas de terra, com muita poeira na seca e lama nos períodos chuvosos”, diz. “Mas o esforço vale a pena. Com dedicação e acompanhamento de perto, os agricultores se abrem para orientação e já conseguimos ver resultados. Percebemos avanço da produtividade e nas boas práticas e isso é mais do que um incentivo para continuar nessa jornada”, completa. Leia também Jovem vê oportunidade na fartura de frutas em sua cidade e apoia produtores locais Avançar em posições de liderança é desafio para mulheres do agro No setor de flores e plantas ornamentais, aproximadamente 60% da força de trabalho é feminina, segundo o Instituto Brasileiro de Floricultura (Ibraflor), em conjunto com o Cepea/USP. “Além de gerar empregos, o setor permite que muitas mulheres conquistem autonomia financeira, fortaleçam a permanência das famílias no campo e assumam papéis estratégicos dentro e fora da porteira”, assinala a produtora de flores e diretora do Ibraflor, Raquel Steltenpool. No Ceará, Lucivanda Fernandes Siqueira, produtora de rosas na Fazenda Santo Expedito, na cidade de Ubajara, destacou-se como exemplo de empreendedorismo feminino ao conquistar o 1º lugar na categoria Pequenas Propriedades no 8º Prêmio Mulheres do Agro, em 2025. A gestora da Fazenda Santo Expedito, na Serra da Ibiapaba, destacou-se pela gestão inovadora, turismo rural e produção de rosas com foco em sustentabilidade e impacto social. Lucivanda Fernandes Siqueira é produtora de rosas Divulgação “Procuro integrar diferentes modelos de negócios, unindo potencialidades, como atividades que visam sustentabilidade e economia criativa, na qual o Nordeste é um expoente”, diz. Lucivanda é professora por formação e hoje estuda gestão de pessoas e agronegócio. “Quero entender como melhorar as formas de capacitação, integração de tecnologias e sustentabilidade, não dá para ficar fora disso quando queremos expandir um negócio”, avalia. A Fazenda Santo Expedito ampliou recentemente a sua estrutura produtiva, hoje com 12 hectares. O plano é expandir a propriedade para 16 hectares. Além disso, foram implementados três tanques de armazenamento e sistema de captação de água da chuva com pavimentação intertravada que redireciona o aproveitamento hídrico. Caminhos para superar desafios “O empoderamento feminino no agronegócio não pode parar”, destacou Máximo Torero, economista-chefe da FAO, no discurso de abertura do Ano Internacional da Mulher Agricultura. “Esperamos que daqui a cinco, dez ou 20 anos, seja possível olhar para trás e nos perguntar como algum dia alguém pensou que mulheres não poderiam ser agricultoras, engenheiras ou presidentes de uma empresa. Será algo tão comum que nem nos lembraremos de mencionar, destacar, criar uma campanha. Por ora, porém, ainda precisamos desse destaque, mesmo que seja apenas para relembrar a todos de uma verdade simples. E isso é só o começo”, salientou. Para a FAO, reconhecer e fortalecer o papel das mulheres no campo é essencial para enfrentar desafios globais como a mudança climática, a pobreza rural e a insegurança alimentar. Iniciativas voltadas à capacitação, acesso a mercados e inclusão financeira têm sido apontadas como caminhos para ampliar a participação feminina e promover maior equidade no setor. Estudos da FAO indicam que, se as mulheres tivessem o mesmo acesso a recursos produtivos que os homens, como acesso à educação, crédito, terras, assistência técnica e tecnologia, a produção agrícola em países em desenvolvimento poderia crescer entre 20% e 30%, contribuindo para reduzir significativamente a fome no mundo.
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