Cine Marabá: a arquitetura art déco em um dos cinemas mais antigos de São Paulo
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July 3, 2026
Quem caminha pela Avenida Ipiranga, no centro de São Paulo, dificilmente deixa de notar a imponente fachada do Cine Marabá. Entre prédios históricos e o intenso movimento da via, o cinema segue marcando presença com sua monumentalidade. Inaugurado entre 1944 e 1945, o projeto surgiu em um período em que os cinemas ocupavam papel central na vida urbana, funcionando como espaços de encontro e lazer. O Marabá integrava a chamada Cinelândia Paulistana, conjunto de salas de diferentes dimensões que transformou o centro em um dos principais polos culturais dos anos 1930 a 1960. “O Cine Marabá era mais do que um local para assistir filmes. Foi concebido como um espaço de convivência e representação social, associado à modernidade e à vida cultural paulistana”, afirma o arquiteto Guilherme Michelin, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Com pé-direito elevado e materiais sofisticados, o Cine Marabá, inaugurado em 1944, tinha uma sala de caráter monumental, com espaço para mais de 1.500 espectadores Acervo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo/Revista Acrópole/Reprodução O projeto nasceu também com a proposta de competir com outras salas prestigiadas da época. Pertencente à Empreza Paulista Cinematográfica, do empresário paulista Paulo Sá Pinto (1912–2020), o Marabá foi implantado imediatamente à frente do Cine Ipiranga — então principal espaço de exibição da cidade e integrante do grupo concorrente liderado pelo empresário espanhol Francisco Serrador (1872–1941). O contexto da Cinelândia A partir de 1911, com a inauguração do Theatro Municipal, a cena cultural no centro paulistano se consolidava em meio ao processo de modernização da cidade. O Vale do Anhangabaú é considerado um dos principais espaços públicos da cidade de São Paulo, tanto pelo seu caráter multifuncional quanto pela localização privilegiada. A região abrigava um amplo número de cinemas de rua — dos grandes aos pequenos — que desempenharam papel fundamental na cena cultural paulistana do início do século 20. Picryl/Werner Haberkorn/Creative Commons "A região do Vale do Anhangabaú crescia economicamente, em grande parte impulsionada pelas salas de cinema, associadas ao funcionamento de lojas, cafés, boutiques e centros comerciais", explica Thais Valvano, historiadora pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora sobre cinemas. Leia mais Entre as décadas de 1930 e 1940, a região do Largo do Paissandu e das avenidas São João e Ipiranga consolidou um circuito cultural vibrante, que incluía o Cine Paissandu (1957), projetado pelo escritório Severo e Villares S.A., o Cine Ipiranga (1941) e o Cine Art Palácio (1936), ambos assinados pelo arquiteto paulista Rino Levi (1901–1965). Um dos destaques da região foi o Cine Paissandu, especialmente em 1967, quando ainda estava em plena operação Facebook/Memória Paulista/Reprodução A arquitetura do Cine Marabá O Cine Marabá foi desenhado em 1944 pelos arquitetos Domício de Almeida e Raul Rosa Duarte, da Sociedade Construtora Duarte Ltda. A atribuição do projeto a uma construtora, mais do que a um escritório individualizado, refletia um modo de produção comum na época, em que o processo arquitetônico era compartilhado entre equipes técnicas e empresas construtoras. A arquitetura trazia referências predominantes do art déco, marcada pela verticalidade e pelo uso de formas geométricas. Nos interiores, o amplo hall de entrada com pé-direito elevado, os elementos decorativos, os lustres e a grande sala de exibição com balcão superior reforçavam a sensação de sofisticação e espetáculo. O conjunto tornou-se tão relevante que ganhou destaque nas páginas da Revista Acrópole, em julho de 1945, em fotografias de Leon Liberman. O Cine Marabá contava com bancos estofados e um balcão superior dentro da sala de exibição, reforçando seu caráter monumental e sofisticado Acervo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo/Revista Acrópole/Reprodução Ao mesmo tempo, o projeto refletia a transição arquitetônica dos anos 1940, incorporando soluções mais sóbrias e funcionais. "Sua concepção dialoga ainda com os chamados movie palaces, grandes cinemas projetados para transformar a experiência de assistir a um filme em um acontecimento cultural e social", pontua Guilherme. A fachada é contínua e organizada por uma repetição de cheios e vazios, o que dá ritmo e unidade ao conjunto. Sobre essa base, aparecem ornamentos em relevo, com desenhos inspirados na flora e na fauna brasileiras. "Essa era uma escolha comum no art déco da época e traduzia a busca por referências locais para uma linguagem arquitetônica moderna", destaca Licia de Oliveira, arquiteta e urbanista, membra do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da Prefeitura Municipal de São Paulo. A linguagem arquitetônica do Cine Marabá combina referências do art déco com elementos locais que remetem à brasilidade — como os vazados da fachada, responsáveis por trazer luz natural às escadas internas (foto à esquerda). Nas antigas imagens à direita, aparecem registros da sala de espera e da plateia do balcão superior do cinema Acervo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo/Revista Acrópole/Reprodução | Montagem: Casa e Jardim Inclusive, as referências locais se fazem presentes no próprio nome do cinema. "Marabá, além de fazer uma referência à cidade paraense homônima e simbolizar um resgate da cultura marajoara, traz a dimensão da miscigenação e um olhar para referências brasileiras", pontua Licia. As marquises, que avançam sobre a calçada, ajudam a marcar a entrada do Marabá e criam uma transição direta entre seu interior e a Avenida Ipiranga. Além disso, a forma escalonada do edifício, com os andares superiores recuando em relação à rua, cria uma composição arquitetônica em ‘degraus’, reforçando sua monumentalidade. "Isso ajuda a reforçar a sensação de altura e dá ao prédio uma presença marcante na paisagem", diz a arquiteta. A fachada e a marquise do Cine Marabá estabelecem uma conexão direta entre o interior do edifício e a cidade Acervo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo/Revista Acrópole/Reprodução A experiência do público Com capacidade para 1.655 espectadores, o Cine Marabá figurou entre os maiores e mais populares da cidade. Em dias de estreia, as filas se estendiam pelas calçadas, enquanto os exibidores disputavam o privilégio de apresentar em primeira mão os filmes mais aguardados. Licia observa que a arquitetura do cinema era fundamental para a experiência do público, funcionando como uma sequência espacial: "Ajudava a tirar as pessoas do cotidiano e as preparava para aquilo que veriam na tela". O uso de mármore, da iluminação indireta e dos revestimentos estofados contribuía para a transição da vida real para a sétima arte. Ali, as pessoas também "acompanhavam lançamentos internacionais, moda, comportamento e a vida das celebridades nas revistas especializadas. Quando chegavam à Cinelândia, era como se estivessem mais próximas daquele universo mágico", comenta a historiadora Thais. Além da exibição de filmes, os cinemas funcionavam como espaços de encontro, sobretudo para a elite paulistana. Na fotografia, vê-se o registro do salão de espera do Cine Marabá Acervo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo/Revista Acrópole/Reprodução Transformações do cinema de rua A partir da segunda metade do século 20, o circuito de cinemas de rua em São Paulo entrou em processo de desestruturação. A chegada da televisão modificou o padrão de consumo cultural e, posteriormente, a consolidação das salas em shopping centers reorganizou o mercado exibidor. Nesse contexto, muitas salas foram fechadas ou adaptadas para outros usos. A fachada atual do Cine Marabá preserva as vigas, os elementos vazados, os acessos e a conexão com a rua, todos presentes desde o projeto original dos anos 1940 ESTEVAM/Wikimedia Commons No fim dos anos 1980, o público do Cine Marabá começou a decair, mas o espaço não encerrou suas atividades. Na década de 1990, o edifício foi tombado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), em meio aos debates sobre a preservação de bens na região do Vale do Anhangabaú. Pouco depois, em 1996, cinco anos após a morte do empresário Paulo Sá Pinto, a sala passou para a administração da PlayArte, que logo identificou a necessidade de reforma para garantir sua continuidade. Após três anos de negociações com o Departamento do Patrimônio Histórico (DPH), a restauração do prédio foi confirmada, o que levou à suspensão temporária das atividades em 2007. A sala de exibição buscou preservar elementos originais em seus interiores, mantendo suportes e detalhes decorativos ao lado da tela, em consonância com o projeto histórico Daniel Ducci/Divulgação Restauro e adaptação funcional O restauro do Cine Marabá foi conduzido pelos arquitetos Samuel Kruchin, responsável pelo projeto da fachada e do foyer, e Ruy Ohtake (1938–2021), encarregado da intervenção nos interiores. Leia mais A principal transformação ocorreu na sala de exibição. Antes única e com mais de mil lugares, foi subdividida em cinco — três no térreo, com formato circular, e duas no pavimento superior. Espaços de acesso e circulação, além de parte dos acabamentos originais, como o piso de parquet e as referências cromáticas do projeto histórico, foram mantidos. A principal transformação foi a modernização do espaço, marcada pela subdivisão da sala original em ambientes menores, com formatos circulares Daniel Ducci/Divulgação O Cine Marabá foi reaberto em maio de 2009. Desde então, permanece em funcionamento. "Sua presença demonstra que o centro continua vivo e que valorizar a história da Cinelândia significa resgatar e preservar a cultura da cidade, que é extremamente rica", analisa Thais. Para Guilherme, garantir a permanência e a integração de bens tombados e históricos, como o Cine Marabá, é uma forma de fortalecer a memória urbana. "É também preservar a capacidade da sociedade compreender sua própria trajetória e projetar de forma mais consciente o seu futuro", complementa o arquiteto.
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