6 flores que se tornaram símbolos da comunidade LGBTQIA+
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June 30, 2026
Muito antes da icônica bandeira do arco-íris, as flores já funcionavam como códigos discretos de pertencimento, afeto e orgulho para a comunidade LGBTQIA+. Trazer essas espécies para o jardim ou para a decoração é uma forma de celebrar a diversidade. "Em épocas e lugares onde era crime ser homossexual, por exemplo, algumas flores eram utilizadas para expressar o desejo por pessoas do mesmo gênero e para a construção de comunidades. Em outros períodos, houve a mobilização de flores como expressão política explícita", contextualiza Leonardo Vieira, historiador, museólogo e pesquisador especializado na memória LGBTQIA+. Essa prática de comunicação codificada por meio da botânica também é identificada em contextos culturais mais amplos, funcionando como uma linguagem própria de acolhimento. "Em diferentes culturas, flores e plantas foram utilizadas para comunicar intenções, sentimentos e mensagens que nem sempre podiam ser expressos de forma aberta. É uma demonstração de como o mundo natural está profundamente conectado às nossas formas de viver, sentir e relacionar", acrescenta Alessandra Assi, florista, artista plástica e educadora. Por que algumas flores se tornaram símbolos LGBTQIA+? O envio de um buquê de lavanda entre mulheres carrega um significado histórico e romântico muito profundo dentro da comunidade LGBTQIA+, estando diretamente ligado ao amor sáfico (atração entre mulheres) Freepik/Creative Commons Segundo o especialista, a associação de flores ao universo LGBTQIA+ baseia-se em duas razões principais. "Em primeiro lugar, havia a necessidade de criação de códigos discretos por questões de segurança. Por outro lado, houve também um movimento de apropriação da simbologia das flores imposta à comunidade por agentes externos, de forma depreciativa", pontua Leonardo. Leia mais Ele explica que a presença prática dos símbolos no cotidiano ajudava a moldar as interações sociais da época: "A maioria dos registros e estudos que conheço mencionam o uso dessas flores como adereços de vestuário — o cravo-verde nas lapelas, por exemplo — e como presentes e símbolos de cortejo e paquera. Há, porém, registros das flores sendo usadas como elementos decorativos de teatros e espaços de sociabilidade queer". A evolução da linguagem das flores como expressão de identidade Para Alessandra, as flores sempre estiveram presentes em momentos marcantes de celebração e afeto. Ao longo da história, muitas flores superaram a beleza visual e passaram a simbolizar valores, lutas e formas de identificação coletiva. "Isso acontece porque as flores possuem uma linguagem universal. Mesmo quando não falamos a mesma língua, conseguimos reconhecer delicadeza, força, esperança ou renovação em uma flor. Por isso, diferentes grupos e comunidades encontraram nelas uma forma de expressar quem são, suas histórias e aquilo que desejam preservar", ela justifica. As flores que marcam essa trajetória No paisagismo e na decoração, a escolha de plantas ricas em história, tradição ou significado transforma o ambiente, indo muito além da estética. "Essas plantas ajudam a construir ambientes onde as pessoas se sentem conectadas, representadas e acolhidas. De certa forma, os jardins passam a funcionar como guardiões de memórias, preservando não apenas espécies vegetais, mas também histórias humanas que merecem continuar florescendo", ressalta Alessandra. A seguir, o pesquisador especializado na memória LGBTQIA+ elenca as principais flores que representam esse legado: 1. Cravo-verde O cravo-verde é um símbolo histórico da homossexualidade masculina, que funcionava como um código secreto de identidade e resistência gay em uma época de extrema repressão e criminalização 阿橋花譜 HQ Flower Guide/Wikimedia Commons O cravo-verde talvez seja a flor mais famosa associada às comunidades LGBTQIA+. "Sua popularidade se deu graças ao escritor Oscar Wilde, que pediu aos amigos que as usassem em suas lapelas na estreia de sua peça Lady Windermere's Fan, em 1892. Porém, o hábito de usar cravos-verdes como símbolo discreto para identificar homens atraídos por homens já era conhecido em Paris", relata Leonardo. 2. Violeta A flor violeta representa o amor sáfico desde a Grécia Antiga, funcionando ao longo dos séculos como um código secreto de identidade e resistência para as mulheres lésbicas PxHere/CC0 Domínio público/Creative Commons As violetas representam o símbolo mais antigo e duradouro da comunidade lésbica, com raízes históricas que remontam a mais de 2.500 anos. Essa ligação profunda com o amor entre mulheres ganha vida na literatura clássica. "As violetas tornaram-se um símbolo do amor lésbico devido à produção de Safo, a famosa poetisa da antiguidade grega, que em muitos de seus poemas descreveu mulheres usando coroas e guirlandas de violetas e rosas", conta Leonardo. Leia mais 3. Amor-perfeito O amor-perfeito, conhecido em inglês como pansy, também possui uma forte ligação histórica com a comunidade LGBTQIA+, mais voltada aos homens gays e às artistas drag jaque zattera / Flickr / Creative Commons O amor-perfeito, ou pansy em inglês, tem uma das trajetórias mais fascinantes da cultura LGBTQIA+, pois ela representa um exemplo clássico de ressignificação de um insulto em orgulho. "No século 19, nos Estados Unidos, o termo pansy era utilizado para ridicularizar homens afeminados. No século 20, porém, o termo foi apropriado pela comunidade como símbolo de resistência e orgulho, chegando até mesmo a nomear um período de grande visibilidade da cultura drag queen e gay nos anos 1920 e 1930", ele detalha. 4. Lavanda A lavanda é a cor e o aroma mais marcantes de toda a trajetória do movimento LGBTQIA+, funcionando ao mesmo tempo como um símbolo de opressão histórica e de orgulho político Pixabay/ManfredRitcher/Creative Commons A lavanda é o símbolo botânico e cromático mais marcante dessa trajetória, representando a resistência de toda a comunidade. "Sua primeira aparição documentada foi na canção alemã Das Lila Lied, como símbolo de solidariedade em um período da história alemã de grande visibilidade e respeito à comunidade no país. Posteriormente, a flor foi adquirindo um teor de estigma, como, por exemplo, no período conhecido como Terror da Lavanda, época de perseguição a homossexuais funcionários públicos nos EUA durante as décadas de 1920 a 1950", elucida Leonardo. 5. Rosa O simbolismo da rosa no Japão consolidou o termo Bara como um gênero literário e de mangás gays, enquanto o lírio (yuri) tornou-se a contraparte visual para publicações lésbicas Pexels/samer daboul/CreativeCommons A rosa carrega dois significados históricos extremamente marcantes e distintos dentro da comunidade LGBTQIA+: um voltado para o ativismo trans no Ocidente e outro ligado à cultura gay masculina no Japão. "No período greco-romano, a rosa era a flor de Eros, deus da paixão e do erotismo. Porém, em paralelo, no Japão, a rosa foi mais explicitamente associada ao universo gay. Em 1971, por exemplo, a primeira revista gay produzida foi chamada de Barazoku, ou tribo rosa em tradução literal", ilustra Leonardo. 6. Lírio O lírio é um forte símbolo de resiliência para mulheres lésbicas e bissexuais, originado na cultura asiática e no movimento feminista como metáfora das relações sáficas e da diversidade sexual Flickr/Bill/Creative Commons A trajetória do lírio no movimento está profundamente ligada à cultura pop e à literatura do Japão. Na cultura japonesa, especialmente a partir da década de 1970 com o surgimento de publicações segmentadas e, posteriormente, nos mangás, os lírios (conhecidos como yuri) passaram a ser atrelados a relacionamentos sáficos e ao amor entre mulheres. A valorização das referências através das gerações Essas flores lembram momentos importantes da história e promovem a valorização de referências culturais de forma poética e estética. "As flores nos remetem a um período da história LGBTQIA+ em que deveríamos nos preocupar em expressar nossa identidade e nossos desejos de forma implícita, silenciosa e discreta", reflete Leonardo. Diante desse cenário histórico, o especialista destaca o impacto dessas memórias atualmente: "Produções culturais como a literatura e a arte ajudam a registrar essas práticas, que envolvem a construção de manifestações de sociabilidade, afeto e de desejo, e também de resistência. Acredito que esse resgate está relacionado a um movimento mais amplo de crescente valorização da história LGBTQIA+ por vários setores e gerações da sociedade". Leia mais As flores como emblema de resistência Um dos exemplos mais marcantes dessa ressignificação ocorre no cenário artístico contemporâneo, no qual o cultivo se transforma em um ato de protesto contra o preconceito. É o caso do The Pansy Project, idealizado pelo artista Paul Harfleet. Initial plugin text "O artista planta as flores em lugares onde aconteceram violências LGBTfóbicas. Assim, reencenando a própria história do amor-perfeito no universo LGBTQIA+, o artista denuncia a intolerância e o ódio direcionado à comunidade de forma poética e a partir de um símbolo extremamente significativo para muitos de nós", comenta Leonardo. Esse resgate do orgulho e da identidade através da botânica serve de inspiração para uma reflexão profunda. "Talvez uma das maiores lições das flores seja mostrar que delicadeza não significa fragilidade. Muitas espécies enfrentam ventos, secas e continuam florescendo. As comunidades humanas também carregam essa capacidade de adaptação e resistência", conclui Alessandra.
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