Como a veloz urbanização de São Paulo afetou a história do seu futebol de várzea
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June 22, 2026
Durante boa parte do século 20, os campos de futebol de várzea marcaram a paisagem de São Paulo. Espalhados pelas margens dos rios e em terrenos ainda livres da expansão urbana, esses espaços reuniam moradores em torno do esporte e ajudavam a fortalecer a vida comunitária dos bairros. Com o crescimento desenfreado da cidade, muitos desapareceram ou foram deslocados para regiões mais distantes. Os primeiros registros do futebol de várzea na capital paulista remontam ao final do século 19. "O esporte foi introduzido inicialmente por integrantes da elite que tiveram contato com o futebol na Europa, mas rapidamente ultrapassou esse círculo social", explica Aira Bonfim, historiadora, coordenadora da implantação do Centro de Memória Brasil Paralímpico e diretora da Repertório Cultural, empresa dedicada a projetos de pesquisa, curadoria e patrimônio cultural. Com o passar dos anos, os jogos passaram a ocupar campos improvisados e reuniam trabalhadores, imigrantes e moradores dos bairros populares. A região da Várzea do Carmo, próxima ao centro, tornou-se um dos principais espaços de difusão da prática. A partir dali, o futebol se espalhou e se consolidou como uma das principais formas de lazer paulistano. A Várzea do Carmo — atual região do Parque Dom Pedro II, no centro de São Paulo — é considerada o berço histórico do futebol no Brasil. Foi nessa área inundável do rio Tamanduateí que ocorreram as primeiras partidas informais, dando origem ao futebol amador de rua antes de se espalhar pelas periferias. Uma fotografia da antiga Ladeira do Carmo, hoje Avenida Rangel Pestana, revela o declive e os terrenos alagadiços às margens do rio Domínio Público O lazer nas margens dos rios Antes de serem incorporadas aos projetos de urbanização, as áreas de várzea tinham múltiplos usos. Os rios e seus arredores faziam parte da rotina de quem vivia próximo e eram frequentados para diversas atividades de lazer, circulação e convivência comunitária. Leia mais "Como São Paulo é uma cidade de rios, suas margens e o terreno de várzea a que pertencem sempre foram utilizados de variadas maneiras. Antes da prática do futebol, as pessoas faziam piqueniques, pescavam e usavam a várzea como base para nadar ou remar nos rios", afirma Diana Mendes, historiadora e educadora. As várzeas dos rios paulistas tinham múltiplos usos, sobretudo na transição entre os séculos 19 e 20, quando passaram a ser mais ocupadas. Na fotografia, vê-se o rio Tamanduateí e, ao fundo, o Mosteiro e a Igreja de São Bento, no Triângulo Histórico — hoje conhecido como centro histórico de São Paulo. A imagem, registrada por Militão Augusto de Azevedo em 1862, revela o cenário de declives e terrenos alagadiços que marcavam a paisagem da cidade Flickr/Militão Augusto de Azevedo - Beatriz Bueno/Creative Commons Foi nesse cenário que o futebol começou a se popularizar entre trabalhadores, imigrantes e comunidades negras. "Esses territórios eram áreas livres ou pouco valorizadas pelo mercado imobiliário, o que permitia que fossem apropriados pela população para a prática do futebol", diz Enrico Spaggiari, doutor em Antropologia pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do Instituto Ludopédio. Os principais núcleos da várzea se concentravam nas regiões da Várzea do Carmo, Brás, Mooca, Barra Funda e Bom Retiro, acompanhando o desenvolvimento dos bairros operários paulistanos. "A história do futebol na cidade está diretamente ligada a esses territórios", destaca Diana. As regiões da Várzea do Carmo, Brás, Mooca, Barra Funda e Bom Retiro, acompanhando o crescimento dos bairros operários paulistanos, concentraram os primeiros campos de futebol de várzea da cidade. Na fotografia, a Várzea do Mercado — também conhecida como Várzea do Carmo — e o antigo Mercado Caipira aparecem como marcos históricos da região central de São Paulo. Embora hoje a área próxima à Rua 25 de Março esteja urbanizada, foi ali que o futebol amador paulistano encontrou seu berço no início do século 20 Domínio Público A pesquisadora observa que a narrativa mais conhecida sobre a chegada do esporte ao país costuma deixar em segundo plano os espaços populares onde a prática também se desenvolveu. "A história oficial do futebol de São Paulo começa com um jogo na várzea, às margens do Rio Tamanduateí", reitera. Como a urbanização da capital mudou o mapa da várzea À medida que a capital paulista crescia e se industrializava, as áreas próximas aos rios passaram a despertar interesse econômico. Terrenos antes utilizados para lazer, moradia e atividades comunitárias tornaram-se alvo da expansão urbana e do mercado imobiliário, o que afetou os espaços ocupados pelos clubes e suas comunidades. O Velódromo Paulista foi inaugurado em 1896 para receber competições de ciclismo de alto nível. Com a chegada do futebol ao Brasil, porém, o espaço foi adaptado para abrigar o novo esporte. O Club Athlético Paulistano remodelou o local, que foi reinaugurado em 1901 e passou a sediar os principais jogos do Campeonato Paulista. Uma fotografia de 1905 registra uma partida realizada no estádio Futebolecialtda website/Wikimedia Commons Ao mesmo tempo, esse movimento urbano ajudou a fortalecer uma identidade construída justamente a partir da experiência de viver e jogar nesses territórios. "O nome varzeano, atribuído a quem habita ou pratica futebol na várzea, passa a ser elo identitário que se projeta e se afirma na cidade", explica Diana. As transformações se intensificaram nas décadas de 1930 e 1940, quando a retificação dos rios passou a integrar os projetos de modernização paulistana. Para Enrico Spaggiari, a história da várzea não pode ser dissociada da história de São Paulo. "A retificação e canalização dos rios Tietê e Pinheiros foi decisiva e teve grande impacto nesse processo", ele pontua. As obras de retificação e canalização de rios, como o Pinheiros (na foto) e o Tietê, realizadas nas décadas de 1930 e 1940, transformaram profundamente a ocupação das várzeas e, consequentemente, a prática do futebol nesses territórios da capital paulista Facebook/Arquivo Paulistano-Museu da Energia/Reprodução As intervenções urbanas afetaram não apenas os campos de futebol, mas também os espaços de convivência associados aos rios. Para quem frequentava esses locais, as perdas significavam a ruptura de ambientes de encontro, festa, identidade e organização comunitária. Embora o futebol fosse o elemento central, os clubes exerciam funções que ultrapassavam a atividade física. "As associações esportivas eram baseadas na solidariedade e no fortalecimento comunitário", fala Diana. Além da prática esportiva, o futebol de várzea sempre foi um espaço de socialização e fortalecimento de vínculos na cidade. Na fotografia, colaboradores aparecem durante a construção do campo do Baruel Futebol Clube, fundado em 1941 por um grupo de amigos que se reunia em um bar no bairro da Casa Verde, na zona norte de São Paulo Acervo do Museu do Futebol/Coleção Otacílio Ribeiro Ribeiro/Reprodução Inspiradas por formas de organização presentes entre trabalhadores, imigrantes e populações negras, essas entidades ajudavam a construir redes de apoio e pertencimento. "Diferentemente do que acontecia nos clubes de elite, o trabalho, a moradia e o campo de futebol eram vivenciados no mesmo território", afirma a historiadora. Essa ligação ajuda a explicar por que o termo "várzea" continua sendo utilizado mesmo quando os jogos já não acontecem nas margens dos rios. Embora muitas áreas tenham desaparecido com a urbanização, a cultura associativa ligada ao futebol permaneceu. "Se a várzea deixou de existir, a prática de se associar para praticar o futebol na sua forma popular só aumentou", observa Diana. Os vínculos comunitários criados em torno do futebol de várzea resistiam às pressões da especulação imobiliária, mantendo vivos os jogos e as celebrações nos campos. Um exemplo marcante foi a edição de 1974 da Confraternização Inter-Raças, dedicada ao jornalista Luis Bertóti, do Notícias Populares, autor da coluna ‘A várzea é pra valer’. O festival, inicialmente conhecido como ‘Negros x Brancos’, mudou de nome posteriormente em razão de disputas políticas. O evento reuniu diversas gerações do futebol amador paulistano e aconteceu no tradicional Campo do Jardim São Bento, na zona norte da capital. Acervo do Museu do Futebol/Coleção Otacílio Ribeiro Ribeiro/Reprodução Por que os campos deixaram o centro Com o avanço da urbanização, a prática foi deslocada para outras regiões da cidade, principalmente as mais afastadas. "Os campos passaram a se concentrar em regiões periféricas que estavam em processo de formação e consolidação, onde ainda existiam áreas disponíveis", explica Enrico. A partir dos anos 1970, a valorização imobiliária acelerou a ocupação de áreas antes destinadas ao futebol de várzea. "Foi um período de intensas transformações urbanas, quando os campos passaram a ser vistos como oportunidades de loteamento dentro do processo de expansão e especulação imobiliária", explica Enrico. Muitos deles deram lugar a conjuntos habitacionais, empreendimentos privados, vias de circulação e outros equipamentos urbanos. Os anos 1970 marcam uma nova etapa na história do futebol de várzea na cidade, em que a especulação torna-se ainda mais intensa. Registro do jogo do INCAPRE do Canindé disputado no campo da equipe Estrela do Pari, em 1971, entre a zona central e leste de São Paulo. O campo segue em funcionamento Acervo do Museu do Futebol/Coleção Otacílio Ribeiro Ribeiro/Reprodução Apesar de São Paulo ter suas particularidades, marcadas pela velocidade da expansão territorial e da urbanização, esse fenômeno não foi exclusivo. Dinâmicas semelhantes ocorreram em contextos metropolitanos em Belo Horizonte, MG; Porto Alegre, RS; e Salvador, BA. Uma das regiões que concentrava um grande número de campos de futebol de várzea ficava às margens do rio Pinheiros, onde hoje está localizado o Parque do Povo (à direita). No mapa de 1962 elaborado pelo CONDEPHAAT, cada número e área indicava um campo ativo na região. Atualmente, com a construção do parque, não restam registros nem campos remanescentes desse passado esportivo Condephaat (1988) - Artigo "Parque do Povo: um patrimônio do futebol de várzea em São Paulo", de Simone Scifoni/Reprodução; Agent010/Wikimedia Commons | Montagem: Casa e Jardim O caráter social do futebol Além da perda física dos terrenos, pesquisadores apontam impactos sobre a memória construída em torno dessas associações. "A expansão imobiliária e a transformação da infraestrutura urbana são processos que não só prejudicaram a longevidade das experiências associativas, mas contribuíram para que suas memórias fossem invisibilizadas", coloca Diana. Resgatar essa trajetória significa recuperar uma parte da história do urbanismo brasileiro frequentemente ausente das narrativas oficiais. "Pesquisar e entender a várzea é compreender a própria história das cidades, do processo de urbanização e de suas populações trabalhadoras, negras e imigrantes", afirma Enrico. Com a urbanização e a valorização dos terrenos nas zonas centrais, o futebol de várzea se expandiu para as periferias da cidade. No Campo Limpo, por exemplo, a estrutura social se organiza em torno do Centro Desportivo Comunitário Poringá — mais conhecido como ‘Campo Portuguesinha’, nome do time mais antigo do Parque Arariba, na zona sul de São Paulo Flickr/Milton Jung-Subprefeitura do Campo Limpo/Creative Commons A resistência que mantém a várzea viva Apesar de tudo, o futebol de várzea continua em São Paulo. Aos fins de semana, alguns campos seguem reunindo jogadores, torcedores e moradores. "De tempos em tempos surge o discurso de que o futebol de várzea acabou. Mas, ao contrário, a prática permanece, resistindo sobretudo nas periferias", pontua o pesquisador do Instituto Ludopédio. Existem, por exemplo, importantes e tradicionais campos estabelecidos em Heliópolis, Paraisópolis e Parelheiros, os três na zona sul, além de espaços na zona norte e na região leste — próximos a conjuntos habitacionais, como o de Guaianases. "Em muitos casos, a permanência desses espaços depende da capacidade das comunidades de demonstrar sua importância social diante das pressões urbanísticas e imobiliárias", salienta Aira. O Complexo Esportivo de Lazer e Cidadania do Campo de Marte — ou simplesmente Campo de Marte — é um espaço raro na cidade de São Paulo, reunindo seis campos de várzea lado a lado, cada um administrado por um clube amador diferente. Além dos gramados, o local abriga as sedes das respectivas agremiações, que funcionam como centros sociais e guardiões da memória desses times. Atualmente, o espaço é alvo de disputas judiciais com a Prefeitura Acervo do Museu do Futebol/Coleção Edson Sena/Reprodução Essa resistência assume diferentes formas e envolve desde a articulação com lideranças locais até a criação de projetos voltados para a comunidade. Para Diana, a capacidade de adaptação sempre foi uma característica marcante da várzea. "As práticas populares são sempre criativas e disruptivas em relação às formas estáveis de poder", afirma. Leia mais Apesar do reconhecimento crescente de seu valor cultural, muitos campos de várzea seguem em situação de vulnerabilidade. Um exemplo é o Aliança da Casa Verde, demolido em 2026 para dar lugar ao Parque Municipal Campo de Marte. O clube, liderado por Soraya Marques — uma das raríssimas mulheres à frente de um time de várzea — mantinha um espaço fundamental para o futebol feminino e para a população LGBTQIAPN+, tornando-se referência de diversidade e resistência na zona norte da capital. Registros do antigo campo Aliança da Casa Verde, na zona norte da capital, destacam sua importância para o futebol de várzea feminino em São Paulo. O espaço foi referência na promoção da modalidade e na valorização da participação das mulheres nos clubes amadores da cidade. Instagram/Soraya Marks/Reprodução | Montagem: Casa e Jardim Outro caso é o campo Cruz da Esperança, na Casa Verde. Fundado em 1958, na zona norte, tornou-se reconhecido por sua ligação com o samba rock paulista. Hoje, enfrenta o risco de perder tanto o campo quanto a sede. As pressões se intensificaram em março de 2026, com uma ação de reintegração de posse movida contra o clube em razão da implantação do Parque Municipal Campo de Marte. Para Aira, o território da várzea e a prática do futebol são espaços de aprendizado para compreender de forma mais ampla o direito à cidade. "Quando um campo desaparece, não se perde apenas um espaço esportivo: perde-se um ponto de encontro e aquilombamento, uma rede de solidariedade e uma memória coletiva. Se São Paulo não for capaz de proteger esses territórios, continuará apagando parte fundamental de sua própria história", reflete a pesquisadora.
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