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Augusto Ruschi: conheça a história do patrono da ecologia brasileira

Casa e Jardim | Sua casa linda do seu jeito [Unofficial] June 18, 2026
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Naturalista, ecologista e pesquisador científico, Augusto Ruschi (1915–1986) dedicou a vida ao estudo da biodiversidade brasileira enquanto a destruição das matas nativas avançava em ritmo acelerado. Conhecido como o Patrono da Ecologia no Brasil, sua trajetória ajuda a compreender o surgimento da conservação ambiental, com suas conquistas, tensões e contradições que ainda repercutem no presente do país. A natureza como origem do olhar científico de Augusto Ruschi Nascido em 1915, na cidade de Santa Teresa, na região serrana do Espírito Santo, a trajetória de Augusto Ruschi coincidiu com o avanço progressivo do desmatamento das florestas nativas da região. A relação de Augusto com a natureza começou muito antes da vida acadêmica e se consolidou a partir da convivência direta com a biodiversidade da região serrana capixaba, onde ele cresceu em contato constante com a floresta e suas dinâmicas ecológicas. Filho de imigrantes italianos e austríacos, ele transformou o entorno da casa da família em um espaço de observação. Um dos primeiros locais essenciais para a trajetória de Augusto Ruschi foi justamente onde nasceu, Santa Teresa, na região serrana do estado do Espírito Santo Pivotante/Wikimedia Commons "Ruschi desenvolveu esse interesse ainda menino, explorando as matas de forma autodidata e observando plantas e animais da região", afirma Alyne dos Santos Gonçalves, historiadora, pesquisadora do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) e curadora do arquivo de história da ciência da instituição. Nesse arquivo, é possível encontrar desenhos e registros feitos por Augusto ainda criança de espécies de orquídeas da região. Orquídea, da região de Santa Teresa, ilustrada por Augusto Ruschi aos 12 anos de idade em 10/02/1928 Fundo Augusto Ruschi do Arquivo de História da Ciência do INMA/Reprodução Uma trajetória que acompanhou a transformação da paisagem brasileira Naquele período, o Espírito Santo ainda preservava áreas pouco estudadas pela ciência, em parte devido à colonização tardia de determinadas regiões e à existência de remanescentes florestais. Porém, rapidamente essa paisagem se transformou. Entre as décadas de 1930 e 1980, mesmos anos em que Augusto viveu, há um momento de virada na história brasileira, com a transformação de um país rural para urbano. Leia mais "Ruschi vivencia, escreve e produz em um momento em que o Brasil sai de grandes áreas desocupadas para uma configuração de ocupação intensiva com a revolução industrial, que deixa marcas intensas e rápidas na paisagem", comenta Juliana Capra Maia, cientista social com doutorado em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília (UnB), e que estudou a trajetória do naturalista. Em seus trabalhos, Augusto narra cenas de degradação com o uso de correntões, em que grandes áreas de Mata Atlântica nativa davam espaço à produção de eucalipto, pinus e café. O pesquisador também já expunha a sua preocupação com a expansão dessas práticas para outras partes do país, como a região amazônica. Diante desse cenário, a sua formação como engenheiro agrônomo foi significativa para o desenvolvimento inicial das suas pesquisas. Essa carreira foi a forma que Augusto encontrou para adentrar o mundo das ciências e da vida pública, uma vez que a biologia ainda não estava estruturada como campo profissional no Brasil. Retrato de Augusto Ruschi na juventude. A pesquisa de campo sempre foi uma parte essencial do trabalho do ecologista Fundo Augusto Ruschi do Arquivo de História da Ciência do INMA/Reprodução "Essa perspectiva do agrônomo focado no aproveitamento dos recursos acabou transformando o técnico em um preservacionista, salientando a necessidade de estudar e conservar essas zonas, antes de desmatar", diz Juliana. Augusto Ruschi, no entanto, não foi o único de sua geração a discutir as questões ambientais. No início da década de 1920, um grupo de intelectuais — posteriormente rotulado como representante do "pensamento autoritário brasileiro" — defendia que o Estado precisava ser reorganizado por uma elite intelectual, da qual eles próprios faziam parte. Entre suas propostas estavam a adoção de uma gestão racional dos recursos naturais, o reconhecimento das riquezas da flora e da fauna e sua preservação. "Nomes como Alberto José Sampaio, Armando Magalhães Correia, Cândido de Mello Leitão e Frederico Carlos Hoehne já atuavam, sobretudo no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, e faziam parte dessa geração preocupada com a conservação ambiental", destaca José Luiz de Andrade Franco, professor da UnB e diretor do Centro de Estudos Avançados do Cerrado e da Fundação Pró-Natureza - Funatura. Ilustração do Açude Camorim por Magalhães Corrêa no livro O Sertão Carioca (1936) é uma das produções dessa geração de intelectuais que discutiam a preservação ambiental do Brasil no âmbito do Museu Nacional Magalhães Corrêa/Wikimedia Commons Os estudos de Augusto Ruschi: orquídeas, bromélias e beija-flores Embora seu nome tenha se tornado amplamente associado aos beija-flores no Brasil, o primeiro grande interesse científico de Augusto foi as orquídeas. A ligação com essas plantas vinha diretamente da convivência com o seu pai, que cultivava diversas espécies na Chácara Anita, propriedade que mais tarde daria origem ao Museu de Biologia Professor Mello Leitão. O principal estudo de Augusto Ruschi foi sobre as orquídeas da sua região natal. Orquídea nativa da serra de Santa Teresa, ES, descrita e esboçada por Augusto Ruschi Fundo Augusto Ruschi - Arquivo de História da Ciência do INMA/Reprodução Os estudos sobre as orquídeas foram aprofundados durante a sua passagem pelo Museu Nacional e sua colaboração na pesquisa de Heloísa Alberto Torres, pesquisadora na época diretora do Museu. As pesquisas foram reunidas no livro Orquídeas do Estado do Espírito Santo (1986), publicado já no período de maturidade de Augusto Ruschi. Porém, ao investigar os mecanismos de reprodução dessas plantas, Augusto passou a observar a relação entre flores e polinizadores, o que o levou progressivamente aos beija-flores. "Sua preocupação central era compreender a polinização de determinadas orquídeas realizada exclusivamente por essas aves", explica Alyne. Fotografias do acervo de Augusto Ruschi, reproduzidas no livro Orquídeas do Estado do Espírito Santo. À esquerda, fotos das espécies 'Cattleya amethystoglossa' e 'Cattleya guttata maculata'. À direita, exemplar da espécie 'Gongora bufonia' recebe abelhas 'Euglossa decora' para polinização Tese Juliana Capra Maia/Augusto Ruschi/Reprodução | Montagem: Casa e Jardim A partir das observações, o naturalista dedicou décadas ao estudo dos troquilídeos, família que reúne os beija-flores, buscando compreender seus hábitos alimentares, padrões de deslocamento e relações ecológicas com diferentes espécies vegetais. Esse trabalho resultou, em 1949, na formulação do termo "troquilogamia", utilizado para descrever a polinização realizada por essas aves. Seu trabalho ampliou o conhecimento sobre a biodiversidade brasileira e contribuiu para a descrição e catalogação de espécies em diferentes regiões do continente. "Ele teria estudado espécies tanto no Cerrado, quanto na Amazônia, durante algumas incursões que fez ali", diz Juliana. Ilustrações de Augusto Ruschi de duas espécies de beija-flor. À esquerda, parada nupcial do beija-flor de topete preto e, à direita, parada nupcial do beija-flor cinza Fundo Augusto Ruschi do Arquivo de História da Ciência do INMA/Reprodução | Montagem: Casa e Jardim A criação do Museu de Biologia Professor Mello Leitão A criação do Museu de Biologia Professor Mello Leitão, em 1949, representou um marco institucional na trajetória de Ruschi e na própria história da ciência no Espírito Santo. Instalado na antiga propriedade da família, o museu tornou-se um centro de referência para estudos da biodiversidade da Mata Atlântica. "O museu foi a primeira instituição de pesquisa sistemática em ciências naturais no estado", destaca Alyne. O museu expressava uma concepção integrada de conservação, segundo a qual proteger a natureza exigia necessariamente produzir conhecimento sistemático sobre ela. Essa mesma lógica foi aplicada à Estação Biológica de Santa Lúcia, adquirida pelo Museu Nacional em 1941 com a intermediação de Augusto Ruschi. A área se transformou em um importante laboratório de campo para estudos da Mata Atlântica. Atualmente, o museu integra o Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) e continua desempenhando papel relevante na preservação e divulgação científica. "Só a aquisição desses fragmentos de terra em si já foi um grande mérito, porque várias áreas vizinhas acabaram perdendo sua cobertura florestal e as áreas preservadas seguem sendo remanescentes florestais referências para estudos da Mata Atlântica", destaca Juliana. Conflitos, visibilidade pública e legado de Augusto Ruschi A atuação de Augusto não se restringiu ao campo científico, já que ele também participou ativamente de debates públicos, influenciou políticas de conservação e enfrentou interesses econômicos ligados ao desmatamento e à expansão de monoculturas. Tanto no campo científico, quanto na esfera pública, o ecologista enfrentava algumas críticas. Augusto Ruschi alimentando beija-flores durante pesquisa de campo. O estudo das aves derivou da investigação sobre o processo de polinização das orquídeas Fundo Augusto Ruschi do Arquivo de História da Ciência do INMA/Reprodução No campo institucional, Augusto enfrentava disputas internas. "O ecologista tinha alguns privilégios, podia permanecer em Santa Teresa, apesar de estar vinculado ao Museu Nacional, sediado no Rio de Janeiro, por exemplo, por conta de suas relações pessoais com membros da alta cúpula do Governo", conta José. Outro ponto eram os seus métodos de pesquisa. Uma das primeiras publicações de Augusto Ruschi sobre beija-flores no Museu foi contestada por um pesquisador francês, gerando questionamentos sobre seu trabalho. O episódio acabou afastando o ecologista das publicações científicas por um período, levando-o a divulgar suas pesquisas principalmente durante sua atuação no Museu de Biologia Professor Mello Leitão. Alguns métodos de pesquisa de Augusto Ruschi com os beijas-flores posteriormente foram questionado e são trazidos como críticas ao seu trabalho atualmente Fundo Augusto Ruschi do Arquivo de História da Ciência do INMA/Reprodução Alguns críticos diziam que Ruschi mantinha beija-flores em cativeiro em sua residência e na própria mata. "Muitas vezes, ele usava as espécies como estratégia midiática em eventos no qual era convidado para 'despertar o encantamento' pela temática da conservação", conta José. "Parte desses beija-flores eram recolhidos próximos a sua residência e levados a outros territórios, representando também uma ameaça de introdução de uma espécie nativa", complementa Juliana. Posteriormente, entre as décadas de 1960 e 1980, Augusto também passou a ocupar e pleitear espaços na imprensa, especialmente em debates sobre desmatamento, expansão do eucalipto, sobretudo no norte do Espírito Santo, e criação de áreas protegidas. Fotografia de Augusto Ruschi durante entrevista ao jornal O Pasquim, em outubro de 1977. Augusto tinha uma rede de contatos ampla e um grande espaço midiático, o que angariava visibilidade para as suas demandas e pautas Tese de Juliana Capra Maia/Augusto Ruschi/Reprodução | Montagem: Casa e Jardim Ainda que inicialmente vinculados a movimentos políticos mais conservadores, sua atuação também dialogou com movimentos sociais de esquerda e lideranças indígenas, sobretudo, após as expedições amazônicas, diante da sua preocupação ambiental e com a degradação. "O que parece ser uma contradição, na verdade, é uma consequência dos conhecimentos que acumulou e dos processos destrutivos da natureza e do consumo imediatista dos recursos ao longo do século 20 que vivenciou", destaca Juliana. "O Ruschi que ficou conhecido pelo grande público nem sempre corresponde à complexidade do personagem histórico", resume José. A Estação Biológica de Santa Lúcia (EBSL) é uma unidade de conservação e pesquisa localizada na região serrana do estado do Espírito Santo. Fundada a partir dos estudos do naturalista Augusto Ruschi, funciona como um campus avançado de pesquisa ligado ao INMA, fechada ao público geral Instagram/Projeto CEAMA/Reprodução Augusto Ruschi faleceu em 3 de junho de 1986, aos 70 anos, em Vitória, ES, em decorrência de uma cirrose hepática, um quadro de saúde que vinha se agravando há anos. A sua morte por um bom tempo também foi alvo de polêmicas. Durante expedição no Amapá, nos meses anteriores à sua morte, Augusto foi envenenado por um sapo e foi submetido a um ritual de cura pelo cacique Raoni e pajé Sapaim. Ainda que por muito tempo a sua morte tenha sido explicada por esse episódio, a história não passava de um mito, algo comprovado após a sua biópsia. Leia mais Apesar de contradições, Augusto Ruschi permanece como referência na história da conservação ambiental no Brasil por suas pesquisas e também pelas questões que diagnosticou na sua época e seguem latentes, como a destruição de terras nativas sem mapeamentos prévios e a extinção de espécies endêmicas (que só existem em determinado local). "Foi Augusto que ajudou a popularizar a ideia de que os seres humanos fazem parte de uma rede de relações ecológicas", ressalta Alyne. Sua atuação contribuiu para consolidar a importância da Mata Atlântica como objeto científico e político. Em 1994, foi concedido a ele o título de Patrono da Ecologia do Brasil, como reconhecimento de sua trajetória e contribuições.

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