Como cultivar lavanda no Brasil: guia completo para ter flores perfumadas
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June 11, 2026
Não é à toa que a lavanda é uma das plantas mais desejadas no paisagismo por perfumar e colorir o jardim, equilibrando delicadeza visual e força rústica. Mais do que um elemento decorativo, o gênero Lavandula une versatilidade e sofisticação, destacando-se tanto em vasos minimalistas na varanda quanto em grandes maciços no quintal. Origem e variedades do gênero Originárias de uma vasta região que abrange a bacia do Mediterrâneo, a Macaronésia, o norte e leste da África, o sul da Europa, a Península Arábica e a Índia, as lavandas prosperam sob sol pleno, invernos amenos e secas prolongadas. No mundo, as variedades mais cultivadas dividem-se em grupos, que diferem na intensidade do aroma, no formato das flores e na preferência climática. "O gênero Lavandula possui cerca de 45 espécies conhecidas e centenas de variedades e cultivares desenvolvidas ao longo dos anos. Algumas das mais populares são a Lavandula dentata (lavanda-dentada), a Lavandula angustifolia (lavanda-inglesa ou verdadeira), a Lavandula stoechas (lavanda-espanhola) e a Lavandula × intermedia (lavandin)", afirma a paisagista Clariça Lima. Adaptação de cultivo de lavandas no Brasil Nesta varanda, a lavanda, localizada na parte central do canteiro, pode ser identificada por sua folhagem de textura mais fina e acinzentada, que contrasta com o verde-escuro brilhante das outras plantas Denilson Machado/MCA Estúdio/Divulgação | Paisagismo de Clariça Lima Em solo nacional, a planta se desenvolve muito bem no sul e no sudeste, especialmente em áreas serranas. "A Lavandula dentata é a que costuma apresentar melhor adaptação ao clima brasileiro e, por isso, é uma das mais utilizadas em jardins e projetos paisagísticos", revela Clariça. O desenvolvimento ganha ainda mais força em zonas elevadas. "Em regiões de altitude, como a Serra Gaúcha, o sul de Minas e a Serra da Mantiqueira, a lavanda se desenvolve com muito mais vigor. O frio do inverno, a amplitude térmica e a menor umidade relativa do ar criam condições próximas às de seu habitat original", argumenta Júlio Sousa, biólogo e paisagista à frente do Studio Júlio Sousa. Leia mais Contudo, o sucesso do cultivo exige atenção às particularidades regionais. "Em locais muito quentes e úmidos, especialmente no litoral e em regiões tropicais, algumas variedades podem apresentar menor vigor e floração reduzida. Ainda assim, com boa drenagem, bastante sol e cuidados adequados, é possível cultivar lavandas com sucesso em diversas partes do país", ressalta CIariça. A lavanda adiciona cor e aroma à área de descanso e convívio com o Puff Fun Joy Eco Flame Garden, que é cercada por guaimbé, árvore-sete-copas e capim-do-texas-rubro Anita Soares/Divulgação | Paisagismo de Júlio Sousa Um dos maiores desafios nesses ambientes é o controle da água. "O excesso de umidade favorece o aparecimento de fungos na base do caule, que é a principal causa de morte da lavanda no Brasil. Não significa que seja impossível cultivá-la nessas regiões, mas exige manejo mais cuidadoso como substrato com alta taxa de drenagem, boa circulação de ar e escolha criteriosa da variedade", adverte Júlio. Características do gênero Lavandula O ambiente do spa traz o perfume da lavanda em harmonia com a presença da pitangueira, dos agapantos e da cerca de tumbérgia-arbustiva Renato Navarro/Divulgação | Paisagismo desenhado por Catê Poli As lavandas apresentam um aspecto delicado e elegante. "Possuem porte geralmente compacto, entre 40 cm e 1m de altura. As folhas são estreitas, alongadas e de coloração verde-acinzentada. A folhagem é levemente aveludada. Possui aroma intenso e característico. Mesmo quando não estão floridas, as plantas mantêm interesse ornamental graças à beleza da folhagem", descreve Clariça. "A ramificação é densa e parte da base, formando uma touceira arredondada que, com o tempo, adquire caule lenhoso na porção inferior. Essa tonalidade característica é resultado de uma densa camada de tricomas, estruturas microscópicas que funcionam como reflexores de luz e redutores de perda hídrica, uma adaptação direta ao clima seco de origem. A Lavandula stoechas se diferencia das demais pela presença de brácteas ornamentais no ápice da espiga, que lembram pequenas orelhas e conferem um aspecto altamente decorativo", detalha Júlio. Como usar a lavanda no paisagismo A lavanda é extremamente versátil no paisagismo. "Pode ser utilizada em maciços floridos, bordaduras ao longo de caminhos, jardins mediterrâneos, contemporâneos e minimalistas, vasos e floreiras, e em composições com gramíneas ornamentais e plantas de textura mais grosseira. Além disso, seu porte compacto ajuda a preencher espaços de forma organizada e visualmente agradável", elenca Clariça. A lavanda envolve o deque de madeira de pinus autoclavado acompanhada por guaimbé e capim-do-texas-rubro Anita Soares/Divulgação | Paisagismo do Studio Júlio Sousa A profissional destaca, ainda, que a planta também enriquece a paleta de cores do ambiente: "Suas flores em tons de azul, lilás e violeta criam contrastes elegantes com plantas de flores amarelas, brancas e rosadas. Sua folhagem acinzentada também ajuda a compor jardins mais sofisticados e harmoniosos". Maciços de lavanda e moreia-branca compõem a entrada deste projeto, que também conta com uma jabuticabeira próxima ao bicicletário Evelyn Müller/Divulgação | Paisagismo de Alexandre Furcolin Outro ponto forte é o equilíbrio visual e a paginação do espaço. "Em relação à textura, a folhagem linear e delicada da lavanda equilibra composições com plantas de folhas largas e brilhantes. A Lavandula dentata, por seu crescimento mais vigoroso no clima brasileiro, é especialmente útil para volumetria em projetos de médio porte. Um recurso que utilizo com frequência é o plantio em grupo de número ímpar, criando manchas de cor que ganham leitura a distância e estabelecem ritmo na composição", comenta Júlio. Leia mais Como cuidar do gênero Lavandula Maciços de lavanda e maranta-charuto compõem a fachada junto ao jardim vertical executado pelo Lapagarden, que tem como espécie principal o aspargo-alfinete Wesley Diego/Editora Globo | Paisagismo por Lapagarden O gênero Lavandula é conhecido por fácil cultivo e baixa manutenção desde que receba as condições adequadas. Confira os cuidados recomendados pelos paisagistas: Solo: leve, bem drenado e rico em matéria orgânica, com pH levemente alcalino, entre 6,5 e 7,5. Luz: sol pleno por pelo menos seis horas diárias. Em ambientes sombreados, a planta estiolada perde densidade, aroma e resistência. Temperatura: temperaturas amenas a quentes. Algumas espécies, como a Lavandula angustifolia, toleram geadas leves. Outras, como a Lavandula dentata, preferem climas mais amenos sem extremos de frio. Substrato: incorporar areia grossa ou perlita, numa proporção de pelo menos 30%. Em substratos argilosos e retentores de umidade, o sistema radicular sofre rapidamente. Adubação: moderada, com preferência por formulações ricas em fósforo e potássio, que favorecem a floração e a resistência. O excesso de nitrogênio estimula crescimento vegetativo excessivo em detrimento das flores. Rega: moderada, evitando excesso de umidade para não causar apodrecimento das raízes. A rega frequente em solo mal drenado é a combinação mais letal para esse gênero. Podas: periódicas após a floração para estimular novos brotos e manter a planta compacta. Vaso ideal para lavandas Entre os vasos de cerâmica artesanal rústica da Alguidar, a lavanda ganha destaque ao lado de espécies como dinheiro-em-penca, chuva-de-prata, camarão-gigante, filodendro-ondulado, alecrim e oliveira Renato Navarro/Divulgação | Paisagismo por Clariça Lima As lavandas se desenvolvem muito bem em vasos. "Os recipientes ideais devem possuir boa profundidade e furos eficientes para drenagem. Vasos de barro ou cerâmica costumam ser os mais recomendados, pois ajudam a eliminar o excesso de umidade do solo. Para a maioria das variedades, vasos com pelo menos 30 a 40 cm de diâmetro e profundidade já proporcionam um bom desenvolvimento", indica Clariça. "O furo de drenagem é inegociável. Coloco sempre uma camada de seixos ou cacos de telhas no fundo, antes do substrato, para garantir que o excesso de água escoe com eficiência. Em varandas, a lavanda em vaso funciona muito bem agrupada com outras plantas mediterrâneas, como o tomilho e o alecrim. Além da coerência estética, essas espécies compartilham as mesmas exigências de cultivo, o que simplifica a manutenção", reforça Júlio. Como fazer mudas de lavandas Na estufa, uma grande bancada e prateleiras comportam vasos floridos de lavanda, hortênsias, brinco-de-princesa vermelho, orquídeas e petúnia Carolina Lacaz/Divulgação | Projeto do escritório Angá Arquitetura De acordo com Júlio, agosto e setembro são os meses mais indicados para iniciar a propagação, aproveitando o aumento progressivo da temperatura e luminosidade com a chegada da primavera. A forma mais comum é por estaquia, utilizando pequenos ramos retirados de plantas saudáveis. "A propagação por sementes é tecnicamente mais trabalhosa. As sementes do gênero Lavandula apresentam dormência variável e taxa de germinação irregular, o que torna o processo menos previsível para quem não tem estrutura de viveiro", ele justifica. Clariça ensina o passo a passo clássico da estaquia: Corte um ramo sem flores. Retire as folhas da parte inferior. Plante em substrato leve e bem drenado. Mantenha o solo levemente úmido até o enraizamento. "O enraizamento ocorre em média entre 30 e 45 dias, em ambiente protegido do sol direto e do vento. O uso de hormônio enraizador à base de ácido indolbutírico (AIB) aumenta a taxa de sucesso, mas não é indispensável. O que mais influencia o resultado é a qualidade do ramo selecionado e a consistência na manutenção da umidade do substrato durante o período de enraizamento", enfatiza Júlio. Leia mais Floração das lavandas A lavanda, junto ao fórmio e à pata-de-elefante, preenche os vasos de terracota em uma composição que se une às floreiras de aço corten com clúsias para trazer privacidade ao espaço Renato Navarro/Divulgação | Paisagismo por Patrícia França A época de floração pode variar conforme a espécie, a região e as condições climáticas. "De forma geral, a lavanda floresce principalmente entre a primavera e o verão. Suas flores pequenas agrupadas em espigas. A coloração varia entre lilás, violeta, azul e, ocasionalmente, branco", diz Clariça. "A floração é naturalmente atrativa para abelhas e borboletas, o que adiciona dinâmica faunística ao jardim. A Lavandula dentata, por sua maior adaptabilidade ao clima brasileiro, pode apresentar floração intermitente ao longo de boa parte do ano", acrescenta Júlio. Colheita das flores de lavanda para uso aromático Para fins aromáticos, o momento ideal de colheita das lavandas é quando cerca de metade das flores da espiga já abriu. "É nessa fase que a concentração de óleos essenciais está no ponto mais alto, o que garante maior intensidade e durabilidade do aroma", pontua Júlio. Neste projeto, vasos perto da janela reúnem lavanda e outras ervas frescas para colheita, como dois tipos de manjericão, alecrim, orégano e tomilho Lufe Gomes/Editora Globo | Projeto do arquiteto Leo Romano Clariça orienta como realizar esse processo de maneira correta: "Aguarde o momento em que a maioria dos botões estiver aberta. Corte as hastes florais pela manhã, após o orvalho secar. Utilize tesouras limpas e bem afiadas. A colheita regular ajuda a estimular novas florações e contribui para manter a planta mais saudável e bonita". "Recomenda-se cortar o pedúnculo logo acima do segundo par de folhas, o que estimula a emissão de novos brotos florais. Para secagem, os ramos devem ser amarrados em pequenos maços e pendurados com as flores voltadas para baixo, em local seco, ventilado e com pouca incidência de luz direta. O processo leva em média duas semanas e preserva bem tanto a cor quanto o aroma", complementa Júlio.
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