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  "textContent": "\nO paisagista Roberto Burle Marx teve uma importante — embora por vezes esquecida — atuação na cidade do Recife, em Pernambuco, ao longo da década de 1930. Sobretudo, enquanto chefe do Setor de Parques e Jardins do Departamento de Arquitetura e Urbanismo do Governo do Estado, o paisagista concebeu e reformou vários jardins urbanos. O livro Inventário dos Jardins de Burle Marx no Recife - Jardins Públicos (2017), da Editora UFPE, busca registrar e documentar esses espaços. O e-book foi uma iniciativa do Laboratório da Paisagem do Departamento de Arquitetura e Urbanismo (DAU) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A publicação reúne registros históricos, levantamentos botânicos, análises arquitetônicas e documentação técnica de jardins públicos projetados por Roberto Burle Marx no Recife ao longo do século 20. O trabalho começou a ser desenvolvido ainda nos anos 1990, quando pesquisadores da UFPE perceberam que parte dos jardins criados pelo paisagista estava descaracterizada ou em situação de abandono. \"Começamos a enxergar a riqueza que existia nesses espaços e a necessidade de preservar essa memória\", afirma Ana Rita Sá Carneiro, arquiteta e urbanista, professora da UFPE e, na época, coordenadora do Laboratório. O livro Inventário dos Jardins de Burle Marx no Recife foi publicado em 2017 pela editora da UFPE Editora UFPE/Divulgação Um documento sobre jardins históricos Ao longo da publicação, o inventário detalha espécies vegetais, desenhos originais, mobiliário urbano, sistemas de drenagem, esculturas e alterações sofridas pelos jardins ao longo das décadas. Leia mais Nesse primeiro momento e volume, foram escolhidos os seis jardins mais representativos do paisagista em Recife: a Praça de Casa Forte (1935), a Praça Euclides da Cunha (1935), a Praça do Derby (1936), a Praça da República e o Jardim do Campo das Princesas (1936), a Praça Salgado Filho (1957) e a Praça Faria Neves (1958). A Praça da República e o Jardim do Palácio do Campo das Princesas estão localizados no centro do Recife, e formam um tombado conjunto histórico e paisagístico com projeto de Roberto Burle Marx. O local é famoso por seus espelhos d'água, árvores centenárias — incluindo um imponente baobá — e abriga a sede oficial do Governo de Pernambuco Editora UFPE/Acervo da Prefeitura do Recife/Divulgação Um dos casos mais emblemáticos é a Praça Euclides da Cunha, inspirada na paisagem da caatinga nordestina. Nela, Burle Marx usou diferentes espécies de cactáceas e plantas adaptadas ao clima semiárido, rompendo com os modelos europeus então predominantes no Brasil. Com isso, trouxe para o centro do Recife a luminosidade, as texturas e a vegetação características do sertão brasileiro. A publicação mostra ainda que o jardim foi organizado em três anéis concêntricos e incorporava caminhos de pedra, esculturas e vegetação típica da caatinga, criando uma paisagem inédita para a época. A Praça de Casa Forte (1935) destaca-se por lagos e espelhos d'água com vitórias-régias e plantas tropicais nativas da Amazônia Editora UFPE/Divulgação Outro destaque é a Praça de Casa Forte, considerada uma das primeiras experiências modernas de Burle Marx no Recife. O projeto incorporava espelhos d’água e conjuntos vegetais inspirados em diferentes ecossistemas brasileiros, especialmente espécies tropicais e plantas aquáticas. Esses jardins marcaram uma ruptura importante no paisagismo brasileiro ao valorizar a flora nacional em vez de reproduzir modelos ornamentais europeus. \"Burle Marx transformou as plantas brasileiras em protagonistas dos jardins\", resume Mirela Carina Rego Duarte, professora da UFPE, pesquisadora e atual coordenadora do Laboratório da Paisagem. A Praça do Derby é um marco histórico localizado na área central do Recife, PE. Construída em 1925, antecede o paisagismo moderno brasileiro e foi recentemente revitalizada Editora UFPE/Revista de Pernambuco/Divulgação; Editora UFPE/Dourado/Divulgação | Montagem: Casa e Jardim A construção do inventário e seus desafios Os impulsos iniciais do projeto se deram ainda em 2000, quando pesquisadores do Laboratório desenvolveram uma pesquisa sobre os espaços livres da cidade. A partir desta, percebeu-se uma significativa participação de Burle Marx na concepção dessas áreas e a necessidade de recuperação, principalmente de três jardins. Em 2003, a Prefeitura e o Laboratório estabeleceram uma parceria para restaurar o jardim da Praça Euclides da Cunha. Para isso, os pesquisadores buscaram a investigar de que forma fazer esse tipo de restauro exigido pelos jardins históricos. A Praça Euclides da Cunha (1935) foi o primeiro jardim essencialmente brasileiro na área chamada de Largo do Viveiro, o que sugere um local apropriado para tal iniciativa. À esquerda, a praça já restaurada e, à direita, plantas de levantamento da vegetação da praça Editora UFPE/Laboratório da Paisagem/Divulgação | Montagem: Casa e Jardim Foram estabelecidos contatos e parcerias com instituições como bibliotecas, acervos, arquivos municipais, o escritório Burle Marx e o Sítio Roberto Burle Marx, com o objetivo de recuperar documentos, plantas baixas e desenhos originais, então escassos. Os trabalhos já desenvolvidos por Ana Rita e Liana Mesquista, professora da UFPE, paisagista e ecóloga também foram fundamentais. Com essa pesquisa inicial, começou a ser desenhado o projeto do inventário, a partir de bases conceituais e definições do arquiteto mexicano Saúl Alcantara Onofre, e da historiadora argentina Sonia Berjman. Ele foi fundamental não só como registro histórico e paisagístico, como também em prol da preservação e recuperação dos jardins. O material foi utilizado como parte da documentação anexada ao pedido de tombamento dos jardins inicialmentes selecionados de 2008, concedido de maneira definitiva pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em 2017. Roberto Burle Marx projetou a Praça Faria Neves no contexto do Programa de Construção de Praças e Parques Públicos, sob a responsabilidade do Departamento de Bem-Estar Público, no governo do prefeito Pelópidas da Silveira, em Recife. Fotografia da inauguração da praça Editora UFPE/Acervo do Museu da Cidade do Recife/Divulgação O trabalho ajudou a consolidar a ideia de que jardins também devem ser entendidos como patrimônio cultural da cidade e do país. A pesquisa também ampliou o debate sobre preservação paisagística no Recife, especialmente diante do avanço da verticalização e das transformações urbanas em áreas históricas, com retirada de espécies vegetais originais, mudanças nos traçados e instalação de novos elementos dos jardins, sem critérios de preservação. Sem acesso completo aos projetos originais de Burle Marx, para alguns jardins, a equipe precisou construir parte da pesquisa a partir de arquivos públicos, fotografias antigas e depoimentos de moradores. \"Nós tivemos que entender o que era fazer um inventário de jardim histórico no Brasil, porque praticamente não existiam referências nacionais para isso\", explica Ana. Durante a restauração da Praça Faria Neves, no bairro de Dois Irmãos, moradores ajudaram a reconstruir partes do desenho original do jardim a partir da memória afetiva construída ao longo de décadas. Essa participação mostrou que os jardins históricos também funcionam como espaços de convivência e pertencimento coletivo. O projeto da Praça Ministro Salgado Filho foi concebido como uma unidade plástica que surpreendia pela imponência e diversidade da vegetação, bem como pela beleza dos espaços criados, ampliados pelo espelho d’água, seu elemento focal. Jardim do aeroporto, 1958. Fotografia da Infraero Editora UFPE/Acervo do Laboratório da Paisagem-UFPE/Divulgação Jardins privados entram em nova etapa da pesquisa A pesquisa atualmente está em uma nova fase com o desenvolvimento de um segundo volume ainda voltado para os jardins públicos, com o inventário de mais nove jardins, e uma outra publicação focada nos jardins privados projetados por Roberto Burle Marx. Muitos desses espaços ainda permanecem pouco documentados e podem ampliar a compreensão sobre a atuação do paisagista no Nordeste. A praça Maciel Pinheiro é um dos jardins públicos inserido no segundo volume do inventário de jardins urbanos de Burle Marx em Recife, ainda em fase de finalização Abdias Jr/Wikimedia Commons A nova etapa do inventário pretende mapear residências, casarões e propriedades particulares que receberam projetos assinados por Burle Marx ao longo do século 20. O trabalho envolve levantamento histórico, identificação de espécies vegetais originais, análise de desenhos paisagísticos e entrevistas com proprietários e antigos moradores. Vários desses jardins sofreram transformações profundas ao longo dos anos, seja por reformas arquitetônicas, mudanças de uso dos imóveis ou ausência de manutenção especializada. \"O jardim privado é mais vulnerável, porque depende diretamente das decisões dos proprietários. Muitos acabaram desaparecendo antes mesmo de serem documentados\", destaca Mirela. Além de ampliar o inventário, os pesquisadores estão buscando entender como Burle Marx adaptava suas soluções paisagísticas aos modos de morar, ao clima e à vegetação nordestina. \"Alguns jardins residenciais funcionavam como espaços de experimentação para ideias que depois apareceriam em projetos públicos. Existe uma liberdade muito grande nesses jardins privados, principalmente na integração entre arquitetura, arte e vegetação tropical”, explica Mirela. Roberto Burle Marx teve uma atuação intensa no nordeste brasileiro, projetando e executando inúmeros jardins. Na cidade do Recife, a sua participação mais ativa foi na década de 1930 Arquivo Nacional - Fundo Agência Nacional/Wikimedia Commons O papel da figura do jardineiro e de seus saberes tem sido um aspecto percebido de uma forma cada vez mais significativa nessas e em demais pesquisas do grupo. \"O jardineiro faz parte desse processo de conservação dos jardins e tem um papel fundamental, ainda que pouco valorizado e reconhecido, visto que nas próprias administrações municipais brasileiras, são poucas as que contam com um cargo específico previsto nos quadros de contratação\", salienta Ana. Para além dos inventários, o Laboratório atua em ações de aproximação dos temas e debates da Universidade com a população mais ampla, com a produção de cartilhas sobre os jardins históricos da cidade e iniciativas como a Semana Burle Marx, que celebra a vida e obra do paisagista. O Laboratório da Paisagem realiza diferentes ações com escolas locais, como 'A paisagem do jardim desdobrada em patrimônio', realizada na Praça Faria Neves, em Recife Instagram/Laboratório da Paisagem/Reprodução Segundo levantamento feito pelo Laboratório em 2017, as pesquisadoras estimam a existência de mais de 50 jardins atribuídos a Burle Marx em Pernambuco e cerca de 150 em todo o Nordeste — muitos deles ainda sem levantamento técnico detalhado. Para as pesquisadoras, preservar esses jardins significa também preservar a relação das cidades com a natureza e com sua própria memória. \"Os jardins humanizam a cidade, criam espaços de encontro, convivência e bem-estar\", reflete Mirela. A atuação do Laboratório e dessas pesquisas também vão de encontro em valorizar e recuperar o legado do paisagista. Leia mais \"Descobrir esses jardins e dar a devida importância a eles e a Burle Marx é uma luta constante; é algo que precisa ser cuidado cotidianamente, porque o jardim é esse espaço vivo. Se essa consciência diante desses patrimônios paisagísticos não for continuamente fomentada, é algo que se esquece, uma chama que se apaga muito fácil\", ressalta Ana. O livro está disponível para download gratuito no site da Editora UFPE.",
  "title": "Inventário resgata jardins de Burle Marx e fortalece preservação no Recife"
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