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  "textContent": "\nArcos, azulejos, pátios internos e treliças de madeira são alguns dos elementos que evidenciam as influências árabes na arquitetura brasileira. A presença deles provém de um processo histórico longo e indireto: tais recursos chegaram ao país já reinterpretados e integrados à tradição construtiva ibérica, sobretudo a partir do século 16. Durante quase 700 anos, a Península Ibérica esteve sob domínio islâmico, especialmente no período de Al-Andalus — denominação do território muçulmano entre 711 e 1492 —, deixando marcas profundas na cultura material e na arquitetura local. Durante a colonização do Brasil, os portugueses trouxeram técnicas, materiais e soluções espaciais hibridizadas, resultado dessa longa integração cultural. \"O que se observa é a incorporação de elementos já reinterpretados pela tradição construtiva portuguesa, que os adaptou às suas próprias práticas ao longo do tempo. Um ponto fundamental para evitar leituras simplificadoras\", ressalta Ana Raquel Marques da Cunha Martins Portugal, professora de História da América Antiga e Colonial da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita (Unesp). O Sobrado Mourisco, localizado em Olinda, PE, evidencia as influências árabes por meio das bancadas externas nas janelas e dos painéis de muxarabi. O projeto é do século 17 e não tem autoria identificada Prefeitura de Olinda/Wikimedia Commons Essa influência é bem perceptível entre os séculos 16 e 18, quando se popularizam as técnicas de taipa, a azulejaria, as treliças, os muxarabis, os arcos lobulados em ferradura ou com efeito mihrab, além das texturas rendilhadas. Um exemplo é o Sobrado Mourisco, em Olinda, PE, erguido no século 17 com detalhes rendilhados na sacada. Leia mais Um período marcante foi o fim do século 19 e o início do 20. Além do forte fluxo migratório árabe a partir de 1880, principalmente de origem sírio-libanesa, segundo a arquiteta e urbanista Anna Beatriz Bassalo Aflalo, nesse momento houve o crescimento do neomourisco, estilo inspirado na arte e arquitetura árabe medieval, o qual surgiu dentro do ecletismo — movimento arquitetônico caracterizado pela mistura de diferentes estéticas. Os azulejos, os arcos e os painéis vazados são elementos marcantes da arquitetura árabe que, após adaptações na Península Ibérica, chegaram ao Brasil com a colonização portuguesa, já reinterpretados e integrados ao repertório construtivo local Pexels/Reyyan/Creative Commons O neomourismo abraçou também referências da arquitetura que predominava na região de Andaluzia, na Espanha. Por exemplo, formas ogivais (arcos pontiagudos), decoração geométrica, azulejaria, rendilhados e cúpulas bulbosas — cuja forma lembra uma cebola — vistos no palácio de Alhambra, em Granada, e antigas construções do Império Otomano. O estilo neomourisco, inspirado pelo orientalismo, surgiu como uma tentativa da cultura europeia de se aproximar da estética do Oriente. No Brasil, um dos exemplos mais emblemáticos desse tipo de construção foi o Pavilhão Mourisco, localizado no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. O edifício, com seus arcos, cúpulas e ornamentos característicos, marcou a paisagem carioca até ser demolido entre 1950 e 1952 para dar lugar à construção do Túnel do Pasmado. Projetado pelo arquiteto Alfredo Burnier Instagram/rioantigo/Reprodução Um importante marco foi o Pavilhão Mourisco, inaugurado em 1907 na Praia de Botafogo, no Rio de Janeiro. Projetado pelo arquiteto Alfredo Burnier, contava cinco cúpulas douradas, azulejos espanhóis e inscrições árabes. Serviu como restaurante, casa de chás e espaço cultural até 1952, quando foi demolido para permitir a construção do Túnel do Pasmado. A necessidade de adaptações dos elementos mouriscos no Brasil Em função da disponibilidade dos materiais e das características climáticas, as técnicas árabes incorporadas no território brasileiro passaram por adaptações, sendo incorporadas às dinâmicas sociais. \"Os pátios internos se abriram para jardins tropicais, tornando-se espaços de convivência ao ar livre, já os arcos foram incorporados em igrejas coloniais e palacetes, muitas vezes com mais ornamentação\", comenta Renata de Figueiredo, arquiteta e urbanista, professora do curso técnico do Senac EAD. O Castelo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em Manguinhos, no Rio de Janeiro, projetado pelo arquiteto Luiz de Moraes Júnior, evidencia de forma marcante os traços de inspiração mourisca. Sua arquitetura se destaca pelos arcos, cúpulas e ornamentos que remetem ao repertório árabe reinterpretado Econt/Wikimedia Commons Os azulejos também passaram por um processo de ressignificação. Em Portugal, eram utilizados com funções decorativas e de proteção da alvenaria. \"No Brasil, o uso é intensificado e adquire maior relevância climática, sendo amplamente aplicado em superfícies externas como estratégia de proteção térmica e contra a umidade\", salienta Ana Raquel. Outra característica é que, enquanto no período colonial os elementos árabes eram mais comuns na arquitetura religiosa e residencial, no período em que o ecletismo estava em alta eles passaram a se destacar sobretudo nos estabelecimentos comerciais. O Teatro Riachuelo, no Rio de Janeiro, projetado pelo arquiteto Adolfo Morales de los Rios, mantém sua fachada histórica, em contraste com tantas outras construções já demolidas na cidade que carregavam marcas da influência árabe na arquitetura Fulviusbsas/Wikimedia Commons Onde é possível ver influências árabes na arquitetura histórica brasileira Sobrado Mourisco (século 17), em Olinda, PE, projeto de autoria não identificada; Teatro Riachuelo (1890), no Rio de Janeiro, RJ, projetado pelo arquiteto Adolfo Morales de los Rios; Palacete Faciola (1895), em Belém, PA, projetado pelo arquiteto e desenhista paraense José de Castro Figueiredo; Palacete Mourisco (1896), em São Paulo, SP, projetada pelos engenheiros Augusto Fried e Carlos Ekman, na Avenida Paulista e demolido em 1982; Solar do Barão do Guajará (final do século 19), em Belém, PA, projeto de autoria não identificada; Castelo da Fundação Oswaldo Cruz - Fiocruz (1905), em Manguinhos, RJ, projetado pelo arquiteto Luiz de Moraes Júnior; Caixa Cultural Recife (1912), em Recife, PE, projetado pelo arquiteto Georges Henry Munier; Palácio do Comércio (1913), em Recife, PE, projetada pelo arquiteto Georges Henri Mounier, com colaboração técnica de José Luís da Mota Menezes; Mesquita Brasil (1929), em São Paulo, SP, projetada pelo arquiteto Abdallah Abdelshakour. O Solar Barão de Guajará, também conhecido como Casa à Praça Pedro II, é um solar situado em Belém, PA, construído no século 19 com três pavimentos Facebook/Brazil Imperial/Reprodução Houve, ainda, a renovação de estruturas já existentes com influências árabes, a exemplo da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Lapinha (1771), em Salvador, BA. Na década de 1930, passou por uma ampla reforma liderada por Frei Leão Uchoa para incorporar elementos neumouriscos. Incorporação de elementos árabes no Brasil contemporâneo Sobretudo em projetos que valorizam a ventilação cruzada, a iluminação natural e a integração entre espaços internos e externos, a herança árabe segue viva na arquitetura brasileira. \"Embora muitas vezes desvinculados de sua origem histórica, alguns recursos arquitetônicos e de design mantêm princípios que dialogam com soluções desenvolvidas em contextos árabes e mediterrânicos\", salienta Ana Raquel. Leia mais Entre os exemplos estão brises e cobogós. \"Esses elementos vazados, descendentes diretos do muxarabi, funcionando como bloqueadores de chuva e visibilidade, mas não impedindo a iluminação e ventilação naturais\", diz Anna Beatriz. Nesta casa, o painel de muxarabi em caibro de tauari recebe quem chega, assim como o pórtico de mosaico de mármore bege Bahia em lascas Ana Pachecco/Divulgação | Projeto do escritório Andrade Oliveira Arquitetura Brasileira Os pátios internos contemporâneos, por sua vez, retomam a ideia de vazio central como dispositivo climático e de privacidade. O pátio organiza os dois volumes desta casa em torno de um jardim de folhagens. O painel da fachada é de brises de madeira ecológica Carolina Lacaz/Divulgação | Produção: Miú Interiores/Divulgação | Projeto dos arquitetos Kiko Castello Branco e Lucas Cunha Já a azulejaria modernista e contemporânea ressignifica a tradição portuguesa e, indiretamente, mourisca. \"A retomada dos alpendres, beirais largos, varandas, e texturas rendilhadas de madeira e marchetaria na arquitetura amazônica contemporânea e vernacular também são exemplos\", ressalta Anna Beatriz.",
  "title": "Essas são as influências árabes na arquitetura brasileira que você nunca estudou"
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