Como proteger sua casa do caracol africano
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May 15, 2026
Durante a temporada de chuvas, um velho problema urbano reaparece em quintais, jardins e terrenos baldios: o avanço do caracol africano. Conhecida cientificamente como Achatina fulica, a espécie encontra no clima úmido as condições ideais para se reproduzir rapidamente — e pode se transformar em uma infestação difícil de controlar. “O caracol africano tem relevância epidemiológica por ser o principal hospedeiro intermediário do Angiostrongylus cantonensis, parasita responsável pela meningite eosinofílica”, conta Carlos Fernando Rocha, biólogo do Laboratório de Entomologia Médica da Unidade de Vigilância em Zoonoses (UVZ) de Maceió. A espécie costuma ter coloração marrom, com listras mais claras, podendo chegar a 20 centímetros de comprimento. “Esses caracóis vivem em estado de dormência durante períodos secos ou de frio, esperando o retorno das chuvas para voltar à atividade”, explica Carlos. Jardins com excesso de folhas, entulhos e matéria orgânica favorecem o aparecimento do caracol africano J.M.Garg/Wikimedia Commons As chuvas favorecem a saída desses moluscos da terra. O momento em que esses animais emergem varia a depender da região, geralmente acompanhando períodos chuvosos. Leia também No sudeste, por exemplo, a aparição dos caracóis pode se dar durante a primavera e o verão, de meados de outubro a março. Já no nordeste, o período de chuva se concentra entre abril e julho – meses de alerta em relação à espécie. "Ele se prolifera com facilidade, principalmente em jardins, quintais úmidos e locais com matéria orgânica, o que faz com que esteja muito próximo da rotina doméstica", diz Bruno Maia Domingues, professor de Biologia do Senac São Paulo. Períodos de chuva e ambientes úmidos favorecem a proliferação da espécie 'Achatina fulica', que costuma se esconder em locais sombreados e com matéria orgânica Marcos Simanovic/Wikimedia Commons A transmissão de doenças acontece pela ingestão do parasita, não do caracol. A contaminação pode se dar através do consumo de verduras e vegetais mal-higienizados, já que o caracol pode passar pela horta, expelindo muco junto às larvas do parasita. A contaminação pode ocorrer caso uma pessoa toque no caracol ou em seu muco e depois leve as mãos à boca, sem as higienizar. Esse risco é maior para crianças que podem estar brincando no jardim, por exemplo. O vetor pode carregar dois principais parasitas, resultando em duas doenças possíveis: Meningite eosinofílica: causada pelo parasita Angiostrongylus cantonensis, a doença ocasiona a inflamação das meninges, membranas que protegem o cérebro; Angiostrongilíase abdominal: causada pelo parasita Angiostrongylus costaricensis, a doença afeta o trato gastrointestinal. Para evitar possíveis contaminações, separamos dicas para afastar e retirar o caracol da sua casa e jardim. Confira! Como manter o caracol africano longe de casa A Achatina fulica gosta de ambientes sombreados e úmidos. O conselho é manter o jardim limpo e sem acúmulo de água. Evite o excesso de folhagens, entulhos e restos de vegetais, que podem virar foco de umidade e acúmulo de material orgânico – o que atrai a espécie. “Temperos de cheiro forte espantam o caracol africano e podem ajudar a combater a sua presença”, complementa Gustavo Schmidt, docente de Ciências Biológicas da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Entre as sugestões estão sálvia, hortelã, arruda e capim-cidreira. Temperos e plantas de cheiro forte, como hortelã, arruda, sálvia e capim-cidreira, podem ajudar a afastar o caracol africano do quintal PxHere/Creative Commons Além da manutenção do jardim, uma das indicações é procurar o caracol – possibilitando a identificação de infestações. “Procure-os em locais sombreados e úmidos, folhagens, arbustos, vegetação diversa, embaixo de materiais de construção, enterrados na areia e em vasos de plantas”, sugere Carlos. Tente também identificar seus ovos, que são pequenos e amarelos. Se conseguir identificar por onde acontece a entrada do molusco, é possível criar barreiras em muros ou paredes, utilizando cal para a pintura. “Os caracóis ficarão desidratados e morrerão”, explica Carlos. Aplicar cal em muros e paredes pode ajudar a criar uma barreira física contra o caracol-africano, dificultando a passagem do molusco pelo local Jayendra Chiplunkar/Wikimedia Commons O cal também pode ser usado polvilhado no solo do jardim após a limpeza manual de resíduos orgânicos. O que fazer quando encontrar um caracol africano? Se encontrar a espécie em casa, a indicação é eliminar. “A coleta manual dos moluscos e de seus ovos deve ser feita com luvas descartáveis ou sacos plásticos protegendo as mãos”, diz Carlos. Após a coleta, coloque o animal em uma solução de cal ou de água sanitária. A proporção pode ser de 6 litros de água para 1 litro de cal virgem ou de 3 litros de água para 1 litro de água sanitária. Deixe-o mergulhado por cerca de 24 horas. "Após a morte dos animais, quebre as conchas para evitar o acúmulo de água e descarte no lixo comum ou enterre", completa Bruno. Depois da catação, não esqueça de lavar as mãos com água e sabão, evitando a possibilidade de contaminação. O controle do caracol africano tende a ser mais eficaz quando realizado de forma coletiva entre moradores da região Marshman/Wikimedia Commons Outra recomendação é que esse controle seja feito de forma coletiva, o que garante um controle mais efetivo de infestações em cidades e regiões. “Se apenas um imóvel é controlado, mas os vizinhos não, o problema rapidamente retorna”, pontua Carlos. “É fundamental uma mobilização comunitária, com mapeamento dos focos, realização de mutirões de coleta, atenção a terrenos fechados ou abandonados, com notificação da prefeitura e dos proprietários, além de campanhas educativas com palestras e ações de conscientização”, completa Gustavo. Principais erros Alguns erros sobre o que fazer ao encontrar a espécie fazem parte do senso popular, como a indicação de colocar sal no caracol. “Jogar sal é uma forma de controle ineficiente, saliniza o solo e pode afetar lençóis freáticos”, afirma Gustavo. Além disso, o sal no molusco faz com que ovos e eventuais parasitas sejam eliminados no jardim, proliferando a contaminação pelo quintal. Eliminar o animal, mas não mudar o ambiente propício para sua aparição é outro erro comum. “Sem eliminar abrigo, umidade e alimento, a população se restabelece rapidamente”, pontua Carlos. Gustavo também alerta para a identificação da espécie do caracol. “A infestação de caracol-africano tem contribuído para a redução de espécies nativas em diferentes regiões do país”, afirma o professor. Em geral, a Achatina fulica tem listras na casca e coloração mais escura, enquanto as espécies brasileiras costumam ter uma coloração mais rosada e um tamanho reduzido. Na dúvida, é indicado falar com especialistas ou conferir a espécie por meio de pesquisas e fotos na internet. O contato direto com o caracol africano deve ser evitado; a recomendação é usar luvas ou proteção nas mãos durante a coleta do animal Thomas Brown/Wikimedia Commons Os deslizes também podem aparecer no manuseio, ao deixar de utilizar luva ou outro tipo de proteção no momento da catação, ou deixar de higienizar alimentos. A atenção também deve ser voltada para os pets e as crianças, que não devem interagir com caracóis. “O Angiostrongylus vasorum é responsável pela doença angiostrongilíase canina, que não possui registros de transmissão em humanos até o momento. Ainda assim, sua relevância epidemiológica não pode ser descartada”, diz Carlos. Leia também
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