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Gateiras: o detalhe quase invisível que guarda histórias do Brasil colonial

Casa e Jardim | Sua casa linda do seu jeito [Unofficial] May 7, 2026
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Discretas, quase sempre próximas à base das construções, as gateiras passam despercebidas no ritmo acelerado das cidades, inclusive nos centros históricos. Mas esse detalhe esconde aspectos importantes, que podem ajudar a compreender como essas casas funcionavam no passado da arquitetura brasileira. Mais do que um recurso técnico, essas pequenas aberturas revelam uma forma de construir profundamente conectada ao ambiente, às necessidades do cotidiano e às técnicas construtivas disponíveis, sobretudo, durante o período colonial no Brasil. Ao mesmo tempo, carregam marcas de um contexto social específico, no qual a organização dos espaços também refletia hierarquias sociais e modos de vida. Presentes sobretudo em casas com porão alto, as gateiras permitiam a ventilação das partes baixas da edificação, ajudando a controlar a umidade e preservar a estrutura. Também integravam uma lógica espacial que separava funções e usos das diferentes áreas dentro das casas coloniais. Na esquerda da foto, é possível ver uma pequena gateira próximo ao solo na primeira residência de traços coloniais Pexels/Douglas Mendes/Creative Commons Gateiras como um respiro na base das casas coloniais Segundo o Dicionário da Arquitetura Brasileira, de Carlos Lemos e Eduardo Corona, e o Dicionário ilustrado de Arquitetura, de Maria Paula Albernaz e Cecilia Modesto Lima, a gateira é uma pequena abertura de embasamento dos edifícios. Leia mais "Apesar do nome, não necessariamente esses orifícios são para a passagens de animais, ao passo podem ser guarnecidos de caixilhos ou grades", explica Ana Paula Campos Gurgel, arquiteta e urbanista, professora adjunta da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB). Comuns em imóveis mais altos, as gateiras eram essenciais para a ventilação. Na imagem, é possível ver o elemento na porção inferior da edificação Pexels/Djalma Paiva Armelin/Creative Commons "Elas arejam a edificação para que ela não sofra com a umidade ascendente do solo — não por acaso, esses elementos são também denominados respiradouros", complementa Rui Rosa, arquiteto e pesquisador na Universidade de Lisboa. Há também uma aplicação do termo para as aberturas feitas nas coberturas, destinadas à ventilação do desvão do telhado. Havia, portanto, um entendimento empírico da ventilação natural. "O ar mais frio entra por baixo, enquanto o ar quente sobe e sai por aberturas superiores. Era uma solução que oferecia um direcionamento dos fluxos de ar sem depender de recursos mecânicos", explica o engenheiro Luiz Eduardo Miranda, sócio da L.U. Engenharia. Embora servissem principalmente para ventilação, nas casas do chamado estilo "eclético", também tinham uma dimensão estética. Origem na tradição ibérica e transformações no Brasil Feitas de metal, as gateiras tem origem na tradição construtiva portuguesa e tem os seus usos reinterpretados no Brasil Instagram/ocentrodecuritiba/Reprodução As gateiras têm origem na tradição construtiva portuguesa e chegaram ao Brasil a partir da introdução dessa proposta arquitetônica, em meio ao processo de colonização. "Originalmente, as caves — denominação portuguesa para os porões altos — eram espaços destinados a funções técnicas e anexas da casa, como adegas, despensas, oficinas de artesanias, como carpintarias e serralherias, abrigo para animais e guarda de ferramentas", explica Rui. Porém, no Brasil, esses elementos também são ressignificados. No contexto local, elas se associam aos porões altos, característicos de muitas casas do período. Esses espaços, no entanto, não eram neutros. A arquitetura colonial muitas vezes subverteu essa funcionalidade, utilizando os porões tanto para funções técnicas quanto para usos sociais específicos. Os porões eram usados tanto para a habitação precária de pessoas escravizadas -- como espaços de senzalas -- quanto para espaço de punição e tortura. "Após a Lei Áurea, muitos desses espaços desprovidos de conforto ambiental mantiveram uma utilização social similar, passando a ser habitados por empregados domésticos. Essas espacialidades de violência perpetuam uma herança colonial, tornando as gateiras não mais meros respiros de alvenaria, mas frestas de uma história silenciada", salienta o pesquisador. Ana Paula, no entanto, pontua: "ainda que se coloque que estes porões altos eram espaços para as pessoas escravizadas, isso não necessariamente mostrava-se como uma regra, visto que a pouca altura de algumas dessas áreas, inviabilizavam até esse tipo de uso". O estilo e os elementos presentes nas construções das casas coloniais também traziam reflexos das hierarquias sociais e de afirmação de uma posição dentro da sociedade da época Pexels/Malcoln Oliveira/Creative Commons O entendimento desses elementos também passa por compreender as hierarquias sociais ali colocadas de uma forma mais ampla. "Essas espacialidades acabam registrando, na própria materialidade da arquitetura, relações sociais e modos de ocupação que nem sempre aparecem nos documentos. A casa colonial não é apenas uma unidade habitacional, mas um espaço de produção e de reprodução social profundamente marcado por relações de poder. Ao elevar a casa do “rés do chão”, as elites demonstram sua hierarquia no sistema", afirma Ana Paula. Do funcional ao ornamental Com o tempo, as gateiras deixaram de ser apenas um recurso técnico e passaram a integrar o desenho das fachadas. Em muitas construções, especialmente a partir do século 19, esses elementos aparecem cada vez mais alinhados à proposta das portas e janelas. "Além de cumprir um papel técnico importante,a gateira muitas vezes aparece como um detalhe que participa da composição estética do imóvel", explica Bibiana Wittmann Lanzarin, professora no Senac no curso técnico de design de interiores e doutoranda em design pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). As gateiras variavam em design, materiais, tamanho e acabamentos em função do tipo de uso do espaço e também pela posição social das famílias Instagram/ocentrodecuritiba/Reprodução | Montagem: Casa e Jardim Seus formatos variam entre recortes simples e desenhos mais elaborados, frequentemente protegidos por grades metálicas. "Esses elementos dialogam com o restante da fachada, reforçando ritmo, proporção e unidade visual", acrescenta Bibiana. Havia também uma variação em função do orçamento das famílias que ali viviam e o grau de sofisticação das fachadas. Originalmente, o ferro utilizado em casas de arquitetura colonial era obtido por meio da importação de manufaturas de ferro laminado inglesas ou francesas ou da produção nacional de ferro fundido, que, em grande parte, envolvia o trabalho de mestres ferreiros africanos escravizados. Por isso, observa-se certa similaridade e combinação nos padrões dos elementos em ferro, resultando em uma unidade de expressão ornamental. "Porém, com a substituição de alguns desses elementos devido à deterioração e às modificações feitas pelos proprietários ao longo do tempo, a unidade estética da casa como um todo acaba sendo afetada, tornando-se diversa", ressalta Rui. Possíveis referências das gateiras a outros elementos e tradições O pesquisador, no entanto, pontua que ainda não há estudos que comprovem relações diretas das gateiras com outros elementos arquitetônicos de tradições africanas. Porém, paralelos são possíveis de serem traçados, por exemplo, com soluções construtivas que utilizam pavimentos em subsolo para garantir a preservação de umidade e temperatura. Era o que se fazia nas casas de terra da cultura Gurunsi, na divisa dos países Burkina Faso e Gana, no continente africano. Nas grelhas de ferro, é possível inferir uma possível associação entre as gateiras e símbolos como as adinkras. Enquanto em algumas o traçado é mais ornamentado, outras utilizam linhas mais retas e menos componentes Instagram/ocentrodecuritiba/Reprodução | Montagem: Casa e Jardim Para as grelhas de ferro, as relações são mais nítidas, na visão de Rui Rosa. "As pesquisas do arquiteto Pérès Songbe revelam que foram trabalhadores africanos escravizados que utilizaram de suas habilidades, culturas e conhecimentos em metalurgia, ferraria e arquitetura para introduzir elementos arquitetônicos em ferro representando simbologias que derivam de um sistema de escrita dos povos Akan, conhecido como Adinkra", explica. Os padrões recorrentes das grelhas de ferro das gateiras perpassam influências africanas (Asante), árabes (mouriscas) e europeias (ibéricas), assim como todo o design ornamental do ferro no período colonial. Entre as influências africanas, destacam-se os adinkras. Dos mouros, podemos identificar os padrões geométricos de grades e treliças, semelhantes a muxarabis expandidos. Já os padrões ibéricos variavam entre representações vegetais, militares e simbologias familiares. O que permaneceu com o passar do tempo Com a modernização das técnicas construtivas, as gateiras foram gradualmente desaparecendo. As transformações urbanas contribuíram para sua eliminação ao longo do tempo. "Por serem elementos pequenos e discretos, localizados na base da edificação, muitas gateiras foram fechadas, alteradas ou até eliminadas ao longo do tempo, especialmente em reformas que modificaram o uso dos porões, aterraram partes da construção ou buscaram atualizar as fachadas", afirma Bibiana. Com o passar do tempo, as gateiras passaram a desaparecer nas construções coloniais. Ainda assim, há algumas presentes, sobretudo, em centros históricos. Na imagem, a cidade de Pirenópolis (GO), que surgiu da exploração de ouro no período colonial, e conta uma parte da cidade e suas edificações preservadas Flickr/Juan de Vallejo/Creative Commons A permanência é normalmente associada a preservação de edificações históricas. "Elas permanecem, em geral, vinculadas a edifícios que passaram por processos de preservação mais cuidadosos ou que mantiveram maior integridade material", complementa Ana Paula. Ainda assim, em centros históricos, essa ocorrência é um pouco maior. "Em reflexo a outros estudos da arquitetura colonial brasileira, revela-se que a predominância das gateiras ocorre onde existe a maior densidade da arquitetura colonial portuguesa em regiões urbanizadas", indica Rui. Destacam-se nesse sentido cidades como Curitiba, PR; Salvador, BA; Ouro Preto e Tiradentes, MG; Rio de Janeiro, RJ; e São Luís, MA. Leia mais O estudo das gateiras, ainda escassos, podem ter um papel naquilo que Ana Paula entende como deslocamento do foco da preservação, geralmente nos grandes gestos formais, para as microestruturas do habitar. "Quando a gente olha para esses elementos, acessamos informações dos usos cotidianos, as rotinas, os modos de funcionamento da casa. No fundo, o que está em jogo é uma mudança de escala de olhar, e passa por entender que a memória também está nos detalhes", reflete a professora da UnB.

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