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As redes sociais transformaram o mercado de design de interiores em um negócio mais difícil de precificar e mais fácil de copiar, explica Daugliesi Giacomasi Souza, da DGDecor

Pequenas Empresas & Grandes Negócios [Unofficial] July 1, 2026
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Há dez anos, quando um cliente chegava ao primeiro atendimento com um designer de interiores, ele trazia uma lista de palavras e uma vaga ideia do que queria. Hoje, ele chega com um álbum no Pinterest, prints do Instagram salvos por categoria, uma referência de um projeto que viu no TikTok e a convicção de que sabe exatamente o que precisa. O problema é que saber o que se quer visualmente é muito diferente de entender o que é possível executar dentro de um orçamento real, numa planta real, com os materiais disponíveis no mercado brasileiro. E é nesse gap, entre a referência digital e a realidade do projeto, que o trabalho do designer começa de verdade, e onde uma parcela crescente dos profissionais do setor está perdendo dinheiro sem perceber. O mercado de decoração de interiores cresceu 15% em 2022, segundo a Associação Brasileira de Design de Interiores, com perspectiva de expansão contínua, impulsionada pela valorização do bem-estar em casa e pelo aumento da popularidade de conteúdos digitais voltados à decoração. Esse crescimento, no entanto, carrega uma contradição que poucos falam abertamente: ao mesmo tempo em que as redes sociais democratizaram o acesso ao design e ampliaram o mercado potencial, elas também comoditizaram o conhecimento visual que antes era o principal ativo de diferenciação do profissional. Para Daugliesi Giacomasi Souza, designer de interiores e fundadora da DGDecor, empresa com atuação em projetos residenciais e gerenciamento de obras, esse é o movimento mais significativo e menos discutido do setor nos últimos anos. "O cliente chegou no mesmo nível de repertório visual do profissional. Ele viu os mesmos projetos, conhece as mesmas referências, sabe os nomes dos estilos. O que ele não sabe é o que está por trás da imagem: o processo, a técnica, as decisões que não aparecem na foto. E é exatamente aí que está o valor do trabalho." A comoditização silenciosa do design O efeito mais concreto da explosão de conteúdo de decoração nas redes sociais não é estético. É econômico. Quando o cliente consegue acessar gratuitamente um volume ilimitado de referências visuais de alta qualidade, a percepção de valor do serviço de design muda de forma estrutural. O conhecimento estético, que antes era um ativo escasso e valorizado do profissional, passa a ser percebido como algo disponível a qualquer um. E quando o cliente acredita que já sabe o que quer, ele tende a questionar por que precisa pagar por uma consultoria completa para chegar lá. A concorrência no mercado de design de interiores se intensificou devido à diferença de preços dos serviços, e os designers acham cada vez mais difícil construir uma base de clientes sólida num mercado fragmentado onde muitos players disputam espaço. Esse cenário pressiona a precificação de baixo para cima: profissionais com menos experiência aceitam honorários menores para fechar projetos, o cliente passa a usar esses valores como referência de mercado e quem tem mais anos de trajetória precisa justificar a diferença de preço de forma cada vez mais explícita e estruturada. Daugliesi Giacomasi Souza identifica esse padrão com frequência no mercado em que atua. "O cliente compara o preço do meu projeto com o de alguém que acabou de começar e não entende por que há diferença. Ele viu o portfólio dos dois no Instagram e achou esteticamente parecido. O que ele não viu foi o gerenciamento da obra, a negociação com fornecedores, a capacidade de prever problemas antes que virem custo extra, a experiência que transforma uma planta complicada num ambiente que funciona de verdade. Isso não aparece em foto." O novo primeiro atendimento A mudança mais prática que as redes sociais trouxeram para o cotidiano do negócio de design de interiores está no primeiro atendimento com o cliente. Essa reunião, que antes era majoritariamente de escuta e levantamento de necessidades, virou também uma sessão de gestão de expectativas. O cliente chega com referências de projetos fotografados com equipamento profissional, em imóveis de metragem generosa, com orçamentos que raramente são revelados nas legendas. E espera replicar aquela estética no apartamento de 60 metros quadrados que tem disponível. A profissão de designer de interiores ganhou relevância à medida que as pessoas passaram a valorizar mais a qualidade de vida dentro dos espaços onde vivem e trabalham, com apartamentos menores, rotinas mais intensas e a casa assumindo múltiplas funções, surgindo a necessidade de projetos que otimizem o espaço e tragam conforto e identidade aos ambientes. Essa combinação de espaços menores com expectativas ampliadas pelas redes sociais é o ambiente em que o designer de interiores trabalha hoje, e exige um conjunto de habilidades que vai muito além do repertório estético. "A primeira conversa com o cliente mudou completamente. Antes eu passava a maior parte do tempo entendendo o que ele queria. Hoje passo uma parte significativa explicando o que é possível e por quê. Não é uma conversa fácil, mas é a que define se o projeto vai ser bem executado ou vai virar uma fonte de frustração para os dois lados. O profissional que não sabe ter essa conversa vai aceitar o projeto do jeito que o cliente imaginou e vai passar meses tentando entregar algo que não funciona", explica a fundadora da DGDecor. Precificar em um mercado onde o cliente acha que já sabe o valor A precificação é onde o impacto das redes sociais no modelo de negócio do design de interiores aparece de forma mais clara e mais dolorosa. Num mercado onde o cliente tem acesso fácil a referências de profissionais em diferentes estágios de carreira, e onde o Instagram apresenta todos com o mesmo formato de portfólio, justificar um honorário mais alto exige uma estratégia de comunicação de valor que muitos profissionais ainda não desenvolveram. Marcas que precificam abaixo do esperado para a categoria enfrentam um paradoxo cruel: vendem mais no curto prazo e perdem reputação no médio. Já marcas que mantêm uma âncora de preço consistente, mesmo com promoções pontuais, conseguem preservar a percepção de valor ao longo do tempo. Essa dinâmica, estudada no universo do branding de produto, se aplica com precisão ao negócio de design de interiores, em que o profissional é simultaneamente a marca e o produto. Para Daugliesi Giacomasi Souza, a solução não está em competir pelo preço mais baixo nem em ignorar a pressão do mercado, mas em tornar visível o que as redes sociais tornaram invisível. "O cliente vê o projeto pronto. Não vê as horas de planejamento, as visitas técnicas, as negociações com fornecedores, os imprevistos resolvidos antes de virar problema. O profissional que aprende a comunicar esse processo, e não só o resultado estético, consegue sustentar um honorário compatível com o que realmente entrega. Quem não aprende fica preso numa corrida de preço que não tem fundo." O que ainda diferencia quem constrói um negócio sustentável no setor? Num mercado em que o portfólio visual está a um clique de distância e onde a estética pode ser replicada com relativa facilidade, a diferenciação real migrou para dimensões que as redes sociais não conseguem mostrar com fidelidade: a capacidade de gerenciar uma obra do início ao fim, a rede de fornecedores construída ao longo de anos, o histórico de projetos entregues dentro do prazo e do orçamento, e a habilidade de traduzir o que o cliente diz que quer no que ele realmente precisa. Num mercado altamente competitivo, diferenciar-se é essencial para garantir a fidelização dos clientes, e a personalização como prioridade é uma tendência crescente, com a busca por decorações que reflitam a identidade de cada cliente ganhando força justamente em reação à padronização visual das redes sociais. É uma ironia produtiva do mercado: as mesmas plataformas que comoditizaram a estética criaram um cliente que, ao ver tantos projetos parecidos, passou a valorizar mais do que nunca o que é genuinamente personalizado. Daugliesi Giacomasi Souza vê nesse movimento uma oportunidade concreta para quem tem trajetória consolidada no setor. "O cliente que já passou por um projeto mal gerenciado não quer mais o portfólio mais bonito. Ele quer o profissional que vai entregar o que prometeu. Experiência, processo e histórico de entrega são os diferenciais que as redes sociais não conseguem fabricar. Eles levam tempo para construir, mas são os únicos que não podem ser copiados numa tarde de edição de foto." Em um mercado que cresceu em volume e concorrência, mas ainda não amadureceu em termos de profissionalização do modelo de negócio, quem sobrevive não é necessariamente quem tem o feed mais bonito. É quem aprendeu a transformar anos de projeto em argumento de valor, e a comunicar isso com a mesma clareza com que as redes sociais comunicam a estética.

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