9 erros que podem causar endividamento e estrangular a margem dos negócios de médio porte
Pequenas Empresas & Grandes Negócios [Unofficial]
June 26, 2026
Em um cenário de juros reais elevados, com a taxa básica de juros do Brasil em dois dígitos (14,25%), empréstimos ficam mais elevados e restritivos, pressionando a margem de lucro das empresas. Kecy Ceccato, sócia do Atra Advogados e especialista em direito societário e de negócios, diz que a Selic está asfixiando a margem das empresas, sobretudo as de médio porte, o que dificulta a renegociação de dívidas. “A taxa de juros está estrangulando todo mundo”, ressalta. Um dos impactos desse ambiente econômico mais desafiador é o aumento do nível de endividamento das empresas. Luiz Henrique Barbosa, diretor da W1 Business, consultoria para pequenas e médias empresas, observa dificuldades recorrentes entre empresários para equilibrar refinanciamento e reestruturação da gestão. “Dados de mercado indicam taxa de insucesso próxima a 100% para empresas que refinanciaram dívidas sem corrigir a gestão operacional. Rolar dívida sem consertar a sangria significa adiar o colapso, não evitá-lo”, afirma Barbosa, que também é professor de finanças da pós-graduação da Fundação Dom Cabral. Silvia Machado Wilbert, diretora jurídica e sócia da consultoria Safegold, observa que a situação de crise nas empresas raramente surge de um fator isolado. Na avaliação de Wilbert, a crise é consequência de pequenos desalinhamentos operacionais e financeiros acumulados ao longo do tempo. “Em empresas de médio porte, é comum encontrar negócios com faturamento relevante, carteira ativa e operação funcionando, mas sem previsibilidade financeira suficiente para sustentar o próprio crescimento ou absorver oscilações de mercado”, diz Wilbert. Estudos da Safegold apontam que, na maioria dos casos, a situação mais crítica de endividamento em empresas de médio porte não é decorrente de queda de vendas ou falta de lucro, mas gerada por desequilíbrios estruturais entre operação, geração de caixa e gestão financeira. Um levantamento da Safegold aponta oito situações que os empresários devem evitar para fugir do endividamento que engole as margens da operação. Veja a seguir 9 erros que comprometem a gestão financeira: 1. Descasamento entre geração de caixa e obrigações financeiras Mesmo com faturamento alto e lucro operacional, muitas empresas não geram caixa no ritmo necessário para suportar amortizações, juros, parcelas bancárias e renegociações acumuladas. No dia a dia, o Ebitda (dívida líquida e lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação) existe, mas não tem fôlego para acompanhar o cronograma financeiro assumido pela empresa. Esse cenário representa um sinal amarelo, porque a operação passa a trabalhar para pagar passivos antigos, comprimindo o capital de giro e reduzindo a capacidade de reação. Initial plugin text 2. Dependência excessiva de capital de giro e crédito de curto prazo Está cada vez mais comum o uso de instrumentos como antecipações de recebíveis, conta garantida e linhas emergenciais de curto prazo para financiar a operação em negócios de médio porte. O uso desses instrumentos é válido, porém, quando utilizados de forma contínua para sustentar despesas do dia a dia, a empresa entra em um ciclo de dependência financeira. O resultado é que a empresa compromete parte relevante da geração futura de caixa, deixando de gerar margem e começa a operar para saldar dívidas. 3. Crescimento desestruturado Crescer pode não ser sinônimo de sucesso no ambiente empresarial. Quando o crescimento acontece sem a preocupação de estruturar controles, estoques e finanças, o problema vai aparecer no caixa. Muitas companhias com faturamento relevante e crescimento da operação podem passar a falsa impressão de que o negócio tem bom desempenho, o flagrante surge no caixa. Com mais vendas, a empresa gasta mais com a compra de matéria-prima, aumenta a necessidade de estoque, cresce a folha operacional e muitas vezes os prazos concedidos aos clientes são alongados. Se a estrutura financeira não acompanha esse crescimento, a empresa passa a financiar a própria expansão através de antecipações de recebíveis e linhas de curto prazo. “Na prática, o faturamento cresce, mas a liquidez diminui. Em muitos casos, o problema não está na falta de venda, mas na ausência de uma estrutura financeira compatível com o ritmo de crescimento da operação”, avalia Wilbert. 4. Gestão ineficiente do ciclo financeiro Quando o caixa está pressionado, a fonte do problema pode ser o desalinhamento entre prazos de pagamentos de fornecedores e prazos para o recebimento de receitas. Wilbert cita o exemplo recorrente em indústrias que compram matéria-prima com pagamento para 21 ou 28 dias, mas vendem para grandes redes ou distribuidores com recebimento em 60, 90 ou 120 dias. “Durante esse intervalo, a operação continua exigindo folha, impostos, frete, energia e reposição de estoque. Quando não existe capital de giro suficiente para sustentar esse ciclo, a empresa passa a depender de antecipações de recebíveis e crédito de curto prazo para financiar o próprio funcionamento”, diz. 5. Ausência de integração entre as áreas da empresa Uma das fontes do endividamento recorrente está na falta de entrosamento entre as áreas comercial, compras, produção e financeiro. Nesses casos, é comum que a equipe comercial venda sem levar em conta o fôlego da produção e a situação do caixa. Uma situação muito comum, observa Wilbert, é a compra de matéria-prima sem previsão real de vendas, formando estoques acima da demanda. Geralmente, esse descompasso só é percebido quando o financeiro vê o caixa entrando em colapso. “Empresas saudáveis financeiramente normalmente possuem integração operacional e gestão baseada em indicadores e previsibilidade”, diz Wilbert. 6. Erros de precificação Vender muito não significa dinheiro em caixa. Pode parecer incongruente, mas é isso que acontece com muitas empresas por erros na formação de preços. Um deles é olhar apenas a concorrência sem entender margem de contribuição, custos indiretos, despesas financeiras, carga tributária e impacto do capital de giro. Equívocos na precificação de produtos e serviços tendem a aumentar no ambiente de juros elevados e pressão inflacionária. 7. Realidade operacional x expectativa de custos Outro gatilho para o endividamento é o crescimento gradativo de estrutura sem incremento proporcional de eficiência. Nesses casos, é comum ver empresas com ampliação da folha, aumento de custos com aluguel, operação e despesas administrativas em momentos de expansão do negócio. Mas, quando o mercado coloca o pé no freio, a empresa não encontra caminhos para reduzir os custos fixos, que começam a consumir a geração de caixa, aumentando a necessidade de crédito. 8. Lacunas em indicadores e gestão de tesouraria Entre as empresas de médio porte, é comum que a tomada de decisões considere apenas o saldo bancário ou o faturamento. No entanto, sem projeção de fluxo de caixa, análise de capital de giro, acompanhamento do cenário de endividamento e previsibilidade financeira, a empresa tem limitações para antecipar desafios. Os especialistas em reestruturação de empresas afirmam que a crise financeira não começa quando falta dinheiro; a origem do problema está no momento em que a empresa passa a não enxergar sinais operacionais que pressionam o caixa. 9. Na mesa de negociação, sem gerar caixa Renegociar pagamentos exige atenção à realidade do caixa. Quando empresas começam a renegociar dívidas apenas para ganhar prazo, sem se preocuparem em reestruturar a operação, há um efeito cascata. No dia a dia, as parcelas que foram renegociadas se acumulam sobre novos compromissos financeiros. Essa dinâmica comprime ainda mais o caixa futuro. Antes de partir para uma renegociação de dívida, é fundamental verificar a capacidade real de geração de caixa da empresa. Leia também
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