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Ela vendia doces no trabalho e hoje comanda confeitaria na Urca que fatura R$ 2,9 milhões

Pequenas Empresas & Grandes Negócios [Unofficial] May 21, 2026
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Com R$ 130 no bolso, uma receita de brownie e a urgência de garantir renda para a família, a administradora Flávia Olmo, 35 anos, começou a vender doces para os colegas de trabalho em 2015. O que parecia uma solução provisória virou negócio, depois empresa, depois loja — e hoje é a Que Doce!, uma confeitaria instalada num casarão de 300 m² no bairro da Urca, Zona Sul do Rio de Janeiro, com 20 funcionários e faturamento de R$ 2,9 milhões em 2025. Filha e neta de empreendedores, Olmo cresceu em Irajá, na Zona Norte carioca, num ambiente em que o próprio negócio era parte do cotidiano. Formada em administração pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ela construiu carreira na área de inteligência comercial da Tim, onde foi efetivada após o estágio. Mas o sonho de empreender nunca saiu de cena — só ficou adiado. O estopim veio em 2015. O negócio familiar enfrentava dificuldades sérias, e os pais de Olmo precisavam de uma saída. Sua mãe fez uma sugestão simples: levar doces para vender no trabalho. "Minha mãe sempre fez os doces das minhas festas de aniversário. A gente fazia o evento inteiro — bolo, glacê, cobertura", conta Olmo. "Todo mundo sempre dizia que a gente podia vender. Quando a necessidade bateu, a confeitaria foi um caminho muito natural." Olmo hesitou. Havia outra pessoa vendendo doces na empresa — uma estagiária. No dia seguinte à conversa com a mãe, a estagiária saiu da Tim para outro emprego. "Parece que as datas todas casaram para que isso acontecesse", diz. Sua gestora, ao saber da situação familiar, foi direta: "Segunda-feira você aparece com doce aqui." Ela passou o fim de semana pesquisando receitas. Escolheu brownie e palha italiana — dois produtos que dominavam o mercado informal de doces na época — e investiu R$ 130 em insumos. Nos primeiros meses, vendia pelo corredor do andar. Depois chegou ao setor inteiro, depois ao prédio, depois aos dois blocos de seis andares da sede da Tim no centro do Rio. Em seis meses, a operação sem nome faturava R$ 1,5 mil numa única sexta-feira. O nome e a virada de chave A marca nasceu de uma encomenda. Uma colega pediu brownies para o chá de bebê da sobrinha — e voltou com o relato de que todos tinham adorado. "Ela falou que eu precisava pensar num nome para poder vender de verdade", lembra Olmo. O nome veio da reação espontânea de quem experimentava os doces: nossa, que doce gostoso. Assim surgiu a Que Doce!. Olmo deliberadamente evitou colocar o próprio nome na marca. Queria criar distância entre ela e o produto — ainda não sabia se seguiria carreira corporativa ou mergulharia no negócio. "Eu não queria que fosse 'doce da Flávia', porque teoricamente o doce era da minha mãe", explica. A ambiguidade durou pouco. Entre 2015 e 2019, Olmo fez malabarismo entre o emprego CLT e a Que Doce!. Em 2016, sua área na Tim foi cortada e ela quase foi demitida — acabou transferida para outro setor. Em seguida, virou a mesa: recebeu uma promoção justamente quando planejava pedir demissão. Ficou mais um tempo. O novo cargo durou pouco. Uma ex-chefe, que sabia dos planos de empreender, fez uma proposta para ela ir para a Oi como gestora de planejamento — com salário duas vezes maior do que recebia. "Ela falou, você vem, fica o tempo que eu preciso para reestruturar a área, depois você vê o que quer fazer da sua vida", conta Olmo. O acordo era informal, mas honesto. Com o aumento, ela construiu a cozinha de produção em Irajá — investimento de R$ 150 mil — enquanto ainda era CLT. A rotina era extenuante: saía do escritório no Leblon às 22h ou 23h, pegava o carro até Irajá, produzia madrugada adentro, chegava em casa às 3h ou 4h e voltava ao trabalho às 8h30. De quinta para sexta e de sexta para sábado, era constante. "Eu passava acordada porque era um trabalho que me demandava muito", relembra. Em janeiro de 2019, Olmo pediu demissão da Oi. Cumpriu aviso prévio e, em fevereiro, passou a se dedicar integralmente à Que Doce!. Na época, o negócio operava apenas como delivery, com encomendas para festas, casamentos e aniversários. "Meu projeto nesse pedido de demissão foi de fato fazer as coisas crescerem", diz. Flávia Olmo começou a vender doces para colegas de trabalho em 2015, antes de transformar a produção caseira na confeitaria Que Doce! Divulgação A pandemia que virou impulso Menos de um ano depois, em março de 2020, a pandemia chegou ao Brasil — e com ela o colapso do mercado de eventos. Para muitas confeitarias que dependiam de festas e casamentos, foi o fim. Para a Que Doce!, foi diferente. A empresa já operava com delivery há anos. Enquanto grandes redes de chocolates corriam para entender como vender online, Olmo tinha rotas de entrega consolidadas, site ativo e experiência logística no Rio inteiro. "Eu já sabia os métodos de entrega, a melhor rota, já estava muito acostumada", diz. A Páscoa de 2020, que chegou no início da crise sanitária, foi um divisor. Olmo tinha programado sua campanha mais elaborada até então: embalagens novas, identidade visual renovada, estampas personalizadas. Quando o isolamento foi decretado, ela ficou na dúvida se lançaria ou não. Lançou. Em abril de 2020, a Que Doce! faturou R$ 70 mil em um único mês. A sacola semanal, criada durante a pandemia, foi outro motor de crescimento. O mecanismo era simples: de segunda a quinta, os clientes faziam pedidos pelo site; de sexta a domingo, Olmo e os familiares faziam as entregas nas portarias. Brownies, palha italiana, bolo de pote — a cada semana, uma composição diferente. As datas comemorativas explodiram. Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia dos Namorados, Natal. "Quem soube surfar essa onda das campanhas, do emocional, dos presentes, mandou muito bem", diz Olmo. Um único cliente encomendou 25 bolos no Natal de 2020 — um para cada casa de pessoas que estariam juntas na ceia, mas que precisaram ficar separadas. Foi nesse período que Olmo entendeu o que queria fazer a seguir: abrir uma loja física. Trabalhar com eventos grandes e casamentos a desgastava mais do que sustentava. Produtos menores, varejo, contato direto com o cliente — essa era a direção. O casarão na Urca Em novembro de 2022, a Que Doce! abriu as portas em um casarão de 300 m² no bairro da Urca, aos pés do Pão de Açúcar. O investimento inicial foi de R$ 400 mil. A escolha do bairro não foi sentimental — foi estratégica. Olmo queria um espaço físico que transmitisse aconchego, diferente da frieza que via em muitas lojas de doces que visitava. Procurou casas antigas pela Zona Sul e não encontrava. "Eu frequentava a Urca muito pouco, mas tinha a memória de que tinha casas bonitas lá", diz. Um dia resolveu dar uma volta pelo bairro. Havia muitas placas de aluguel. Entendeu que havia uma lacuna: nenhum espaço com aquele perfil existia na região. "A gente não tinha em 2022 quase nenhum lugar com esse perfil no Rio de Janeiro", afirma. A referência que a inspirou foi a Chocolatria, em São Paulo — um espaço da Chocolatière Simone Izumi, instalado dentro de uma casa. Olmo queria algo assim: uma casa de verdade, não uma loja disfarçada de casa. Antes de abrir, ela fez um curso de barista. Pesquisou fornecedores de salgado. Fechou parceria com a Tróço Bom Roceria, produtora de queijo artesanal que está na Que Doce! desde o primeiro dia. "Eu não queria ser uma cafeteria que comprava salgado numa grande distribuidora", explica. "Queria coisas que fossem diferenciais." A loja abriu sem divulgação. Nenhum post programado, nenhuma campanha de lançamento. Mesmo assim, foi o que Olmo define como "um estouro muito acima do que eu imaginei". Hoje, a Que Doce! tem dois pilares de produção: a cozinha em Irajá, responsável por todos os bolos, doces e itens do cardápio, e a loja na Urca, que funciona como vitrine e ponto de consumo. A loja faz pedidos semanais para a cozinha, que produz conforme o que foi solicitado. Dentro desse cronograma, entram também as encomendas especiais — gerenciadas por uma funcionária alocada na produção, que atende clientes pelo WhatsApp e fecha pedidos diretamente com a equipe da cozinha. O bolo de morango é o carro-chefe. Massa branca, brigadeiro de baunilha e geleia artesanal — tudo produzido internamente. "É o meu bolo preferido e se tornou o bolo preferido de todo mundo", diz Olmo. Outro destaque é a mousse de coco com maracujá. No salgado, o executivo do almoço ganhou espaço e trouxe um novo fluxo de clientes durante a semana. O tíquete médio na loja fica entre R$ 65 e R$ 80 por cliente. O de encomendas especiais é significativamente maior — e varia conforme o pedido. Em 2025, a empresa faturou R$ 2,9 milhões e a meta para 2026 é chegar a R$ 3,3 milhões. Mulheres na cadeia produtiva Desde o início, a Que Doce! priorizou a contratação de mulheres — tanto na equipe quanto na rede de fornecedores. Todas as 20 pessoas que trabalham na empresa são mulheres. "Sendo uma empreendedora mulher, jovem, que nasceu e cresceu em Irajá, conquistar esse espaço na Zona Sul foi uma grande realização", diz Olmo. "Meu objetivo com esse casarão é abrir portas para que pequenas produtoras locais ganhem visibilidade." O propósito ganhou uma camada nova em 2025, quando ela se tornou mãe. Vicente nasceu após uma gravidez que Olmo descreve como ativa, mas fisicamente dura — ela teve enjoos diários por seis meses, precisou ir à emergência por desidratação e enfrentou diabetes gestacional severa na reta final. Trabalhou durante praticamente toda a gestação. "Tudo que eu já acreditava sobre construir um negócio com mulheres, para mulheres, se intensificou quando virei mãe", reflete. "Ganhei ainda mais consciência sobre o tempo, sobre a importância da rede de apoio e sobre o impacto que eu quero gerar — não só como empresária, mas como mãe." Olmo é direta sobre o tema: "Se não equilibrar, não é brincadeira." A rotina que ela tinha antes — trabalhar sete dias por semana, abrir o computador depois do jantar, virar madrugadas — simplesmente não cabe mais. Não porque ela não quisesse, mas porque há um filho que a chama. Ela conta que passou a Páscoa de 2025 em 15 dias frenéticos quase sem ver Vicente. Mas logo complementa: se ainda estivesse num cargo de gerência em uma grande empresa, provavelmente teria passado o mesmo período igualmente ausente. A diferença é a possibilidade de escolha. "Ontem eu cheguei às 4h30 em casa e pude brincar com ele", diz. "Tem dias que não dá, mas eu posso fazer escolhas." A maternidade também acelerou uma decisão que já estava em gestação: deixar de operar sozinha. Olmo diz que busca, hoje, alguém para somar na gestão do negócio. "Antes eu me dividi em milhões. Hoje, além de ter menos energia disponível, eu entendo que com a maternidade as coisas mudaram de verdade", afirma. "Não tem como querer manter como era antes." Flávia Olmo concilia a rotina à frente da Que Doce! com a maternidade após o nascimento do filho Vicente, em 2025 Divulgação Expandir para outras unidades está no horizonte, mas o modelo de franquia não é uma prioridade. "A franquia nunca foi um desejo", diz Olmo. O que ela quer, por enquanto, é fazer mais pessoas conhecerem a marca — que, segundo ela, ainda opera dentro de uma bolha menor do que a qualidade do trabalho justificaria. "Eu vim de lugar nenhum", afirma. "Não sou filha de empresário famoso, não fui sócia de lugar nenhum antes. Então eu tenho um trabalho ainda muito grande para fazer a marca crescer onde ela está." Se pudesse voltar para 2015 e dar um conselho para a Flávia que começou vendendo doces no trabalho, ela seria honesta: "Vai ser mais difícil do que você imagina, mas vai te permitir ter conquistas diferentes do que você imagina." E complementa, sem romantizar: "É menos sonhador do que parece. Mas vai valer a pena." Leia também Quer ter acesso a conteúdos exclusivos da PEGN? É só clicar aqui e assinar!

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