Healthtech criada por irmãs desenvolve tecnologia para monitorar qualidade do sono em casa
Pequenas Empresas & Grandes Negócios [Unofficial]
May 21, 2026
A SleepUp, healthtech especializada em saúde do sono e bem-estar emocional, lançou no último mês de abril a SoftBand, uma tecnologia proprietária desenvolvida ao longo de cinco anos de pesquisa voltada ao monitoramento e tratamento de distúrbios do sono. A empresa, fundada no final de 2019 pelas irmãs Renata Bonaldi e Paula Redondo, já acumula seis fomentos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e participou de programas internacionais de inovação no Reino Unido, Portugal e China. A faixa, composta por eletrodos flexíveis e sensores fisiológicos, realiza o monitoramento do sono em ambiente domiciliar por meio de eletroencefalograma (EEG), exame que capta a atividade elétrica do cérebro e é considerada o padrão-ouro na medicina do sono. Diferentemente de dispositivos de wellness, que inferem dados de sono a partir de sensores de movimento e batimento cardíaco, a SoftBand capta o sinal cerebral diretamente — o que permite uma leitura clínica comparável à da polissonografia, o principal exame hospitalar da área, sem que o paciente precise sair de casa. Tecnologia apresentou redução de cerca de 30% nos sintomas de insônia entre usuários acompanhados Divulgação Para aproximar a acurácia domiciliar da polissonografia hospitalar, a SleepUp treina seus algoritmos por meio de estudos com comitês de ética em múltiplos laboratórios. Voluntários realizam a polissonografia simultaneamente ao uso da SoftBand e do anel oxímetro; um técnico especializado classifica manualmente cada trecho do sinal bruto em um dos cinco estágios do sono, incluindo REM (Rapid Eye Movement) e sono profundo. Essa classificação manual serve de base para o treinamento do algoritmo: a partir de 17 variáveis do sinal cerebral, a faixa aprende a reconhecer cada estágio do sono com precisão crescente. "Quanto mais exames desse tipo a gente faz, mais precisão a gente traz para o algoritmo. A gente faz em pessoas saudáveis, com comorbidades, em diferentes laboratórios e equipamentos", explica Renata Bonaldi, CEO e cofundadora da SleepUp, a PEGN. A plataforma da startup captura mais de 200 métricas por paciente, combinando dados subjetivos como escalas clínicas, anamneses e diários com dados objetivos coletados pelos wearables: a faixa de eletroencefalograma (EEG) e o oxímetro. Essas informações alimentam os algoritmos proprietários para personalizar o protocolo clínico conforme o perfil de cada usuário. A patente depositada protege não o hardware isolado, mas o processo como um todo: a metodologia de uso combinado do software de tratamento, do EEG, da oximetria e do CPAP com inteligência artificial para personalização terapêutica. O sistema de saúde do sono brasileiro enfrenta um obstáculo estrutural. De acordo com o Ministério Público, a fila de espera por uma polissonografia no SUS pode chegar a quatro anos. Segundo dados do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Pneumologia, cerca de 30% da população tem apneia, condição associada a hipertensão e diabetes, e 10% tomam remédio para dormir diariamente sem tratar a origem. O resultado, na avaliação de Bonaldi, é um sistema essencialmente reativo: o foco está em tratar sintomas, não em prevenir ou resolver as causas. E o tratamento que de fato funciona para insônia, a terapia cognitivo-comportamental, esbarra em outra barreira: falta de profissionais disponíveis. "Não tem psicólogos disponíveis, então as pessoas continuam tomando medicamento. O protocolo que a gente traz no aplicativo substitui o psicólogo e traz acessibilidade, eficácia e personalização", afirma Bonaldi. É essa brecha que a startup quer preencher. O investimento total recebido pela empresa desde 2020 foi de R$ 10 milhões, dividido entre fomento público não-reembolsável e capital privado de duas rodadas de investimento. Cerca de 70% desse valor foi alocado diretamente em tecnologia: hardware, software, algoritmos, firmware e validação clínica. O mais recente aporte, um Pipe (Programa de Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas) da Fapesp aprovado neste mês, tem foco em inteligência artificial, large language models e digital twins para ampliar a personalização do tratamento. A equipe conta com sete PhDs, oito profissionais de tecnologia e três desenvolvedores dedicados exclusivamente a algoritmos, além de três estudos clínicos conduzidos em paralelo. O novo hardware é produzido na China, onde o custo é até dez vezes menor e a velocidade de prototipagem é maior, e finalizado numa fábrica no interior de São Paulo, que detém o registro da marca e realiza montagem, testes de qualidade e armazenagem. A tecnologia de eletrodos flexíveis utilizada na faixa não é fabricada no Brasil. As empreendedoras já têm a aprovação da Anvisa, Anatel e Inmetro. No Brasil e nos outros países do Ocidente, o modelo de negócio atende dois perfis: B2B Saúde, com médicos, clínicas e hospitais, e B2B Corporativo, com empresas que oferecem o serviço como benefício a funcionários. Em ambos os casos, quem contrata é a instituição, não o paciente diretamente. O cliente paga uma mensalidade que inclui licenças de software e o comodato dos dispositivos, ou seja, usa a faixa e o anel oxímetro sem precisar comprá-los. Quando o contrato encerra, os equipamentos retornam à SleepUp para regeneração e reutilização. "O desafio de trabalhar com hardware é gigante. Mas a gente não vende o dispositivo, ele fica em comodato. Depois que o contrato termina, a gente recupera, regenera e reutiliza. É sempre uma questão de aluguel de hardware", explica a CEO. Dentro desse modelo, o serviço se divide em duas modalidades. Na primeira, a empresa ou operadora de saúde contrata o acesso ao aplicativo de tratamento de insônia — baseado em terapia cognitivo-comportamental digital, o padrão clínico recomendado para a condição — e o disponibiliza para seus funcionários ou beneficiários. Na segunda, ocorre a triagem domiciliar, na qual o profissional de saúde recebe os kits de wearables, distribui aos pacientes, que os usam em casa durante a noite e devolvem no dia seguinte. A cada uso, a plataforma gera um laudo com os dados do sono; o médico, que detém o diagnóstico, recebe todas as informações necessárias via portal analítico com dashboards individualizados para a avaliação. O cliente paga por laudo emitido e pode usar os kits com quantos pacientes quiser; o mesmo kit atende um paciente hoje e outro amanhã. Ao final, o paciente também recebe acesso ao aplicativo para dar continuidade ao tratamento. "Tanto o aplicativo com o tratamento de insônia traz acessibilidade, eficácia e personalização, quanto a faixa que foca mais no diagnóstico e personalização da terapia. Ambos são importantes para cobrir dois gaps grandes do sistema de saúde, não só no Brasil, mas em outros países", explica Bonaldi. O aplicativo da SleepUp integra dados subjetivos e objetivos do sono para personalizar o tratamento de cada paciente Divulgação Na China, onde Bonaldi está há dois meses conduzindo rodadas de negociação e fechando a cadeia produtiva, a empresa opera com dois modelos: B2B, com empresas de saúde e corporativas por meio de pacotes de licença mensal ou anual, e B2B2C, no qual o consumidor final adquire o kit composto por faixa e anel com licença anual do aplicativo. O hardware produzido localmente tem custo muito menor, o que torna esse modelo viável. No Brasil e no Ocidente em geral, os impostos de importação encarecem tanto o produto que a venda direta ao consumidor final se torna inviável — daí a opção pelo serviço B2B. Leia também: Nos próximos 24 meses, a empresa projeta distribuir cerca de mil unidades no Brasil, com foco em médicos de psiquiatria, neurologia, cardiologia, geriatria e psicologia. A meta é alcançar entre 10% a 20% da população médica do país, o que representa em torno de 50 mil profissionais. Na China, cinco clientes B2B já estão em negociação e um piloto com 100 unidades está em andamento. No modelo corporativo, a SleepUp já atende empresas como a mineradora Samarco. Quer ter acesso a conteúdos exclusivos da PEGN? É só clicar aqui e assinar
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