Professor do interior de SP viraliza ao ensinar músicas brasileiras para crianças nos EUA e fatura R$ 35 mil mensais
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April 18, 2026
Eliel Vinícius dos Santos Rodrigues, o Liel Vini, 31 anos, professor de música em Atlanta, na Geórgia (EUA), nunca imaginou que um vídeo gravado para a mãe mudaria sua trajetória profissional. Em abril de 2024, durante uma aula na escola particular Paideia, ele filmou os alunos cantando "Cai, Cai Balão" e postou nas redes sociais quase sem pensar. No dia seguinte, o vídeo tinha 1 milhão de visualizações. Hoje, com 200 mil seguidores no TikTok, contratos de publicidade e projetos educacionais em dois países, Vini fatura entre 6 mil e 7 mil dólares por mês — cerca de R$ 35 mil a R$ 40 mil na cotação atual. Natural de Promissão, cidade de pouco mais de 35 mil habitantes no interior paulista, segundo o Censo 2022 do IBGE, ele cresceu entre a música da igreja e os ensaios de bateria do pai. Aos 7 anos, após uma apresentação em uma congregação em Uberlândia (MG), chamou a atenção de um professor de música que estava na plateia e recebeu uma bolsa de estudos. Durante quatro anos, estudou teoria musical e se apresentou em teatros, cerimônias e eventos políticos. A formação consolidou, ainda cedo, o caminho que mais tarde se transformaria em carreira. Em 2011, aos 17 anos, ele passou pela seleção do programa Ídolos, da Rede Record. A experiência foi curta, mas abriu portas. "Não cheguei muito longe, mas foi importante para ganhar experiência com o público", diz. No ano seguinte, ingressou na faculdade de música da Universidade Sagrado Coração, em Bauru. A bolsa que virou vida nos EUA Em 2014, Vini conseguiu uma bolsa de intercâmbio de seis meses em Atlanta. Sem dinheiro para hospedagem, mandou mensagens para igrejas com comunidade brasileira na cidade e conseguiu abrigo em troca de aulas de música. No final do período, a universidade local prorrogou a bolsa por mais seis meses e, depois, ofereceu a ele a chance de concluir a graduação nos Estados Unidos — desde que recomeçasse do zero. "Eu tinha 20 anos e não tinha nada a perder", conta. Aceitou. Durante a faculdade, cantou em cidades norte-americanas, integrou corais que se apresentaram ao lado de cantores como Andrea Bocelli e Sarah Brightman, e representou os Estados Unidos nas comemorações de 200 anos da canção "Noite Feliz", na Áustria. No último semestre, o estágio obrigatório virou emprego: a professora da escola onde ele estagiava entrou em licença-maternidade e não voltou. A vaga foi dele. Em 2018, se formou, casou e estreou como professor contratado — tudo no mesmo ano. Por quatro anos, Vini deu aulas para crianças de 5 a 15 anos numa escola de Atlanta. Em 2022, passou a trabalhar na Paideia, onde está até hoje. Com menos alunos no novo emprego, conseguiu mais tempo de planejamento e uma rotina mais equilibrada. Foi nesse ambiente que ele começou a incluir músicas brasileiras com mais frequência — primeiro uma ou duas por ano, depois com regularidade. O ponto de virada aconteceu numa quinta-feira antes de um recesso escolar, quando os alunos pediram para cantar "Cai, Cai Balão". "Eu senti uma alegria tão grande que precisei compartilhar", diz. Filmou com o celular, sem edição, sem legenda, com iluminação ruim. Mandou para a mãe. Ela encaminhou para o irmão, que mandou para o pai, que mandou para o tio. A família pediu que ele postasse. Ele jogou nos stories e seguiu com o dia. Quando voltou para checar, mais de 10 mil visualizações. Migrou para o feed. Acordou no dia seguinte com 1 milhão. Na sexta, postou um segundo vídeo — um da Xuxa — e chegou a outro milhão. No sábado, recebeu uma mensagem direta da própria apresentadora agradecendo. Initial plugin text O crescimento, porém, foi acompanhado de um colapso. Vini tem transtorno bipolar e não se esquiva do assunto. "Sou muito aberto sobre isso", diz. Após meses postando diariamente, um episódio depressivo o tirou das redes entre agosto e dezembro de 2024. O engajamento despencou, os seguidores sumiram, o algoritmo o penalizou. A retomada começou em janeiro de 2025. Ao voltar, Vini percebeu que, mesmo com baixa entrega, quem recebia os vídeos engajava muito. Mudou o foco: parou de correr atrás do crescimento e passou a valorizar quem estava ali. "Não é o crescimento que importa. São as pessoas consumindo o que eu faço", afirma. Também mudou a estratégia de conteúdo. Em fevereiro, testou a legenda "crianças americanas cantando em português" — o vídeo gerou comentários negativos sobre o uso do termo "americanas" em vez de "estadunidenses", mas reativou o algoritmo. A partir daí, os vídeos voltaram a crescer. Em três meses, ganhou 100 mil seguidores. O Instagram chegou a 200 mil. Hoje, Vini grava com foco em uma turma de 7 e 8 anos que, segundo ele, "ama cantar em português". De um único ensaio, extrai seis ou sete vídeos: o processo da aula, o segundo ensaio, o terceiro, crianças cantando sozinhas, a reação das crianças ao assistir o próprio vídeo. Cada formato já ultrapassou 1 milhão de visualizações. Também publica vídeos com o marido americano tentando palavras e trava-línguas em português, além de clipes em que ele mesmo traduz músicas brasileiras literalmente para o inglês. Como o dinheiro entra O salário da escola Paideia é a base financeira — é de lá que saem as contas fixas. No intervalo das aulas, Vini edita vídeos, planeja as aulas que vende e responde seguidores. "Tenho muito tempo livre no trabalho e uso para fazer tudo isso", explica. A segunda maior fonte de renda são as aulas extras oferecidas na própria escola, às quintas e sextas no contraturno, em formato de grupo. A lista de espera é longa. Há também workshops em outras cidades dos EUA — nestes casos, a escola anfitriã custeia passagem e hospedagem, e ele cobra US$ 400 por dia de trabalho. Em 2025, Vini lançou um pacote de aulas de inglês para adultos brasileiros, em grupo, com participação do marido, professor de inglês. O pacote de seis meses custou R$ 1,2 mil e "vendeu bem", segundo ele. Além disso, há um projeto anual de composição musical com crianças de escola pública, que o contrata pelo quarto ano consecutivo. A publicidade chegou mais recentemente. O primeiro post patrocinado foi publicado no dia anterior à entrevista: uma empresa europeia de transferência de dinheiro internacional pagou 600 euros por três stories e um reels, mais comissão por código. "Eu testei o aplicativo e com toda a sinceridade foi o melhor que usei para mandar dinheiro ao Brasil", afirma. "Aceitei porque faz sentido para o meu público." O TikTok e o Instagram também pagam, mas em volume menor. Uma proposta do Instagram para monetização mais robusta não avançou porque a plataforma exigia que ele parasse de postar no Facebook — algo que ele não estava disposto a fazer. Initial plugin text O plano que ficou na gaveta e voltou Antes de viralizar, Vini já havia escrito um plano de negócio para transitar entre Brasil e Estados Unidos com projetos educacionais. Quando terminou de montar a ideia, travou. "Ninguém me conhecia como professor. Como eu ia fazer projetos com gente que nunca ouviu falar de mim?" O plano voltou para a gaveta. Um ano depois, o algoritmo fez o que ele não teve coragem de fazer. Para o futuro, quer criar um formato de escola que funcione parte do ano nos EUA e parte no Brasil, oferecer imersões em inglês para adultos — no estilo dos summer camps americanos, mas com música e tecnologia como base —, e lançar aulas gravadas assim que tiver equipe e capital para investir. Em breve, lança o primeiro álbum solo, de piano e voz, com metade das faixas em português e metade em inglês. Para 2026, planeja um segundo álbum com as músicas brasileiras que traduziu nas redes. Hoje, ele administra tudo sozinho: gravação, edição, planejamento, relacionamento com seguidores, viagens e contratos. "O objetivo maior seria ter um time para eu poder focar em gravar e fazer o que preciso fazer", diz. "Hoje eu faço tudo e é um pouco difícil." O público que assiste é majoritariamente feminino, entre 25 e 45 anos, concentrado no Brasil, seguido por Estados Unidos e Portugal. O perfil é de famílias interessadas em educação e música. "Meu sonho é ser uma das pontes culturais que conectam o Brasil aos Estados Unidos", diz Vini. Para ele, os dois países têm mais em comum do que parece: os EUA criaram mais de 50 gêneros musicais que se espalharam pelo mundo. O Brasil criou mais de 30. Nenhum outro país chega perto. "São duas culturas muito ricas que se beneficiariam de alguma união. Eu quero muito fazer parte dessa conexão."
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