Empresa usa currículos como embalagem, caso viraliza e levanta alerta sobre proteção de dados
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March 30, 2026
A empresa Doces Biba, com fábrica localizada na cidade de Mococa (SP), virou alvo de críticas nas redes sociais após utilizar currículos impressos para embalar uma encomenda. A situação foi compartilhada por uma cliente, identificada apenas como @harryforemost, no último domingo (29/3). Em um post no X, ela mostra os documentos que foram usados para proteger os produtos dentro da caixa. O conteúdo já acumula mais de 1,9 milhão de visualizações. “Não sou muito de expor as coisas da minha vida pessoal aqui, mas isso me deixou tão injuriada, triste e com raiva que eu preciso escrever sobre”, disse. Sem expor a identidade dos candidatos, a consumidora conta que 32 currículos foram entregues junto aos itens do pedido, que foi realizado em uma plataforma de marketplace – onde a Doces Biba está hospedada. Ela criticou a postura da empresa, ressaltando a falha no tratamento de dados pessoais. “É de uma coisa tão absurda que só sei sentir raiva disso! Pegaram o currículo de pessoas que estão precisando de emprego para embalar mercadoria. Expondo os dados pessoais e importantes para qualquer um”, destacou. Initial plugin text Após a repercussão do relato, a empresa se manifestou na tarde desta segunda-feira (30/3). Em nota divulgada no Instagram, a fundadora e proprietária da Doces Biba, Érica Saboya, assumiu a responsabilidade pelo erro e informou que está “trabalhando intensamente para identificar e contatar diretamente cada titular dos dados afetados” para se desculpar e prestar o suporte necessário. “Fomos alertados sobre uma falha grave e inaceitável em nosso processo interno de descarte de documentos, que resultou na exposição indevida de currículos em nossas embalagens de envio”, disse. Segundo a nota, a empresa suspendeu temporariamente as operações de envio para auditar e reformular o fluxo de descarte e manuseio de documentos, além da promoção de treinamento de segurança da informação para os funcionários. Initial plugin text “Pedimos nossas mais sinceras desculpas aos candidatos afetados e aos nossos clientes, que confiam em nosso trabalho. Este episódio não reflete o carinho e o cuidado que dedicamos à Doces Biba durante décadas de tradição no mercado doceiro, mas servirá para nos tornarmos uma empresa ainda mais segura e profissional.” Quais as consequências para a empresa? O caso acende o alerta sobre o cumprimento da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Especialistas ouvidos por PEGN apontaram que a utilização de currículos como embrulho de produtos é uma violação direta da legislação, acarretando sérias consequências jurídicas e administrativas para as empresas. O professor Filipe Medon, da Fundação Getulio Vargas Direito Rio, destaca que a prática configura uma falha na segurança e no sigilo das informações. “O uso de currículos como material de embalagem pode sim configurar uma violação à LGPD, especialmente quando esses currículos tenham sido enviados de maneira integral, ou seja, demonstrando dados pessoais comuns ou sensíveis”, explica. Medon ressalta que a empresa é responsável pelos atos de seus funcionários e que as sanções podem ser civis e administrativas. Sobre a possibilidade de indenização, ele pondera que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) tem exigido a prova de dano adicional para dados cadastrais. Para a advogada Caroline D’Agostino, do Arnone Advogados Associados, a prática revela um “desvio claro de finalidade”, infringindo princípios como adequação e necessidade. Ela enfatiza a responsabilidade objetiva da organização. “A empresa responde pelos danos decorrentes do tratamento de dados pessoais realizado no âmbito de suas atividades, independentemente de culpa direta”, pontua. A especialista alerta que a exposição de informações pode gerar multa simples de até 2% do faturamento da empresa (limitada a R$ 50 milhões por infração), além de danos reputacionais e riscos no âmbito consumerista. Para ela, a presença de dados sensíveis, como origem racial ou saúde, torna a infração ainda mais grave por gerar riscos de discriminação. Alberto Goldenstein, sócio-fundador do GMP|GC Advogados Associados, reforça que o caso se enquadra como tratamento irregular e incidente de segurança, pois viola a confidencialidade que o titular espera. Ele explica que a falha na governança interna não exime a companhia de culpa. “Em regra, a empresa não se exime de responsabilidade apenas por alegar que a conduta partiu de empregado ou colaborador”. Além da aplicação de multa, Goldenstein aponta que o caso pode gerar investigações por órgãos de fiscalização e defesa do consumidor, assim como repercussões no campo judicial, com pedidos de reparação individual ou até coletiva. Ele acrescenta que o reaproveitamento desses papéis revela uma falha crítica nos protocolos de eliminação segura de documentos. Quer ter acesso a conteúdos exclusivos da PEGN? É só clicar aqui e assinar! Leia também
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