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"textContent": "\nA Lituânia construiu, em pouco mais de uma década, um forte ecossistema de tecnologia, apostando em incentivos a novos negócios, formação de talentos e em uma mudança cultural que transformou a antiga busca por estabilidade em uma ambição por empreender. Após ter declarado a independência da União Soviética há 36 anos, o país vê a nova geração abandonar o pensamento antiempreendedorismo, enraizado na época do regime soviético, e aposta em tecnologia e inovação para superar uma potencial estagnação do setor de manufatura. Initial plugin text “Quando a economia ainda é muito nova, busca-se segurança. Essa era a mentalidade há cerca de 20 anos: as pessoas queriam um emprego que pagasse bem para ter estabilidade até a aposentadoria. Agora a estrutura da economia do país está mudando. O setor de tecnologia está ganhando força”, declara Gintaré Verbickaitė, CEO da Unicorns Lithuania, associação de startups do país, que reúne cerca de 130 membros. Parte da mudança da mentalidade para uma agenda pró-empreendedorismo pode ser explicada pelo retorno, a partir de 2019, de muitos lituanos que emigraram para outros países para escapar de crises econômicas. “Essas pessoas estão voltando com muitas ideias e vimos uma onda de novos negócios sendo criados. Eles retornam com mais experiências e, como sabem o idioma, sentem menos medo de empreender”, opina Greta Ilekytė, economista sênior no Swedbank. Como integrante do estado multinacional socialista, a região era responsável pela produção de peças para rádios e outros eletrônicos. Quando a Lituânia se tornou o primeiro país a declarar independência da União Soviética, em 1990, a manufatura foi o setor que ajudou a nação a se reerguer. “Tínhamos uma economia muito pobre quando conquistamos nossa independência. Ao olhar para uma escala global, o crescimento da Lituânia foi um dos mais rápidos nos últimos 25 anos. É uma história de sucesso”, afirma Ilekytė. Dados do Ministério das Finanças do país mostram que o PIB da Lituânia cresceu seis vezes entre 2000 e 2024, saltando de € 13 bilhões para € 78 bilhões. Em 2024, a economia do país cresceu 2,7% – a União Europeia cresceu 1% no mesmo período, chegando a € 17 trilhões, segundo o Eurostat. 16% do PIB lituano ainda vêm da manufatura – alimentos, móveis e fármacos estão em destaque. Ilekytė acredita, porém, que, daqui para frente, a Lituânia não poderá depender tanto dessa indústria. Os salários cresceram cerca de 10% ao ano na última década, acima da média de países como Alemanha e França, que têm taxas em torno de 2%. Com o aumento dos custos de mão de obra, o país começa a perder competitividade na exportação de bens, que ficam mais caros no mercado internacional. Soma-se a isso a crescente competição com a China. Para reverter esse cenário, o governo concede incentivos para quem deseja abrir o próprio negócio no país. Novas empresas não pagam impostos sobre o lucro nos primeiros dois anos e há benefícios extras para negócios que investem em pesquisa e desenvolvimento, que podem reduzir despesas com taxas em até três vezes. Indrė Riaukaitė, assessora sênior de investimentos da Invest Lithuania, agência de promoção do país para estrangeiros, acrescenta que empresas de base tecnológica podem receber até 20% de reembolso dos salários dos funcionários por dois anos, desde que empreguem pelo menos 20 pessoas. “Essencialmente, queremos garantir que haja talentos com alta capacidade e que a economia está crescendo”, afirma. De acordo com a executiva, é possível abrir uma empresa em duas semanas no país. Além disso, existe um visto específico para fundadores de startups não europeus que desejam empreender no país. O Startup Visa garante a permanência por cerca de dois anos para entrar no mercado e, então, pedir a residência no país. Com uma população de 2,9 milhões de pessoas – pouco mais de 1% da brasileira –, o país báltico registra impacto similar do setor de tecnologia no PIB ao Brasil. Segundo números do Banco da Lituânia, o macrossetor de tecnologia da informação e comunicação (TIC) representou 5% do PIB nacional em 2024. No Brasil, dados da Associação Brasileira de Internet (Abranet) apontam uma participação de 6,5%. Saiba mais “Os serviços de alto valor agregado representam um fator de sucesso para o crescimento da Lituânia. A tecnologia e as startups ajudaram o país nos últimos cinco anos e acredito que o impacto só esteja aumentando”, diz a economista. De acordo com dados da Unicorns Lithuania, as startups do país se concentram em três frentes: SaaS para negócios (31,8%), fintechs (22,3%) e healthtechs (14,6%). O país vivenciou um boom de startups de serviços financeiros de 2014 até 2025: de 44 para 282, impulsionado pelo movimento de saída do Reino Unido da União Europeia. “Vimos uma oportunidade porque muitas fintechs precisariam de licenças para continuar operando no bloco. O Ministério das Finanças, o Banco Central e a agência de promoção se uniram para agir rápido e tornar o processo de obtenção de licenças mais eficientes”, indica Riaukaitė. Vilnius, a capital, se tornou sede para a Revolut, por exemplo. O futuro do ecossistema de startups Com 1,5 milhão de pessoas em idade ativa para trabalhar, a Lituânia registrou empregabilidade de 75,1% no terceiro trimestre de 2025. Um levantamento do Unicorns Lithuania indicou que startups e scale-ups empregaram em torno de 20 mil pessoas no ano passado, um crescimento de 2% em relação ao ano anterior. De acordo com um relatório do Startup Lithuania em parceria com o Dealroom, o ecossistema de startups lituano ultrapassou o valuation de € 16 bilhões em 2025, registrando um crescimento de 39 vezes na última década. Ao todo, o país soma cerca de 1.150 startups — uma para cada 2,5 mil habitantes. Seu vizinho báltico, Estônia, já conhecido pelas iniciativas de empreendedorismo digital e berço de gigantes como Skype, Wise e Bolt, registrou 1.566 startups no primeiro semestre de 2025 – uma para cada 830 habitantes. “O ecossistema de startups da Lituânia continua a crescer rápido. Se mantivermos esse fôlego, temos uma clara oportunidade de triplicar o ecossistema e gerar mais de € 5 bilhões em pagamentos de impostos até 2030”, pontua Verbickaitė. Hoje, a Lituânia é a casa de cinco startups que ultrapassaram o valuation de US$ 1 bilhão – e existe um desejo de se tornar a nação com mais unicórnios per capita do mundo – atualmente, a taxa é de 1 para 580 mil. São eles: Vinted, Nord Security, Baltics Classified Group, Flo e Cast AI (que recebeu o título no mês passado). No momento, a Estônia é o país que detém o título de maior número de unicórnios por habitantes, dez empresas conquistaram o status, e a relação per capita é de 1 para 137 mil. O que impede a Lituânia de crescer essa métrica é o fato de que algumas grandes empresas, como a Hostinger, poderiam ter chegado ao valuation de US$ 1 bilhão, mas seguem bootstrapping desde a fundação. A Kilo é outro exemplo. A healthtech foi fundada por Tadas Burgaila em 2013, como um aplicativo que oferecia planos alimentares e rotinas de exercícios. O negócio cresceu e se tornou um ecossistema de soluções, apoiando o lançamento de apps a produtos digitais. A Kilo é um dos principais cases do país e foi considerada a segunda empresa de tecnologia europeia de maior crescimento em 2022 pelo Financial Times. Ele relembra que o ecossistema começou a se organizar há cerca de 15 anos, quando os jovens fundadores costumavam se encontrar em cafés para trabalhar. “Vimos que as empresas antigas eram todas inimigas porque trabalhavam apenas no mercado doméstico. A nossa geração pôde construir negócios globais e não concorrer uns com os outros. Estávamos todos no mesmo barco e decidimos nos apoiar”, comenta. Ele esteve por trás da fundação da Unicorns Lithuania. Sentindo falta de novos fundadores para manter o ecossistema vivo, os empreendedores apostaram na televisão e nas redes sociais. Burgaila ocupou o horário nobre com um programa de televisão em que os participantes competem com suas ideias de negócio. “O objetivo é chamar a atenção de familiares para incentivar as crianças a ter essa mentalidade empreendedora. Esses adolescentes de 16 anos estão no horário nobre e não se trata de uma competição musical ou de dança. Eles apresentam suas ideias. Acreditamos no exemplo”, afirma. Burgaila também criou a venture builder Lost Astronaut para atrair grandes talentos para o empreendedorismo – ele mira especificamente nas pessoas gabaritadas que ajudaram startups nos primeiros passos, mas ainda não são fundadoras. Em 11 meses, 22 startups foram fundadas e mais de 40 investimentos foram feitos, com cheques entre US$ 25 mil e US$ 250 mil, do próprio capital do empreendedor. “Não quero ter uma perspectiva romantizada, mas devo ter compromisso e apoiar o país porque é onde vivo, onde quero criar meus filhos. O que podemos fazer por um país pequeno é exportar nossa inteligência e nossos produtos, e reinvestir o dinheiro aqui”, declara. Outra iniciativa em prática no país é a Junior Achievement, ONG independente, com financiamento próprio, apoiada pela Unicorns Lithuania. Trata-se de um programa global de empreendedorismo estudantil em parceria com escolas e professores, que atuam como mentores e acompanham os alunos por um ano em etapas como identificação de ideias, validação e construção de MVPs, com resultados considerados bem-sucedidos na Lituânia. O objetivo agora é escalar o projeto para que todo estudante no país, ao concluir a escola, tenha tentado criar uma startup ao menos uma vez. Para isso, estuda-se a adaptação do currículo escolar para integrar o empreendedorismo às disciplinas tradicionais, capacitação e suporte aos professores para a parte prática, e oferta de ferramentas para estimular negócios digitais, incluindo o uso de IA e outras tecnologias, ampliando a visão dos alunos além de negócios físicos. *A repórter viajou a convite das empresas Hostinger e Nord Security. Quer ter acesso a conteúdos exclusivos de PEGN? É só clicar aqui e assinar!",
"title": "Como a Lituânia está usando o empreendedorismo para redesenhar a economia"
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