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“Acham que Deus não está na nossa vida”: mulher vive 'trisal' no interior do Paraná e relata preconceito e fé

GQ | Seu Guia de Moda Masculina, Cultura e Lifestyle [Unofficia… July 3, 2026
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“Os dois se relacionam entre si?” é uma das perguntas que Flávia Cardoso, 29, mais ouve desde que passou a mostrar nas redes sociais a vida em um trisal com Maycon Douglas da Silva, 30, e Alan de Oliveira, 32. A curiosidade dos seguidores costuma vir acompanhada de outras dúvidas: como a relação funciona, se a família aceita, se há ciúmes e a chance de mais alguém entrar no relacionamento. As perguntas dizem muito sobre o olhar de fora. Para quem acompanha o trio pelas redes, o trisal pode parecer uma relação guiada apenas por desejo ou curiosidade sexual. Mas na casa onde vivem, em Santo Antônio da Platina, interior do Paraná, a dinâmica também passa por regras, contas, tarefas domésticas, religião, renda e conflitos cotidianos. Flávia é formada em enfermagem, mas não atua na área. Hoje, trabalha com redes sociais e plataformas de conteúdo adulto. Maycon, 30, e Alan, 32, trabalham com pintura automotiva. Os três vivem há cerca de dois anos com a filha dela em uma cidade de aproximadamente 46 mil habitantes. O começo de tudo Antes do trisal, Flávia e Alan tiveram um relacionamento. Durante esse período, surgiu a ideia de chamar Maycon, amigo de Alan, para encontros entre os três. No início, segundo ela, não havia intenção de transformar aquilo em um compromisso estável. “Ele que deu a ideia de chamar um amigo dele. No caso, o Maycon. A gente chamou algumas vezes, saiu junto, mas nada sério”, afirma. No fim de 2023, Flávia e Alan terminaram. Ela passou a se relacionar com Maycon, mas diz que ainda amava Alan. Foi então que propôs aos dois que tentassem viver uma relação a três, não mais como experiência pontual, mas como convivência. Leia mais na GQ Brasil “No início não foi fácil. Não foi uma coisa que os dois aceitaram”, afirma Flávia. “Mas, com o tempo, a gente sentou, conversou e decidiu tentar”. Para que a relação funcionasse, diz ela, a vida em casas separadas não parecia uma opção. Desde o começo, o trisal passou a dividir o mesmo teto. “Se fosse cada um na sua casa, não iria dar certo”, diz. Uma relação fechada e ciumenta Apesar de não seguir o modelo monogâmico tradicional, o trisal tem acordos definidos. O relacionamento é fechado, sem envolvimento com pessoas de fora. Outra regra é que o sexo aconteça sempre entre os três, e não em duplas. “Não posso me relacionar sexualmente só com um. Sempre o nosso sexo tem que ser nós três juntos”, afirma Flávia. “E a outra regra foi que a gente manteria o nosso relacionamento fechado”. Maycon e Alan são heterossexuais e, segundo ela, não mantêm uma relação sexual ou afetiva entre si. “Têm um carinho ali, mas é um carinho de amizade, de irmandade”, diz. A vida a três não eliminou o ciúme. Pelo contrário: segundo Flávia, esse é um dos pontos que mais exigiu adaptação. Os conflitos costumam surgir quando um dos dois sente que o outro recebeu mais atenção, carinho ou prioridade. ”Tem ciúmes tanto entre eles como com pessoas de fora também”. No início, ela afirma que os três não tinham maturidade para lidar com esses incômodos. Quando algo desagradava, cada um ficava no próprio canto até a convivência voltar ao normal. Com o tempo, a estratégia mudou. “Hoje, a gente prefere sentar, conversar sobre o assunto que está desagradando cada um, ver quem está errado, olhar até mesmo para o próprio erro e tentar não fazer de novo”, resume. “Não é porque é a três que é bagunça, que qualquer um fica com qualquer um. Não. É nós três somente”. A rotina dentro de casa Na vida doméstica, as tarefas são divididas. Limpeza, roupa, quintal e organização da casa entram na rotina dos três. “Às vezes, um pega para fazer a limpeza geral, o outro pega para cozinhar, o outro pega para lavar roupa. Isso incluindo eu também”, explica Flávia. A cozinha, segundo ela, fica mais sob responsabilidade de Maycon. A administração das contas fica mais concentrada nela. Flávia diz que os dois não gostam muito quando ela se define como “chefe da família”, mas afirma que costuma assumir a palavra final nas decisões. A rotina também envolve a filha de Flávia, de seis anos. Ela conta que conversou com a menina antes de consolidar a relação e que a vida familiar precisou ser organizada considerando a convivência. O preço de assumir Assumir o trisal trouxe mudanças nas relações sociais de Flávia. Ela diz que perdeu proximidade com amigas de infância e de faculdade. Algumas amizades não acabaram de forma explícita, mas deixaram de ter a intimidade. “É aquele tipo de amizade que a gente encontra na rua, fala um oi, mas não tem mais laço”, diz. “Era relação de sair, contar segredo, de estar uma na casa da outra”. Na família, a reação foi dividida. Flávia afirma que conversou principalmente com o pai, a avó paterna e a filha. O pai perguntou se ela estava feliz. Ao ouvir que sim, apoiou a decisão. A avó, mesmo sendo católica e conservadora, também ficou ao lado dela. Uma tia foi outra pessoa que acolheu a relação. Com o restante da família, o contato mudou. Flávia diz que os três não costumam ser convidados para festas e encontros familiares. Ela cita o casamento de uma prima, para o qual não foi chamada, como um episódio marcante. “Sei que não fui convidada por conta de ser trisal”, afirma. Segundo Flávia, a família de Maycon e Alan não mantém contato com eles. E ainda há a questão da fé. Fé e pertencimento Na Umbanda eles citam acolhimento que não tiveram em outras religiões Acervo pessoal A religião se tornou uma rede de apoio para o trisal. Flávia conta que foi criada no catolicismo, fez primeira comunhão e crisma, mas diz que o relacionamento não foi acolhido quando eles tentaram se aproximar de espaços católicos e evangélicos. “A gente foi tentar fazer parte desse ciclo religioso e não foi aceito”, indica. O acolhimento, segundo ela, veio na umbanda. Os três foram batizados juntos na religião. “As pessoas acham que, por sermos três, a gente não tem a dignidade de Deus estar na nossa vida”, diz. “Pelo contrário, por mais que a gente seja três pessoas, a gente se sente muito abençoado”. Hoje, ela afirma que a religião de matriz africana fortaleceu o relacionamento e ajudou os três a enfrentarem parte do preconceito vivido fora dali. “Para eles, isso não tem importância: se você é homem e gosta de homem, se está com três pessoas. O que importa é você ser uma boa pessoa”, afirma. Das redes à renda Além dos trabalhos individuais, o trio divide contas em redes de conteúdo adulto. A exposição pública começou depois que Flávia passou a acompanhar outros trisais nas redes. Inspirada por perfis que falavam sobre relações não monogâmicas, ela decidiu criar uma página para mostrar a rotina dos três. “Quando a gente assumiu o trisal, falei: vamos criar uma página”, lembra. O crescimento foi rápido. “Num dia a gente estava com 300 seguidores, no outro dia acordamos com 5.000, no outro dia com 20 mil, e foi subindo”. Mais alguém na relação? Entre as perguntas dos seguidores, também aparece a possibilidade de entrada de outra pessoa no relacionamento. Flávia, que é bissexual, diz que a hipótese de uma mulher já foi cogitada pelos três, mas que, por enquanto, a resposta é um sólido: não. Os motivos passam por ciúme, rotina e adaptação. Para ela, incluir uma nova pessoa exigiria reorganizar uma dinâmica que os três já levaram tempo para construir. “Colocar uma outra pessoa que não está acostumada com isso seria difícil”.

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