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"textContent": "\nHá cerca de uma década, Cássio Brandão, 44, voltava de Londrina, no Paraná, para São Paulo com uma coleção recém-comprada de camisas de futebol quando foi parado pela polícia. Diante de centenas de peças no carro, precisou explicar que não se tratava de mercadoria ilegal, mas do resultado de um garimpo. O episódio resume parte da trajetória do paulistano aficionado dessas relíquias por décadas. “Não sou um colecionador de camisas, mas um contador de histórias. Uso as camisas para falar de pessoas e acontecimentos”, esclarece. Assista ao vídeo abaixo! Corintiano roxo, Cássio cresceu na Vila Albertina, na Zona Norte de São Paulo. A paixão pelo esporte veio cedo. Uma de suas primeiras lembranças é ter assistido na televisão a um gol do centroavante Viola, do Timão, em 1988. Na infância na periferia, queria vestir as camisas de futebol para se aproximar de seus ídolos, mas sua família não tinha condição de comprá-las. Às vezes, conseguia uma falsificada. “Toda vez que tinha a do Viola, eu me sentia um pouco ele”, conta. “Meu desempenho era melhor no campinho de várzea.” A primeira peça própria, um manto do Corinthians de número 10, do esportista Neto, veio aos 13 anos. O tempo passou e, de maneira informal, a partir de 1999, o entusiasta começou a estruturar uma coleção. O hobby foi se expandindo, se expandindo até que, em 2018, virou negócio — junto de suas atividades como publicitário —, com o Alambrado Futebol Clube. Trata-se de uma comunidade de colecionadores, que reúne 65 pessoas articuladas em torno de compra, venda, troca, pesquisa e circulação de roupas históricas. O impressionante acervo o levou ao “Guinness World Records”. Em abril de 2024, Cássio foi reconhecido como o dono da maior coleção de camisas de futebol do mundo, com 6.200 itens. Atualmente, afirma, já se encontra perto dos 7.200, com cerca de 1.800 clubes e seleções representados. No Alambrado, as vestes se tornam documentos históricos. Para autenticar os achados, o aficionado mantém quase 50 mil materiais de apoio, entre jornais, revistas, fotos, ingressos e arquivos de época. “Nem tudo está na internet”, explica. “Busco a etiqueta, a costura, a numeração, o tecido... Nosso trabalho lembra a arqueologia.” Marcas preservadas podem ser decisivas para confirmar a legitimidade do item. “Se a camisa está suja e eu pego uma foto da partida com aquela sujeira, com a etiqueta rasgadinha, consigo fazer o match entre a imagem e o artigo”, explica. A lavagem fica restrita ao “último, último caso”. Antes disso, ocorre um processo de higienização, com a retirada de odor, banho de sol e quarentena. “As peças ficam em uma sala controlada antes de vir para cá, onde evitamos fungos e bactérias.” Para ele, as camisas mais valiosas não são necessariamente as mais caras. “É difícil escolher um filho preferido”, diz. Ainda assim, destaca aquela usada por Pelé em 1969, na partida em que a rainha Elizabeth II pediu para conhecê-lo durante visita ao Brasil, e a do Corinthians do primeiro jogo a que Cássio assistiu em um estádio, em 6 de dezembro de 1990, no Pacaembu. O colecionador segura camisa usada por Pelé na visita da rainha Elizabeth II ao Maracanã, em 1969 Renato Toso Brilham ainda o manto vestido pelo goleiro Cássio na defesa contra Diego Souza, em 2012, e uma camisa de Sócrates da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, onde o craque estudou. O fanático também menciona uma veste de Diego Maradona do Napoli, de 1991. As relíquias chegam por muitos caminhos: jogadores, fãs, familiares, roupeiros, fisioterapeutas, massagistas, dirigentes... Cássio, por exemplo, comprou uma coleção de um motorista que dirigiu o ônibus do Corinthians por quase vinte anos. Ao fim das partidas, ele pedia lembranças aos atletas. Trata-se do ecossistema do futebol, como ele chama a rede informal costurada ao longo de mais de duas décadas, que sustenta grande parte do portfólio. O Alambrado, que conta com seis funcionários, tem uma loja física aberta ao público na Rua Cristiano Viana, em Pinheiros, São Paulo, e um espaço reservado para raridades, de acesso restrito, com controle de temperatura, umidade e luz. Entram em contato com o grupo desde curiosos até stylists, como o do cantor Bad Bunny. Em fevereiro deste ano, na passagem do astro porto-riquenho pelo Brasil, o músico apareceu em sua segunda apresentação no país com um agasalho usado por Pelé na Copa do Mundo de 1966. A joia foi emprestada pelo Alambrado sem custo, com contrato e valor estipulado apenas como garantia de devolução. “O objetivo nunca foi financeiro”, ressalta Cássio. “Queremos contar uma boa história.” No caso, conectar Bad Bunny a Pelé, à cultura brasileira e ao legado do futebol. A repercussão se mostrou imediata. A procura pelo negócio bombou, assim como havia acontecido com outro empréstimo de visibilidade, em 2023. Antes de uma corrida em Interlagos, o piloto inglês de F1 Lewis Hamilton ostentou uma roupa de membro da comissão técnica da seleção brasileira da Copa de 1994. Em relação aos artefatos de Pelé, seus favoritos, Cássio organizou um grupo de nove investidores para manter no Brasil o que chama de “joias da coroa”. São 115 itens do craque. A meta é trazer visibilidade ao conjunto em exposições e ações culturais. “Queremos muito oferecer dimensão global às peças, mas não queremos vendê-las”, explica. “Sou alucinado por Pelé, a figura brasileira mais importante de todos os tempos.” Em sua avaliação, o atleta é bem menos celebrado do que deveria por causa do racismo estrutural. “Pelé teria que ser nome de rua, avenida, aeroporto, já que poucas pessoas no mundo representaram tanto o país como ele.” Como especialista, Cássio percebe mudanças importantes na fabricação dos itens esportivos ao longo da história. Cita, por exemplo, uma camisa do Corinthians de 1955, a mais antiga do clube em seu portfólio. De algodão, produzida pela Atleta. “Na chuva, devia pesar uns 5 quilos”, calcula. Em contraste, as vestes atuais incorporam tecnologia de retenção de suor, cortes mais ajustados e tecidos sintéticos. O agasalho usado por Bad Bunny, observa, já figura como um exemplo de transição, “mais próximo do poliéster”. Peça usada por Bad Bunny no segundo show no país Reprodução O entusiasta leva em conta ainda a democratização do acesso. “Hoje, uma camisa de torcedor do Corinthians custa R$ 400, enquanto a versão de jogador chega a R$ 800”, compara. Em sua visão, os preços elevados ajudam a alimentar o mercado pirata. Ele avalia que as réplicas chinesas e tailandesas ficaram bastante sofisticadas; algumas, diz, são difíceis de distinguir das originais. Assim, o acervo antigo ganha mais valor: com tesouros únicos, especiais, que não podem ser reproduzidos. “Temos uma coisa meio similar ao vinil”, acredita. Cássio resolveu dividir conhecimento também por meio de seu primeiro livro, Manto Alvinegro (Ed. Capella Editorial), lançado em fevereiro, no Museu do Futebol. A obra de mais de 400 páginas reúne uma pesquisa dedicada às camisas do Corinthians, seu time do coração. Com fotos de Lailson Santos, conta com depoimentos de trinta corintianos sobre as peças mais importantes de sua vida, entre eles Casagrande, Rivellino, Neto, Basílio e Gabi Zanotti. Revistas Newsletter",
"title": "Colecionador brasileiro de camisas de futebol teve ajuda até de motoristas de clubes para quebrar recorde mundial com 7 mil peças raras de Maradona, Pelé e Corinthians"
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