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  "textContent": "\nA atriz Paolla Oliveira publicou em seu perfil no Instagram no domingo (28), um vídeo em que alerta para o uso de inteligência artificial na criação de imagens e vídeos forjados envolvendo mulheres. No relato, a atriz afirmou que há fotos suas na internet que ela nunca tirou, vídeos em que aparece dizendo coisas que nunca disse e corpos falsos circulando com seu rosto. A atriz disse que esse tipo de situação já virou rotina e que precisa acionar advogados com frequência para lidar com o uso indevido de sua imagem. No vídeo, Paolla também chamou atenção para a realidade de mulheres que não têm acesso à assessoria jurídica e para os impactos desse tipo de violência sobre meninas.“Como uma mulher cresce inteira em um mundo onde qualquer pessoa pode despi-la, deixá-la vulnerável, em segundos?”. O alerta de Paolla reacende o debate sobre uma violência digital que não se restringe a celebridades. Mulheres com presença pública nas redes, professoras, estudantes e meninas também têm sido alvo de conteúdos manipulados por IA. A violência pode envolver fotos comuns, retiradas de redes sociais, usadas para criar montagens realistas de nudez ou cenas sexuais falsas. Imagem falsa com danos reais A quadrinista e jornalista Helô D’Angelo foi uma das vítimas desse tipo de violência. Ela descobriu o caso em 2024, durante o período em que o X, antigo Twitter, foi suspenso no Brasil. Uma seguidora que mora fora do país enviou prints mostrando que fotos suas haviam sido manipuladas. “Era um monte de fotos minhas reais, porém a pessoa pegou fotos vestidas, passou por uma inteligência artificial e criou nudes. Ficava perguntando se eu tinha um OnlyFans”, afirma. Helô diz que não sentiu medo, mas raiva e frustração por precisar interromper a própria rotina para tentar entender como denunciar e retirar o conteúdo do ar. A dificuldade não esteve apenas na plataforma. “Precisava explicar o que era isso, o que era inteligência artificial. Fui em vários lugares. Fui na Delegacia da Mulher, disseram que não atendiam esse tipo de caso. A de crimes cibernéticos também disse que não atendia”, lembra. “Todos os lugares que fui, eu sentia que a polícia estava assim: ‘Ah, deixa para lá, essas fotos não são reais mesmo’. Isso me deixou muito abalada”, cita. O caminho que funcionou, segundo Helô, foi acionar judicialmente a plataforma. Ela e o advogado entraram com um processo contra o X para pedir a retirada do conteúdo. “O Twitter foi obrigado a retirar as imagens do ar e a me pagar uma quantia em dinheiro. Já pagou, já está tudo certo. Agora, eu quero muito conseguir os dados dessa pessoa para poder processá-la também”, diz. “Até hoje não foi punida. Talvez ela nem saiba que o Twitter perdeu um processo para que aquelas imagens fossem retiradas do ar. Essa experiência me mostrou: não é que as plataformas não estejam preparadas para lidar com isso. Elas não estão nem aí. Não existe o interesse”, emenda. Ferramenta de controle Para Ingrid Fernandes, gerente de tecnologia do Instituto AzMina, especializada em dados, segurança digital e direitos humanos, as imagens falsas, também chamadas de deepfakes sexuais devem ser entendidos como parte de uma violência de gênero mais ampla. Segundo a gerente de tecnologia, esse tipo de conteúdo é usado para rebaixar, debochar, envergonhar publicamente e, em muitos casos, tentar retirar mulheres, meninas e pessoas LGBTQIAPN+ do espaço público. “Antes, para expor alguém, o agressor precisava de um material real. Hoje, não. Se você posta uma foto do seu rosto numa rede social, alguém pode pegar essa foto, usar inteligência artificial para criar um corpo que nunca existiu”, afirma Ingrid. “A humilhação é real, a chantagem é real, a perseguição social é real”. Ingrid afirma que a violência não atinge todas as vítimas da mesma forma. Meninas negras, pessoas LGBTQIAPN+, meninas pobres e moradoras de periferias podem enfrentar camadas adicionais de vulnerabilidade, como hipersexualização, racismo, risco de expulsão de casa e menor acesso a um advogado, informação e canais de denúncia. Uma violência anterior, agora sofisticada pela IA Para Fernanda Rodrigues, coordenadora de Pesquisa do Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS), doutoranda em Ciência, Tecnologia e Novas Fronteiras do Direito, a inteligência artificial sofisticou uma violência que já existia. O vazamento de fotos íntimas por parceiros atuais ou antigos já era um problema antes da popularização dessas ferramentas, reforça. “As imagens geradas com a ajuda da IA são tão ou mais capazes de provocar danos às vítimas. Mulheres que passaram por isso têm relatado que sentiram uma sensação de violação de sua imagem, dignidade e privacidade como se fosse a divulgação de uma foto íntima real”, comenta. A exposição na internet também amplia o dano, porque o material pode alcançar muitas pessoas antes que seja removido. Poucos cliques A popularização das ferramentas de inteligência artificial generativa mudou a escala e a velocidade desse tipo de violência. Fernanda afirma que sistemas capazes de produzir esse tipo de conteúdo costumam estar a poucos cliques de distância. Em setembro do ano passado, ela diz ter feito uma pesquisa no Google em busca de casos de mulheres negras vítimas de deepfakes. Encontrou, logo entre os primeiros resultados, sugestões de páginas para geração de imagens íntimas, com mulheres nuas retratadas e até sugestões de prompts. “Sem nenhuma regulação, estes sistemas de IA são criados e disponibilizados facilmente, muitos com uma capacidade de gerar imagens que parecem reais, encurtando o caminho para pessoas mal-intencionadas”, ressalta. O problema nas escolas O ambiente escolar aparece como um dos pontos de maior preocupação. Para Ingrid, a escola é um espaço de convivência obrigatória, o que torna a violência ainda mais grave. “No dia seguinte, a menina e a professora vão ter que voltar para a escola, sentar na mesma sala, na mesma carteira, olhar na cara de gente que viu a imagem, que debochou dela, que compartilhou”, exemplifica. Tratar imagens sintéticas como algo menos grave é um erro. “A dor não é falsa”, resume. Quando a vítima é professora, a violência também pode atingir sua autoridade em sala de aula, sua saúde emocional e a relação com colegas, famílias e estudantes. Por isso, afirma a especialista, escolas não devem tratar o caso como “treta da internet”, mas como violência facilitada por tecnologia. “A escola não pode nunca tratar essa questão como uma fofoca”, afirma. Acolher sem julgar A primeira resposta, segundo Ingrid, deve ser o acolhimento sem julgamento. Antes de qualquer medida técnica ou jurídica, a vítima precisa ser escutada e levada a sério. A especialista ressalta que escolas devem evitar perguntas que culpabilizem a vítima, como por que ela postou determinada foto ou por que não bloqueou determinada pessoa. Também não devem minimizar o episódio, expor a vítima sem autorização nem confrontar o agressor de forma improvisada. Em casos envolvendo crianças e adolescentes, ela cita a importância de acionar equipe pedagógica, direção, apoio psicológico, conselho tutelar, famílias e autoridades, sempre com cuidado para não ampliar a exposição. “Sem protocolo, cada caso vira uma improvisação movida a emoções repentinas e, no fim das contas, quem vai pagar é a vítima”, afirma. Caminhos de denúncia Larissa Santiago, cofundadora e conselheira do Blogueiras Negras, parte da Rede de Mulheres Negras Afrolatinoamericanas, Caribenhas e da Diáspora, a Articulação de Mulheres Negras Brasileiras e a Rede de Mulheres Negras do Nordeste, cita que há diferença entre vazamento de imagens íntimas reais e criação de imagens íntimas falsas por IA. No segundo caso, afirma, ainda não há uma legislação específica consolidada, embora o tema esteja em debate no Congresso Nacional. “Essas mulheres vítimas podem fazer essa ligação para o 180 e relatar a sua violação para que sejam atendidas”, indica. Larissa também defende que as vítimas conheçam seus direitos, peçam remoção de conteúdo e, quando possível, busquem reparação. “As mulheres como vítimas, as pessoas como vítimas de violação de suas imagens íntimas, têm como direito a remoção de conteúdo, provocando seja o Judiciário, seja a própria plataforma”, diz. Regulação e responsabilidade das empresas As especialistas ouvidas nesta reportagem defendem que o debate não pode se limitar à pergunta sobre quem criou a imagem falsa. Também é preciso discutir quem desenvolve as ferramentas e quem permite que o conteúdo circule. Para Fernanda Rodrigues, o primeiro passo seria avançar em uma regulação de sistemas de inteligência artificial no Brasil, com regras específicas para empresas que desenvolvem modelos generativos. Entre as medidas citadas por ela estão a obrigação de identificação do usuário que cria o conteúdo, a inserção de marca d’água de conteúdo artificial e a coleta de comprovação de consentimento da pessoa retratada. Segundo Fernanda, a disseminação de conteúdo sexual artificial não autorizado mostra que as leis atuais não são suficientes para enfrentar o problema. “É necessária uma regulação específica para os impactos da IA”, pontua. Quanto à circulação desse conteúdo, Fernanda defende que plataformas de busca não impulsionem ou priorizem resultados que levem a páginas voltadas à geração de imagens íntimas artificiais, nem listem ferramentas que funcionem sem consentimento da pessoa retratada. “É preciso que o acesso a esses modelos não seja facilitado e que o poder público adote regras e mecanismos rígidos de fiscalização e responsabilização”. Plataformas não são espaços neutros, alerta Ingrid. “Elas decidem o que ganha alcance, lucram com o engajamento. E o movimento, nesse caso, é justamente um conteúdo que vai humilhar, expor e chocar”. É preciso perguntar não apenas quem fez, mas quem poderia ter impedido a circulação e não impediu. Larissa também afirma que plataformas devem remover conteúdos quando acionadas. Para ela, a falta de avanço na regulamentação das plataformas digitais dificulta a proteção das vítimas. Como se proteger e o que fazer se for vítima Não compartilhar a imagem, nem para denunciar ou avisar outras pessoas. Cada reenvio amplia a violência Registrar provas antes de bloquear ou apagar o contato responsável. É importante salvar tudo antes de perder acesso às mensagens, perfis ou links Tirar prints e gravar a tela inteira, incluindo data, hora, nome do perfil, plataforma, links e contexto da circulação Se o conteúdo estiver em vídeo, fazer captura da tela ou filmar a reprodução Em conversas de WhatsApp, exportar a conversa, quando possível Guardar as evidências em local seguro e evitar mantê-las apenas no dispositivo onde a violência está acontecendo Usar autenticação em dois fatores, senhas fortes e, se necessário, um e-mail de pessoa de extrema confiança para preservar acessos Denunciar o conteúdo na própria plataforma Procurar canais de denúncia e acolhimento, como SaferNet, Disque 100, Ligue 180, delegacias especializadas e delegacias de crimes cibernéticos Em casos envolvendo crianças e adolescentes, acionar o conselho tutelar Procurar apoio jurídico para avaliar boletim de ocorrência, ata notarial, pedido de remoção e eventual responsabilização da plataforma e do agressor",
  "title": "“A imagem pode ser falsa, mas os danos não”: fotos íntimas fakes geradas por IA atingem mulheres e meninas"
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