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  "textContent": "\nVitor Araújo passou a tarde inteira reaprendendo as próprias músicas. O motivo não era falta de ensaio, esquecimento ou insegurança. No dia em que gravaria “Toró”, seu primeiro grande trabalho internacional como solista à frente de uma orquestra sinfônica de porte europeu, o pianista pernambucano estava com uma infecção grave em um dos dedos. O anelar estava inchado, vermelho, latejante. Médicos chamados pelo Holland Festival, em Amsterdã, chegaram a recomendar o cancelamento da apresentação. Araújo decidiu subir ao palco mesmo assim. “Fiz um longo processo de convencimento de dizer para a galera que eu iria fazer o concerto de todo jeito. Iria no dia seguinte para o hospital, mas aquele concerto eu não ia perder de jeito nenhum”, diz. “Existe algo mágico no palco. Meu dia inteiro foi um pesadelo, menos aquela uma hora em que eu estava tocando. Aquela uma hora foi prazerosíssima”. Foi tocando com nove dedos que ele gravou o disco e filme-concerto “Toró”, lançado no Brasil pelo selo RISCO. Registrado ao vivo ao lado da Metropole Orkest, uma das principais orquestras europeias dedicadas ao jazz, ao pop e à chamada world music, o projeto coloca Araújo em diálogo com uma instituição que já colaborou com nomes como Ella Fitzgerald, Brian Eno, Jacob Collier e Snarky Puppy. Em vez de botar o piano no centro, Araújo desloca o protagonismo para a percussão. Em lugar de fazer a orquestra soar como símbolo de solenidade europeia, aproxima cordas, metais e sopros de ilús, alfaias, eletrônica, canto, frevo, afoxé, maracatu, toré, coco e música de terreiro. “Queria fazer um projeto em que o protagonismo não estivesse nos violinos, nem no pianista. Os grandes virtuoses [na música clássica, aqueles instrumentistas ou cantores que possuem um domínio técnico avançado e excepcional] são os percussionistas”, afirma. “Os grandes percussionistas da minha cidade. As grandes estrelas”. O menino do teclado Em \"Toró\", seu mais recente trabalho, ele diz que o objetivo foi dar protagonismo à percussão Bob Wolfenson Nascido em Recife, Araújo cresceu sem músicos na família. A primeira entrada no universo musical veio por um brinquedo: um pequeno teclado dado pelo pai quando ele tinha cerca de sete anos. “Tocava nesse tecladinho qualquer música que passasse na rádio ou na TV. Repetia logo depois”, lembra. O pai percebeu a facilidade do filho e o levou ao Conservatório Pernambucano de Música. No começo dos estudos, Araújo encontrou dificuldade justamente no que costuma organizar a formação clássica. “Para mim era mais fácil ouvir a música e repetir”. A educação, porém, foi tradicional. Araújo cresceu no ambiente do conservatório, estudando piano, repertório erudito e concursos. Aos 11 anos, já viajava pelo Brasil para competir. Aos 16, começou a chamar atenção por um motivo pouco ortodoxo: mexia nas partituras que tocava. Improvisava, alterava trechos, criava passagens. “Tinha uma segurança absurda do que eu estava fazendo”, lembra. Em um dos primeiros trabalhos, quando a cortina se abria, ele entrava em cena, subia no banco e dava um pisão no piano. O gesto marcava uma tentativa de romper com a cerimônia em torno da música erudita. Entre o conservatório e o terreiro Em “Toró”, essa busca encontra uma escala maior. O convite para o projeto surgiu quando Araújo morava em Paris, onde fazia direção musical e composição para uma reinvenção de “Hamlet” no Odéon–Théâtre de l’Europe. Chamado pelo Holland Festival para uma apresentação, ele propôs algo mais ambicioso do que um concerto solo: queria uma orquestra, uma banda brasileira e a percussão pernambucana ocupando o centro da cena. “Falei: quero levar os músicos da minha terra”, conta. “Queria fazer um projeto que partisse da música erudita, mas em que os virtuoses fossem os percussionistas.” A experiência também carregava um receio. Araújo temia que a música fosse recebida na Europa como exotismo ou que parecesse distante demais para os músicos da orquestra. A resposta encontrada nos ensaios e no concerto o surpreendeu. “Eles ficaram pirados com o que estava acontecendo. Muito felizes em tocar um tipo de música que nunca tinham ouvido na vida.” Para o pianista, há hoje uma curiosidade internacional pelos “Brasis dentro do Brasil”. Não apenas o Brasil mais palatável da bossa nova ou do samba exportado, mas um país atravessado por manifestações culturais regionais, matrizes africanas, indígenas, afro-indígenas, festas populares e linguagens menos domesticadas pelo circuito global. Essa percepção vem de longe. A primeira lembrança musical de Araújo é anterior ao conservatório e passa pelo Carnaval do Recife. “Até hoje, quando essa música é tocada no Carnaval do Recife, bate em algum lugar muito específico dentro de mim, que eu não sei nem explicar qual é”. Ele se refere a Último Dia, frevo de Levino Ferreira que ouviu ainda criança. As lembranças de infância são tomadas também por caboclinho, coco, maracatu, frevo, caboclo de lança e alfaias. O músico diz não ter religiosidade, apesar de ter sido criado em uma família católica e depois próxima do espiritismo kardecista. A aproximação com religiões de matriz africana, afro-brasileira e afro-indígena se dá pela escuta. “Nunca tive um salto de fé em relação a nenhuma religião. Agora, as religiões que têm essa força musical, logicamente, me encantam através da música\", pontua. “A música brasileira está impregnada disso”. O piano fora do centro Com mais de uma década de carreira, o pianista acaba de lançar seu novo trabalho Bob Wolfenson Embora seja pianista, Araújo parece menos interessado em reafirmar o piano como lugar de autoridade do que em colocá-lo em atrito com outras forças. Em “Toró”, há momentos em que o instrumento aparece como condutor, mas não necessariamente como protagonista. Revistas Newsletter O álbum se organiza como uma travessia sonora. Há peças inspiradas em afoxés de Recife e Olinda, faixas em que um rádio de pilha sintonizado ao vivo ocupa o lugar de solista, composições com ecos de trip-hop, música minimalista, texturas orquestrais, eletrônica e ritmos tradicionais. Em uma das faixas, o percurso passa por toré indígena, boi do Maranhão, maracatu e coco. Gravado em Amsterdã, “Toró” também marca a estreia de Araújo como solista de uma orquestra sinfônica de porte internacional em um lançamento fonográfico. Antes disso, ele já havia se apresentado fora do país, feito turnês com Arnaldo Antunes no projeto “Lágrimas no Mar” e trabalhado em produções europeias de teatro. O novo projeto, porém, ocupa outro lugar em sua trajetória. “É meu primeiro grande lançamento internacional”. Som, imagem e vaidade A dimensão visual de “Toró” também é parte importante do projeto. Além do álbum, o trabalho ganhou um filme-concerto dirigido por Paulo Camacho e Yara Ktaishe. Depois de pré-estreias na Sala São Paulo e no Cinema São Luiz, no Recife, a obra foi disponibilizada nos canais de YouTube do artista e da orquestra. O visual do filme carrega uma história própria. A decisão pelo preto e branco não foi apenas estética. Em cores, havia um detalhe que desviava o olhar do concerto. “Você não conseguia prestar atenção em outra coisa. A unha estava roxa, para cair. O dedo estava vermelho da cor de um tomate”, afirma. “Então a gente fez o filme preto e branco.” A relação com a imagem, para ele, passa por controle e vulnerabilidade. Araújo diz ter dificuldade com sessões de foto, embora já tenha atuado no cinema e no teatro. A câmera parada o intimida mais do que a cena. “A foto é muito difícil, porque é só você tendo que agir para uma coisa que é plana”. Em sessão recente com Bob Wolfenson, feita no contexto da turnê “Lágrimas no Mar”, parceria com Arnaldo Antunes, ele encontrou uma solução para lidar com esse desconforto. “Gosto que me dirijam. Faça isso, faça aquilo, olha para lá, olha para cá”, cita o profissional que também compôs as fotos do novo trabalho.",
  "title": "Pianista pernambucano conta como levou tambores, música brasileira e até rádio de pilha a uma orquestra europeia: “Ficaram pirados\""
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