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"textContent": "\nO paulista Pedro Andrade, 36, tornou-se um dos principais designers da moda contemporânea no Brasil. Ao lado da esposa, a diretora criativa Paula Kim, 38, alcançou um feito inédito com a P. Andrade: em 2025, ela virou a primeira etiqueta nacional 100% masculina a integrar o calendário da Semana de Moda de Paris — o que se repetiu nesta temporada de verão, em junho. Ainda no ano passado, Pedro apresentou um desfile para 6 mil pessoas no Pacaembu, foi nomeado para a lista da plataforma The Business of Fashion, a BoF 500, que reúne os nomes mais relevantes da moda no mundo, e celebrou o nascimento de seu segundo filho. Craque das colaborações, o diretor criativo das marcas Piet, voltada para o streetwear, e P. Andrade, mais conceitual, já se juntou a nomes como Levi’s (com jeans de algodão colorido naturalmente, da Paraíba), Oakley, Havaianas (parceria apresentada nesta última Paris Fashion Week) e Nike. “Estou muito seguro”, afirma. Pedro Andrade, criador da Piet e cocriador da P. Andrade. Franco Amendola PARIS FASHION WEEK Depois do primeiro desfile (em Paris, em 2025), pensei em nunca mais fazer isso. Estou acostumado com desfiles — havia acabado de organizar um para 6 mil pessoas — e achei que tiraria de letra aquele para 200 convidados em Paris, mas virou o meu maior desafio profissional. Como designer, eu me cobro bastante e saí desanimado. Achei que não consegui corresponder às expectativas e me critiquei muito. Eu e a Paula estávamos em um momento delicado (após o nascimento do segundo filho, Moon). Resolvemos reaprender tudo de que precisávamos para voltar mais fortes. Desta vez nos sentimos bem mais confortáveis. Esse segundo desfile na França é um símbolo de resistência da moda, para mostrar que não fomos lá só para fazer um auê. Estou muito seguro para continuar e feliz por não ter desistido. O CONCEITO DA COLEÇÃO Há algum tempo, começamos um estudo sobre festas brasileiras e pesquisamos a cultura dos bate-bolas no Rio. Falei com o Rudah Ribeiro, do Goma Studios, e Marcelo D2, bate-bola desde criança. Mapeamos lugares e pessoas para aprender mais e convidei o Rudah para me ajudar na direção de conceito e o D2 para dirigir a apresentação comigo. No meio do caminho, percebemos que o bate-bola era apenas uma das festas interessantes e resolvemos estudar outras subculturas, como aquelas conectadas à Páscoa e ao Carnaval, as pagãs... A coleção fala sobre a importância dessas comemorações: não festejamos porque a vida é boa, mas porque a vida dá tudo de ruim para a gente e precisamos compensar isso. Trouxemos esse antagonismo: de um lado a festa e de outro o horror de um país projetado para que tudo dê errado. Além dos bate-bolas, trabalhamos com o gorila de saco, a La Ursa de Recife, os papangus da Peroba (no Ceará), a Folia de Reis... TECNOLOGIA Mantivemos nossos padrões com tecnologia da Itália e do Japão, mas trouxemos também manufatura brasileira e técnicas locais. Seguimos a parceria com a Levi’s. Na coleção passada da P. Andrade, o tingimento do jeans se deu a partir de bactérias. Agora, trabalhamos com jeans de algodão naturalmente colorido, cultivado no sertão paraibano, em colaboração ainda com a Natural Cotton Color. Também nos juntamos às bordadeiras de Caicó, no Rio Grande do Norte. Pedro Andrade, criador da Piet e cocriador da P. Andrade. Franco Amendola CARREIRA EM CASAL Eu vou às entrevistas e a Paula se esconde (risos). Criativamente, nos dividimos meio a meio. Nesse sentido, minha conexão com ela é algo que nunca havia vivenciado. Trabalhamos muito bem juntos. Acontece de a Paula começar um ‘sketch’, passar o papel para mim e eu terminar. Isso é muito raro, então respeitamos quão especial é essa sensação de parecermos uma só mente criando. Às vezes não queremos falar de trabalho e estamos cada um com um filho no colo, mas é o que temos. BRASIL SUBESTIMADO NA MODA? Acho que às vezes sim, às vezes não. Em alguns momentos nos colocamos num lugar de injustiçados, mas na verdade não cultivamos o mesmo histórico em comparação a Milão, Paris, NY ou Tóquio. Temos a tendência de pensar que ‘ninguém fala da gente’, mas talvez esse seja o processo. Estamos nos preparando para, quem sabe um dia, nos tornar suficientes no sentido de contar com uma moda global e não só ser uma fonte de inspiração. De fato, hoje o Brasil se mostra uma fonte criativa. Pessoas do mundo inteiro vêm para cá e bebem das nossas referências. O QUE NOSSO PAÍS OFERECE A questão é: o que o brasileiro faz com tantas referências? Porque elas acabam ficando repetitivas. Isso estimula as pessoas a buscar coisas lá fora e, às vezes, preferir quando alguém se apropria das nossas referências e as apresenta de outro jeito. Talvez não estejamos sabendo lidar com a nossa fonte inesgotável de recurso criativo. Em parte, isso passa por uma questão educacional. Deve-se olhar para muita coisa antes do produto final da marca. Não contamos com uma grande instituição centenária que forme um designer contemporâneo ou um diretor criativo. Aprendemos na prática, na marra. Talvez o brasileiro ainda esteja descobrindo como se tornar global. Precisamos seguir a lógica ‘isso é meu, vou fazer do meu jeito’. Mas vivemos um processo. Pedro Andrade, criador da Piet e cocriador da P. Andrade. Franco Amendola CÓPIAS A partir do momento em que você invade o espaço de outro designer, é como se entrasse sem bater na porta, e muita gente faz isso. Não estou condenando, às vezes isso acontece porque nos acostumamos a pensar: ‘Vou fazer a minha versão daquela roupa porque o brasileiro poderá comprar’. Porém, percebo que há designers que, infelizmente, continuam entrando sem bater. Trata-se de uma linha tênue, porque você pode se inspirar — e ninguém está dizendo que é preciso inventar a roda —, mas deve ter bom senso para diluir a ideia o suficiente para que ela se torne nova; não apenas uma versão do que seu amigo ao lado fez. Dá para ser original. Eu sou. Não estou dizendo que nunca fiz nada que ninguém tenha feito, e isso não me torna menos original. As pessoas se esquecem de colocar sua digital ali. Pedro Andrade, criador da Piet e cocriador da P. Andrade. Franco Amendola REFERÊNCIAS Há alguns anos, entrei em uma jornada de me descobrir e tento ficar afastado do lance de virar fã. Claro que algumas histórias me inspiram, como a do Oskar Metsavaht (da Osklen), por ver aonde o brasileiro pode chegar, como ele passou o legado de pai para filho. Se falarmos de gosto pessoal, amo a Comme des Garçons, o Hiroshi Fujiwara, a Undercover, mas não as vejo como uma fonte de inspiração, vejo mais com um olhar de admiração. CRÍTICAS Aprendi a lidar, porque apanho muito, cara. Ando em uma corda bamba, pois meu trabalho figura num lugar tênue. Falo sobre subculturas, cultura popular, comunidades. Não falo sobre um Brasil de exportação; eu exporto o Brasil do qual ninguém quer falar. Muitas vezes sou tachado de apropriador cultural, sendo que faço parte disso tudo. Essa provocação pertence ao meu trabalho. Sou super a favor de a crítica de moda real voltar ao Brasil. Todo mundo fala: ‘Valorize a moda nacional’, mas as pessoas confundem valorizar com sempre elogiar. Por que aqui ninguém critica a gente? PATERNIDADE Respeito mais os meus limites, porque sei que senão acabo afetando os limites das crianças (Astro, 3, e Moon, 1). Como disse, depois do desfile de Paris, pensei: ‘Não quero mais. Quero sossego para a minha vida’. Mas depois: ‘O que meus filhos vão pensar quando crescerem?’. Vão questionar por que os pais não continuaram. O que faço hoje é mais para eles do que para mim. Cresci filho único, então estou aprendendo a dividir não com um irmão, mas com os meus filhos, sabe? Pedro Andrade, criador da Piet e cocriador da P. Andrade. Franco Amendola HOBBIES Sempre pratiquei muito esporte. Atualmente estou me recuperando de um cotovelo quebrado no skate. Ando de skate com a Paula e o Astro, que já começou. Também jogo golfe. São as duas modalidades que mais exercito. A Paula é triatleta, eu adoro jogar bola. Gostamos ainda de surfar. CUIDADOS PESSOAIS Faço skincare porque tenho uma esposa coreana, que me ensinou muito bem. Conto com um sabonete próprio, passo creme, sérum e cuido do meu cabelo. No último ano, passei por um grau de exposição bem maior do que o normal e percebi que precisava me cuidar mais. Visto bastante minhas próprias peças-piloto e parei de ficar comprando roupas. Venho me tornando uma pessoa mais básica e sóbria, porque tenho muitos estímulos com duas marcas e projetos colaborativos. Quando as coisas são lançadas e chegam para mim, não estou aguentando mais ver nada. MÚSICA Gosto de rock, reggae, dub e ska, mas meu negócio sempre foi o rap. Apesar disso, o que mais estou escutando é o álbum instrumental do Flea, do Red Hot, ‘Honora’. Além das músicas do Astro, de Blippi, Galinha Pintadinha (risos)... PALMEIRENSE Amo futebol, sou palmeirense. Meu pai atuou como goleiro profissional e sempre joguei bola. Quando criança, ele me levava em peneiras para eu talvez virar jogador. Meu pai é palmeirense roxo e, há muitos anos, recebo todas as camisas do time. Às vezes ele me liga e fala: ‘Gostei muito dessa, você pode me dar?’ (risos). Para mim, o futebol é algo que está dentro da gente. PIET E O FUTEBOL A decisão de falar sobre futebol durante dois anos aconteceu porque a Piet tem como objetivo mapear o que influencia o streetwear brasileiro. Fiz isso com o surfwear, com o skate, com a música, só que, quando você chega ao futebol, não dá para falar em uma coleção só. Quero que a Piet seja, nos próximos anos, a porta-voz global dessa estética. Crio uma moda contemporânea, mas com signos que bebo da moda de rua, e o futebol me ajuda muito a exemplificar isso, principalmente em um ano de Copa. Vou ficar três anos falando sobre isso, porque no ano que vem tem Copa do Mundo feminina, no Brasil ainda. Pedro Andrade, criador da Piet e cocriador da P. Andrade. Franco Amendola FUTURO Quero começar a soltar um pouco a rédea da P. Andrade, no sentido de operação, para que ela saia um pouco do universo laboratorial e se transforme numa marca com temporadas bem definidas, com mais penetração no mercado brasileiro. Ainda não possuímos pontos de venda no país. Agora, com a segunda temporada em Paris, o objetivo é que ela se desprenda da Piet para deixar de ser um laboratório de inovação e virar uma marca 100% independente. Pedro Andrade é a capa digital da GQ Brasil. Foto: Franco Amendola | Direção de arte: Victor Amirabile Revistas Newsletter",
"title": "Pedro Andrade leva cultura brasileira à Paris Fashion Week e comemora: \"Estou muito seguro\""
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