Apresentador Ivan Moré lembra problema em relacionamento passado que motivou vasectomia: "Estávamos com dificuldade"
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June 23, 2026
Quando decidiu pela vasectomia, em 2016, o jornalista e apresentador Ivan Moré, 49, vivia um momento pleno da carreira. Aos 39 anos, comandava o “Globo Esporte São Paulo” e cultivava uma longa trajetória na emissora. “Era um período próspero, com muita visibilidade na TV”, lembra. Estava casado havia cerca de cinco anos com a empresária e jornalista Mariana Del Grande, com quem acabara de ter Lui, hoje com 10 anos (o casal já tinha Mel, 13). “A vasectomia foi um processo de entendimento”, lembra. “Minha cabeça é diferente hoje, mas na época senti um peso trazido pelo segundo filho, um impacto na relação. Eu e minha parceira estávamos com dificuldade no relacionamento, e eu acreditava que uma terceira criança poderia deixar tudo ainda mais complicado.” Casos como o do apresentador, homens nas cercanias dos 40 anos, com a carreira bem encaminhada, buscando interromper sua fertilidade, não são incomuns. Uma pesquisa de 2025 da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri realizada no interior de Minas Gerais revelou que, quando o assunto é esterilização, o público masculino entre 30 e 41 anos pesa primeiro se está satisfeito com o número de filhos antes de pôr na mesa as condições financeiras. “Tal padrão pode ser associado a uma fase da vida em que eles atingem estabilidade pessoal e familiar, estando potencialmente mais propensos a tomar decisões definitivas sobre o planejamento reprodutivo”, diz o estudo. O que é a vasectomia A operação da vasectomia é considerada simples. Afeta apenas tecidos superficiais, costuma exigir só anestesia local e demorar entre vinte e quarenta minutos. Os canais deferentes, que alimentam o líquido seminal com espermatozoides, são cortados (geralmente por meio de duas incisões no escroto) e cada ponta é dobrada de forma a evitar que o corpo restabeleça a conexão com o tempo. Com frequência, a alta ocorre no mesmo dia, com a sugestão de afastamento de dois ou três dias do trabalho. O procedimento, gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e coberto por convênios médicos, quase não traz contraindicações. “Situações que exigem cautela são infecção ativa na região genital, distúrbios importantes de coagulação e a própria indecisão quanto ao desejo futuro de ter filhos”, afirma Adelmo Aires Negre, urologista da rede AmorSaúde. Vale reforçar que nada é à prova de balas, avisa Renato Fraietta, urologista coordenador da Câmara Técnica de Reprodução Humana e Técnicas de Reprodução Assistida do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo: “Não existe método de contracepção 100% garantido. Mesmo o homem que realiza a vasectomia pode ter a recanalização espontânea. É perto de zero, menos de 1% dos casos. Mas aí você imagina o bafafá que dá, né?”. Por algum tempo, o corpo mantém ainda espermatozoides de reserva no canal deferente. “Depois da vasectomia, não se pode já ter relação sexual sem alguma alternativa anticoncepcional, pelo menos nas primeiras vinte ejaculações”, ensina Rodrigo Wilson Andrade, coordenador de urologia do Hospital Albert Sabin. “Se após a cirurgia o homem tiver uma relação semanal, por exemplo, pode demorar cinco meses para acabar com esse estoque.” Deve-se esperar que o espermograma, realizado em laboratório, confirme não existir mais espermatozoides na jogada. Adelmo destaca que a operação não tem caráter de castração: os testículos continuam produzindo testosterona e ainda há ejaculação. Ela também não protege contra infecções sexualmente transmissíveis. “Portanto, o preservativo continua indicado em relações de risco”, avisa. Sobre a vasectomia Jazz Hradec A vida sexual costuma seguir tranquilamente. Em uma pesquisa publicada pela Universidade Federal de Minas Gerais em março de 2025, 42 casais cujo parceiro realizou vasectomia responderam a um questionário-padrão de satisfação sexual. O resultado da dissertação mostrou não haver nenhum impacto negativo relevante no pós-operatório. Praticamente nenhuma nota baixou em métricas como orgasmo, ereção e desejo. Segundo dados obtidos pelo jornal “O Globo”, o número de cirurgias do tipo realizadas pelo SUS subiu de 25.929 em 2015 para 85.749 em 2024 - um aumento de 231%. Uma mudança legislativa em 2022, que permitiu a homens de 21 a 25 anos também passar pelo procedimento, pode ter inflado essa conta. Os médicos Rodrigo Wilson Andrade e Renato Fraietta não descartam um aumento de buscas entre os mais novos, mas apenas Rodrigo atendeu neste ano um paciente com esse perfil, de 22 anos: “Orientei que aguardasse uma década antes de se decidir. Não sei se ele vai esperar ou vai procurar outro médico”. Em consultórios, o assunto tende a ser delicado. Rodrigo aponta para a letra da lei, que libera a vasectomia para maiores de 21 ou para quem tem pelo menos dois filhos vivos. “No caso de um jovem de 22 anos sem filho nenhum, é permitida. Mas será recomendada? Existem diversas nuances. Trata-se de um dilema ético, médico e social”, pondera. Soma-se a isso o fato de que, desde 2022, a obrigação de consentimento de cônjuges também caiu. “Se ele for casado e fizer à revelia da parceira, eu não quero meter minha colher nessa briga”, completa o urologista Rodrigo. Mesmo o homem que realiza a vasectomia pode ter a recanalização espontânea, mas acontece em menos de 1% dos casos." Por se tratar de uma decisão controversa, a lei prevê um intervalo mínimo de sessenta dias entre a orientação profissional e a operação em si. Nesse meio-tempo, o médico pode exigir a avaliação de um psicólogo ou de um assistente social a fim de auxiliar sua escolha. Há também a recomendação de informar sobre outros métodos contraceptivos que funcionam no lugar do procedimento. A reversão do procedimento Apesar dos cuidados, quem decide “fechar a fábrica” tende a não arredar pé — ao menos na experiência em consultório de profissionais. “Desistência é incomum. Agora reversão de vasectomia, daquele paciente que fez há oito ou dez anos e se arrependeu, isso já não é muito raro”, explica Rodrigo Andrade. Que o diga o finado rei Pelé. Nos idos de seu segundo casamento, em 1994, com Assíria Lemos Brito, Edson Arantes do Nascimento tentou a reversão de uma vasectomia realizada algum tempo antes. O jornalista Juca Kfouri escreveu na “Folha de S.Paulo” em 1996 que Pelé, celebrando a gravidez de Assíria durante um almoço de aniversário de seu pai, chegou a desafiar outro monarca, esse da música, que também havia realizado a operação: “Quero ver se o Roberto Carlos segue nosso exemplo” . Trata-se de uma missão sem garantias. “O paciente não pode ter expectativa de que a reversão é fácil”, avisa Renato Fraietta. “Ela consiste em uma cirurgia com anestesia geral, que dura um total de quatro horas, e não é coberta por plano de saúde nem pelo SUS.” Renato calcula que o procedimento, envolvendo insumos caros e internação, não custa menos de R$ 20 mil. Enfatiza também que, quanto mais tempo se passa, menores as chances de o homem conseguir recuperar sua fertilidade plena. O congelamento de sêmen, método de preservação de espermatozoides para inseminação artificial ou fertilização in vitro, aparece como opção. Entretanto, o custo-benefício varia. “Talvez um sujeito de 46 anos consiga mais sucesso se usar o que congelou com 26, digamos, do que ao realizar uma reversão de vasectomia depois de vinte anos de obstrução”, analisa Renato. Nesse exemplo, deve-se arcar com o custo anual de manutenção do estoque de sêmen (embora oscile, o valor fica em cerca de R$ 2 mil ao ano), além das despesas com o próprio processo de reprodução assistida. Revistas Newsletter No caso de Ivan Moré, a vida mudou depois de 2016: o fim do contrato com a Globo em 2019, o divórcio finalizado em 2021, o casamento com a empresária Giovanna Lemos, 26, e a decisão de se submeter à reversão da vasectomia, em maio de 2024. “O doutor pediu para esperar pelo menos dois anos para engravidar”, lembra. O primeiro espermograma feito após a reversão (geralmente solicitado no mês seguinte) mostrou avanço, mas reforçou a necessidade de paciência. Acusou algo em torno de 1,5 milhão de espermatozoides por mililitro, abaixo dos 15 milhões por mililitro considerados a quantidade normal em um homem fértil. Quanto ao segundo espermograma, programado para o ano seguinte… Este ficou ao deus-dará, cancelado por motivo de força maior: “Um pouquinho antes do Dia das Mães de 2025, descobrimos que a Giovanna estava grávida”. Aqui, o sucesso reprodutivo se mostrou mérito principal da esposa. “O organismo dela estava no pico da fertilidade e nas condições físicas ideais”, explica Moré. “O fator fundamental é a idade e o potencial reprodutivo da parceira”, ressalta Renato Fraietta. A reversão depois de três a oito anos da primeira cirurgia, como no caso de Moré, oferece cerca de 80% de eficácia, pontua o especialista. Amora, um esforço conjunto do casal, nasceu de parto normal no dia 25 de dezembro de 2025. “Ela foi meu presente de Natal”, comemora o apresentador.
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