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  "textContent": "\nNo dia da abertura da Copa, Jheni Ferreira recebeu uma ligação da mãe. Do outro lado da linha, veio a pergunta: a saia que Shakira estava usando era dela? A estilista brasileira, que havia vestido a cantora semanas antes em uma ação promocional ligada à música “Dai Dai”, com o compositor nigeriano Burna Boy, foi procurar as imagens. A peça, assinada pela Off-White, não era a mesma que havia saído de seu acervo, mas, para ela, havia algo familiar demais ali. “É óbvio que as cores não são as mesmas, tem um toque que só eu sei dar, mas o meu conceito estava ali”, define. A criadora da SSJHENI, marca que produz peças feitas a partir de retalhos, camisetas e materiais reaproveitados, diz não querer transformar o caso em uma acusação formal de plágio. O que ela afirma buscar é uma explicação para o caminho percorrido por uma peça sua depois de ser comprada pela equipe da cantora. Segundo a estilista, a saia havia sido vendida sob a justificativa de que Shakira gostaria de manter o item para acervo, exposição ou possível uso relacionado à Copa. Semanas depois, Jheni diz ter descoberto que o envio foi feito para um endereço ligado ao escritório criativo da Off-White. “Por que alguém compra uma saia dizendo que seria para um acervo da artista e manda para uma marca?”, questiona. A GQ Brasil procurou a Off-White, o estilista da Shakira Nicolas Bru, além da estilista a Off-White Gabrielle Larcher, mas não obteve resposta até a publicação deste texto. A peça que chegou às 6h A relação de Jheni com a equipe de Shakira começou de forma positiva. Segundo a estilista, uma produtora no Brasil indicou seu trabalho ao stylist Nicolas Bru, que teria recebido acesso a um portfólio privado com cerca de 300 páginas de criações da marca. A partir dali, algumas peças foram selecionadas para a cantora. A logística foi feita às pressas. Jheni conta que a saia saiu de seu acervo em São Paulo e chegou ao Rio de Janeiro em menos de 24 horas, por volta das 6h da manhã. Às 9h, segundo ela, a peça já seria usada por Shakira.Naquele momento, a estilista diz que não sabia exatamente qual seria o destino da produção. Só depois descobriu que se tratava de uma ação promocional de “Dai Dai”, música de Shakira com Burna Boy ligada à Copa. “Foi uma sensação de êxtase, de ter vencido na vida. Um trabalho formiguinha que deu certo”. A repercussão veio rápido. Jheni conta que viu a roupa circular em jornais e páginas internacionais, especialmente por causa da dimensão global da artista e do evento esportivo. “Para uma marca independente, feita de maneira artesanal e sem grande estrutura, aquele parecia ser um momento de virada”, pontua. A venda da saia Duas semanas depois, segundo Jheni, Nicolas voltou a procurá-la por e-mail. Na mensagem, ele dizia que a ação promocional havia ganhado muita repercussão, que Shakira tinha gostado do camisa-saia e que gostaria de ficar com a produção completa para guardar em exposição ou para algo relacionado à Copa. Jheni aceitou vender a peça, mas faz uma distinção que considera central: o valor acordado, segundo ela, dizia respeito à saia física, não à cessão do conceito criativo. “Não estou vendendo um conceito, porque aí é outro valor”, afirma. A estilista diz que enviou a saia para a Itália. Na época, estranhou o destino, mas não viu motivo para desconfiar. Para ela, fazia sentido imaginar que Shakira pudesse estar viajando, em turnê ou em alguma agenda internacional em que o look seria novamente usado ou armazenado. O incômodo surgiu apenas depois, quando viu a cantora usando uma saia assinada pela Off-White na abertura da Copa. Ao conferir o rastreio do envio, Jheni afirma ter identificado a relação entre o endereço de destino e o escritório criativo da marca. Ela também diz que uma profissional ligada à Off-White havia começado a segui-la nas redes sociais semanas antes, período em que publicava sua coleção relacionada à Copa. “Esperava um esclarecimento. Algo como: ‘Jheni, isso foi feito antes, está aqui a data do croqui’. Mas eu não tive resposta nenhuma”. O impacto na saúde Jheni afirma que tentou contato com os envolvidos depois de perceber a coincidência, mas não recebeu resposta formal. A repercussão nas redes, segundo ela, trouxe apoio, mas também ataques. Grávida, no oitavo mês, a estilista diz que o episódio afetou sua saúde emocional e sua relação com o próprio trabalho. Ela conta ter sentido crise de pânico, abalo na autoestima e insegurança em negociações futuras com stylists e marcas. “Vivo disso. Tenho que conversar com stylist, negociar com stylist todos os dias, e isso me deixa muito com o pé atrás”, afirma. “Cada vez mais eu quero me afastar, sumir, para não correr o risco de sentir isso de novo”. Para Jheni, a discussão que surgiu a partir do caso ultrapassa a comparação entre duas peças. Ela diz enxergar no episódio uma chance de discutir a vulnerabilidade de criadores independentes em negociações com grandes artistas, marcas globais e equipes internacionais. O que diz o direito da moda Para Beatriz Fernandes Genaro, presidente da Comissão de Direito da Moda da OAB-SP, o caso deve ser observado com cautela. Segundo ela, não é possível concluir se houve reprodução de design apenas pela comparação visual entre as peças. A advogada afirma que uma análise desse tipo exigiria estudo técnico, avaliação de mercado e, idealmente, perícia. Isso porque o upcycling feito com camisetas de futebol envolve elementos que já existem, como marcas, brasões, estampas e modelagens. “É preciso entender o que existe de particular naquela criação”, explica. Beatriz afirma que a proteção jurídica não recai necessariamente sobre a ideia de transformar camisetas em saia. O que pode ser analisado é a forma concreta como essa criação foi executada: recorte, construção, técnica, composição, acabamento e identidade autoral. Por isso, a advogada diz que o caminho mais forte, em um caso como esse, talvez não seja discutir apenas se houve ou não cópia de design. Para ela, os elementos mais relevantes estão no conjunto da negociação: o acesso ao portfólio, a compra da peça, o envio para outro endereço e o surgimento posterior de uma criação com semelhanças. “Neste caso, embasaria a ação pela má-fé, na deslealdade, no fato de pedirem a peça, dizerem que era para uma finalidade e depois ela aparecer nesse contexto”, afirma. A especialista menciona a possibilidade de discutir aproveitamento parasitário, conceito usado quando uma parte se beneficia do trabalho da outra mesmo sem haver concorrência direta entre elas. “Concorrência desleal é quando falamos de empresas que concorrem entre si. Quando não são concorrentes diretas, mas uma se aproveita da outra para crescer ou elevar a própria marca, podemos falar em aproveitamento parasitário”. Um dos pontos centrais do caso, para a advogada, é a diferença entre vender uma peça e autorizar sua reprodução, adaptação ou exploração criativa. Na moda, a compra do objeto físico não significa automaticamente a cessão de direitos sobre a criação. A advogada explica que, quando se fala em obra, há uma distinção entre direitos patrimoniais e direitos morais. Os patrimoniais dizem respeito à exploração econômica. Os morais dizem respeito ao reconhecimento da autoria. “Posso comprar um Picasso e escrever meu nome embaixo? Não. O Picasso vai ser sempre um Picasso”, compara. No caso de criadores independentes, o problema costuma estar na falta de formalização. Contratos de aluguel, empréstimo ou venda devem deixar claro quem pode usar a peça, por quanto tempo, com qual finalidade, se ela pode circular entre terceiros, se pode ser enviada a outras marcas e se há ou não autorização para reprodução, releitura ou adaptação. “Meus clientes fazem contrato de absolutamente tudo. É chato? É. Demora um pouco mais? Demora. Mas, se a gente precisar de uma notificação ou de uma ação judicial, está ali”, resume.. Como criadores podem se proteger Para Beatriz, o caso serve como alerta para pequenos criadores que negociam com stylists, artistas e marcas de grande porte. A orientação é documentar cada etapa: e-mails, faturas comerciais, comprovantes de envio, croquis, fotos, prints, datas de publicação, registros de negociação e versões de portfólios enviados. A advogada também recomenda que marcas independentes tenham CNPJ, registrem a marca quando possível e busquem formas de comprovar o histórico das criações. Em alguns casos, ferramentas como blockchain podem funcionar como registro rápido de data e autoria, especialmente quando o tempo da moda é incompatível com processos longos. “Tudo na moda é muito rápido. Às vezes, uma patente demora anos, e aquele hype já entrou e saiu de moda várias vezes”, diz. A especialista também afirma que nem sempre a ação judicial deve ser o primeiro passo. Em casos internacionais, um processo pode ser caro, demorado e complexo. Antes disso, pode fazer sentido tentar uma notificação extrajudicial ou pedido de esclarecimento. Esse acordo, segundo Beatriz, poderia envolver crédito público, compensação financeira, reconhecimento da criação, devolução da peça ou compromisso de não repetição. “Num primeiro momento, faria uma notificação extrajudicial e tentaria um acordo”, pondera. Exposição nas redes também exige cautela A repercussão pública pode pressionar marcas e equipes a responderem, mas também traz riscos para quem denuncia. Beatriz afirma que os criadores devem ter cuidado ao expor nomes, documentos e mensagens sem orientação jurídica, especialmente quando ainda não há conclusão formal sobre o caso. Segundo ela, a outra parte poderia tentar alegar exposição indevida, falta de prova ou dano à imagem. No caso de Jheni, a advogada avalia que a estilista tomou algumas cautelas ao ocultar dados pessoais nos prints publicados. Ainda assim, diz que a estratégia precisa ser pensada para não prejudicar a própria criadora. “A gente teria que olhar esse processo não só como uma cópia de design, mas como um processo global de criação e de possível má-fé relacionada”, afirma. Sem resposta pública dos envolvidos, o caso segue sem conclusão. Para Jheni, a pergunta principal permanece: por que uma peça vendida sob a justificativa de integrar o acervo de Shakira teria sido enviada ao escritório criativo de outra marca? A resposta pode ou não vir dos envolvidos, mas, para criadores independentes, o episódio deixa uma lição prática: talento e visibilidade não bastam quando a negociação com grandes nomes acontece sem contrato detalhado, documentação robusta e clareza sobre os limites de uso de uma criação. “Quando a gente vem de um lugar com menos oportunidade, o que a gente quer é impulsionar nosso trabalho, mas não aconteceu”.",
  "title": "Estilista brasileira cobra explicações após ver saia semelhante à sua sendo usada por Shakira na abertura da Copa"
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